{"id":29952,"date":"2021-02-11T09:18:18","date_gmt":"2021-02-11T09:18:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=29952"},"modified":"2021-02-14T19:30:36","modified_gmt":"2021-02-14T19:30:36","slug":"manuel-fernandes-vicente-os-caminhos-que-ja-nao-levam-a-cardiga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-os-caminhos-que-ja-nao-levam-a-cardiga\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Os caminhos que j\u00e1 n\u00e3o levam \u00e0 Cardiga"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>H\u00e1 poucos dias, uma pessoa j\u00e1 de idade respeit\u00e1vel, mas ainda bastante ativo, chamou-me \u00e0 aten\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 a acontecer com as velhas liga\u00e7\u00f5es entre o Entroncamento e a Quinta da Cardiga, que sempre foram caminho que ele e outros, desde jovens, andarilharam, e que nos \u00faltimos tempos, talvez nos \u00faltimos dois ou tr\u00eas meses, foram atingidos pelos des\u00edgnios do progresso. Em consequ\u00eancia, e tal como hoje acontece a muitas coisas da nossa vida, passaram a ser virtuais, isto \u00e9, deixaram de ter exist\u00eancia f\u00edsica, e por isso deixou de se poder andar neles a p\u00e9, de bicicleta, de BTT ou noutros meios mais alternativos e igualmente rudimentares. O problema \u00e9 que nestes caminhos de p\u00e9 posto, e agora virtuais (sim, encontram-se ainda na Internet, e \u00e9 poss\u00edvel ainda identific\u00e1-los no Google Maps ou em algumas cartas militares, mais detalhadas) j\u00e1 n\u00e3o se pode presentemente transitar, s\u00e3o caminhos de mem\u00f3rias, de saudades de quem os trilhou, mas j\u00e1 n\u00e3o servem para andar.<\/p>\n<p>Um destes percursos suprimidos feitos pelo pisoteio humano ligava a Cidade Nova, a zona urbana mais a sul do Entroncamento (e cujo projeto urban\u00edstico ficou em <em>stand-by<\/em> devido \u00e0s diversas crises que t\u00eam afetado o pa\u00eds), aos chamados Port\u00f5es Grandes da Quinta da Cardiga e tinha uma trajet\u00f3ria curiosa, um longo arco de circunfer\u00eancia, pois contornava em toda a sua extens\u00e3o um enorme terreno agr\u00edcola habitualmente cultivado e servido por um gigantesco piv\u00f4 de rega que l\u00e1 se encontra. Este trilho, que servia a popula\u00e7\u00e3o rural e mais humilde de S\u00e3o Caetano, que vinha a p\u00e9 ou de bicicleta ao Entroncamento, ou da cidade se dirigia ao Tejo ou \u00e0 Quinta da Cardiga, substituiu h\u00e1 uns anos um outro, muito antigo, e conhecido pelo caminho do Casal do Conde \u2013 um casal com habita\u00e7\u00f5es e residentes, horta e um po\u00e7o (hoje sem qualquer sinal de terem alguma vez existido), a meio caminho entre a Cidade Nova e os Port\u00f5es Grandes. Este \u00faltimo acesso ligava ent\u00e3o quase em linha reta os Port\u00f5es Grandes \u00e0 zona onde atualmente se encontra a rotunda entre as escolas Ant\u00f3nio Gede\u00e3o e Dr. Ruy d\u2019Andrade e atravessava terrenos da vasta Quinta da Cardiga.\u00a0 Era um caminho vicinal, p\u00fablico, e bastante usado pelos entroncamentenses (sobretudo para desporto e lazer) e pelos s\u00e3ocaetanenses, que vinham trabalhar ou fazer compras nalguma mercearia, num talho ou nalgum padeiro da cidade.<\/p>\n<p>O outro trajeto pedonal fanado acompanhava o leito da Ribeira de Santa Catarina desde a zona onde esta passa a estar descoberta at\u00e9 ao tro\u00e7o do Itiner\u00e1rio Complementar 3 (IC3), num local entre os dois port\u00f5es de acesso \u00e0 Cardiga. Metade deste percurso foi absolutamente amputado ultimamente, ficando no seu lugar uma \u00e1rea de cultivo, que n\u00e3o o poupou, apesar do caminho seguir discretamente ao lado do silvado e da vegeta\u00e7\u00e3o rip\u00edcola marginal \u00e0 ribeira. Juntando os dois casos, mais o do caminho coletivo que atravessa o leito da ribeira e se dirige \u00e0 velha ETAR da cidade, absolutamente descaracterizado por uma viatura jur\u00e1ssica que o deixou deformado, a situa\u00e7\u00e3o de quem por ali quer (ou queria) circular est\u00e1 amarga.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que se coloca neste caso \u00e9 obviamente a do eterno conflito entre o interesse p\u00fablico e o interesse privado, ambos respeit\u00e1veis e louv\u00e1veis, mas que de vez em quando entram em choque. O propriet\u00e1rio daquelas terras, que j\u00e1 foram da Quinta da Cardiga, mas atualmente desconhe\u00e7o quem seja, ter\u00e1 todo o interesse em maximizar os proveitos que o seu pleno cultivo possa trazer. \u00c9 o interesse privado. Mas a vereda que l\u00e1 se encontrava era antiga, n\u00e3o sei se de tempos imemoriais \u2013 o que lhe garantiria logo, segundo julgo, direitos de usucapi\u00e3o aos seus utilizadores. E estes tinham nela interesses constitu\u00eddos, e que configurariam de algum modo um interesse p\u00fablico. Conhe\u00e7o o local, no prolongamento natural da ciclopedovia do sul, e posso garantir que ainda h\u00e1 poucos meses v\u00e1rias eram as pessoas que o usavam, e at\u00e9 com alguma frequ\u00eancia. J\u00e1 n\u00e3o era propriamente o velho caminho de utiliza\u00e7\u00e3o coletiva para vir \u00e0 mercearia ou para se chegar ao Tejo a p\u00e9 ou de bicicleta, mas, dado a sua discri\u00e7\u00e3o quase buc\u00f3lica e o arvoredo e vegeta\u00e7\u00e3o rip\u00edcola que lhe davam moldura, era utilizado por quem queria sair do reboli\u00e7o da cidade para corridas a p\u00e9 para limpar a cabe\u00e7a, caminhadas meditativas ou trajetos em BTT pelos mais jovens. Por estas raz\u00f5es, n\u00e3o tenho d\u00favidas que a cidade e as pessoas que a habitam ficaram agora um pouco mais pobres e ainda mais confinadas. Na sociedade, para que se viva em harmonia, h\u00e1 que saber articular o proveito individual com as vantagens coletivas.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo e grande economista escoc\u00eas Adam Smith, que muitos t\u00eam como o pai da economia moderna, acreditava que a conjuga\u00e7\u00e3o dos dois interesses se fazia naturalmente e ambos se equilibravam. Que perseguindo o interesse privado se atingia o bem comum, e que havia nesse equil\u00edbrio uma \u201cm\u00e3o invis\u00edvel\u201d que zelava para que ele funcionasse. E era nas suas longas caminhadas rurais, totalmente absorto nas suas ideias que acabariam por ser t\u00e3o inovadoras, que Adam Smith chegou \u00e0 ideia da compatibilidade econ\u00f3mica e at\u00e9 social entre o ego\u00edsmo pessoal e o interesse da sociedade no seu conjunto, da\u00ed saindo as reflex\u00f5es que deram origem \u00e0 sua <em>magnum opus A Riqueza das Na\u00e7\u00f5es. <\/em>Consta que um certo dia, domingo, depois de alguns passos incertos pelo jardim \u00e0 volta da sua habita\u00e7\u00e3o, em Kirkcaldy, na Esc\u00f3cia, tendo vestido apenas um roup\u00e3o sobre o corpo, Adam Smith p\u00f4s-se a andar por um caminho (ainda se estava longe do tr\u00e2nsito dos primeiros autom\u00f3veis), e de tal modo iria absorto nos seus pensamentos que s\u00f3 deu por si 19 quil\u00f3metros mais \u00e0 frente, e apenas porque come\u00e7ou a ouvir um estranho repicar de sinos que chamavam os fi\u00e9is para a missa dominical. Isto poderia ser um hino aos benditos caminhos pelo campo de terra batida pelos p\u00e9s\u2026<\/p>\n<p>Zelando cada um por si, garantia-se que a sociedade ficava melhor e funcionaria de uma forma mais perfeita. Mas nem sempre \u00e9 assim. E por vezes h\u00e1 caminhos que desaparecem sem deixar rasto, e sem que ningu\u00e9m se incomode com isso \u2212 salvo as pessoas que por l\u00e1 passeavam ou iam ao Tejo ou vinham buscar mercearias, ouviam o canto das aves no arvoredo e que v\u00e3o ter saudades. As saudades dos caminhos velhos\u2026<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-os-caminhos-que-ja-nao-levam-a-cardiga\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; H\u00e1 poucos dias, uma pessoa j\u00e1 de idade respeit\u00e1vel, mas ainda bastante ativo, chamou-me \u00e0 aten\u00e7\u00e3o ao que est\u00e1 a acontecer com as velhas liga\u00e7\u00f5es entre o Entroncamento e a Quinta da Cardiga, que sempre foram caminho que ele e outros, desde jovens, andarilharam, e que nos \u00faltimos tempos, talvez nos \u00faltimos dois ou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-29952","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29952"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29952\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}