{"id":26790,"date":"2020-11-29T17:55:46","date_gmt":"2020-11-29T17:55:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=26790"},"modified":"2020-11-29T17:55:46","modified_gmt":"2020-11-29T17:55:46","slug":"manuel-fernandes-vicente-nas-galerias-digitais-mas-ja-sem-canarios-que-avisem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-nas-galerias-digitais-mas-ja-sem-canarios-que-avisem\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Nas galerias digitais, mas j\u00e1 sem can\u00e1rios que avisem"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<em style=\"color: #222222; font-size: 15px;\">\u00a0<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>Um dos principais efeitos que as sucessivas revolu\u00e7\u00f5es industriais introduziram nas sociedades ocidentais, para al\u00e9m da inevit\u00e1vel e irrevers\u00edvel cultura de massas da\u00ed resultante, foi a da acresentada aposta nas m\u00e1quinas e tecnologias das mais diferentes ordens, onde assentou boa parte do nosso desenvolvimento nos dois \u00faltimos s\u00e9culos. De algum modo, elas e o iluminismo renascentista que lhes deu moldura vieram ocupar o espa\u00e7o das trevas da Inquisi\u00e7\u00e3o e dos fanatismos religiosos que atravessaram toda a Idade M\u00e9dia. De algum modo, a Ci\u00eancia e as tecnologias substitu\u00edram ent\u00e3o o Deus amea\u00e7ador que alguns quiseram ent\u00e3o impor.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a acelera\u00e7\u00e3o criada pelo \u201cadmir\u00e1vel mundo novo\u201d dos computadores, da <em>Internet<\/em>, das telecomunica\u00e7\u00f5es, das redes sociais que hipermediatizam a presen\u00e7a de quem o deseja e da hiperrealidade do virtual, est\u00e3o a tornar a sociedade atual cada vez mais radical, sem rosto, escrutinada por vigilantes ociosos, sem contacto f\u00edsico nem visual, prop\u00edcia a <em>fake news<\/em>, e mutante, desumana e submissa ao que quer que seja que se arme em tribuno de uma qualquer moralidade, como a da sinistra personagem de Donald Trump, que ter\u00e1 tanto mais audi\u00eancia quanto maior for o seu radicalismo.<\/p>\n<p>E, como se todos os malef\u00edcios j\u00e1 causados no mundo n\u00e3o fossem suficientes, a sarna da Covid-19 poder\u00e1 deixar ainda um legado mais perverso, repugnante e duradouro ao ser humano que os que j\u00e1 causou com a pandemia sanit\u00e1ria, econ\u00f3mica, psiqui\u00e1trica e social, para n\u00e3o sermos muito exaustivos. O que est\u00e1 em causa \u00e9 a idiotiza\u00e7\u00e3o e a hipnose do ser humano, comandado \u00e0 dist\u00e2ncia por um qualquer motor de busca, capaz de lhe apagar qualquer assomo de intelig\u00eancia ou de vontade pr\u00f3pria e o tornar num duende automatizado e destitu\u00eddo de qualquer capacidade de cr\u00edtica, ali\u00e1s, j\u00e1 com a preciosa colabora\u00e7\u00e3o e cumplicidade de alguns sistemas educativos e pol\u00edticos. Muita gente anda embriagada e servil de trela ao pesco\u00e7o com as novas tecnologias e, s\u00f3 por poder dispor delas, usa-as, sem modera\u00e7\u00e3o, sem limites e sobretudo sem pensar.<\/p>\n<p>Poeta, escritor e, sobretudo, m\u00fasico, Terpandro foi uma figura marcante da Gr\u00e9cia Antiga, a quem se atribui a pacifica\u00e7\u00e3o da b\u00e9lica Esparta apenas por meio da m\u00fasica e a inven\u00e7\u00e3o do heptac\u00f3rdio, uma variante da lira a quem acrescentou tr\u00eas cordas, ficando com sete. Terpandro criou ainda o diatonismo, e deve o seu nome ao facto de com as suas belas can\u00e7\u00f5es ter passado por um \u201cdeleitador de homens\u201d. O seu brilho como m\u00fasico inventivo e o facto de ter introduzido o ensino da m\u00fasica nas escolas n\u00e3o passaram despercebidos em Esparta, nem ao seu Senado. Tendo criado novas m\u00fasicas e novos instrumentos, os espartanos passaram a conhecer novas sonoridades, e isso tamb\u00e9m n\u00e3o passou ao lado dos insignes senadores da cidade-estado, que por zelo em excesso ou n\u00e3o, se mostraram preocupados com os efeitos que aquelas novas e estranhas melodias poderiam criar nos seus coet\u00e2neos. Acreditavam os senadores que a m\u00fasica era uma coisa s\u00e9ria, n\u00e3o s\u00f3 por si mesma, decerto, mas tamb\u00e9m pelos estados de esp\u00edrito e de \u00e2nimo, e os efeitos no corpo que era capaz de induzir. E, sendo assim, podia levar ao deleite, incentivar \u00e0 luta ou exceder o frenesim do nacionalismo numa batalha ou acentuar o lirismo diante de uma paisagem outonal. As notas musicais e os acordes que teciam podiam funcionar como leis, as \u201cnomoi\u201d, porque as pessoas ficavam hipnotizadas com elas, e deste modo pouco mais seriam que bonecos manupul\u00e1veis e comandados por sons. Para o Senado, Terpandro criara uma enorme perturba\u00e7\u00e3o na sociedade espartana e, s\u00f3 por esse atrevimento, merecia acusa\u00e7\u00e3o e castigo. Pris\u00e3o ou uma multa, a indignidade merecia uma pena. Mais cultas ou mais primitivas e arbor\u00edcolas, as opini\u00f5es dividiam-se, mas ningu\u00e9m pareceu indiferente ao caso.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o in\u00edcio da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, que exigia energia e muito carv\u00e3o e \u00e1gua para a produzir, o subsolo de muitas regi\u00f5es, sobretudo nos pa\u00edses onde a metamorfose come\u00e7ava a ter corpo e intensidade, come\u00e7ou a ser esventrado afanosamente para obter o combust\u00edvel negro que alimentava siderurgias, comboios, navios e a imagina\u00e7\u00e3o capitalista, mas deixava marcas nos mineiros que o extraiam em t\u00faneis e a centenas de metros da superf\u00edcie. Muitos mineiros morriam n\u00e3o por quedas ou desabamentos, \u201cmorriam apenas\u201d\u00a0 \u0336\u00a0 at\u00e9 se descobrir que afinal a sua morte era devida ao envenenamento com gases invis\u00edveis, mas t\u00f3xicos, como o metano e o mon\u00f3xido de carbono, produzidos no interior das galerias em explora\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m com perspetiva lembrou-se ent\u00e3o de levar can\u00e1rios para as minas, e ouvir naquela negritude afundada n\u00e3o s\u00f3 o canto terno e mavioso daquelas aves, como estar atento a se a bela ave se calava. Se se silenciava, era bem poss\u00edvel que tivesse morrido. E isso era mau sinal: os gases venenosos estariam a expandir-se na galeria e o melhor para todos era subir no elevador antes que fosse tarde. Este indicador anal\u00f3gico da toxicidade nas minas ficou conhecido em Inglaterra como <em>canary in the coal mine<\/em>, e nos tempos em que as minas eram assim exploradas ningu\u00e9m se deu ao luxo de, a partir de ent\u00e3o, o ignorar.<\/p>\n<p>Nestes tempos hodiernos e profundamente dist\u00f3picos, que a Covid-19 tornou numa era quase sociopata, de confinamentos, cada um vivendo no seu alv\u00e9olo f\u00edsico, psicol\u00f3gico e virtual, debatemo-nos ainda com a pandemia de todas as aplica\u00e7\u00f5es eletr\u00f3nicas que nos afastam ainda mais uns dos outros, at\u00e9 ao ponto de nos deixarmos de reconhecer (e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por causa da m\u00e1scara). E, entretanto, teremos perdido a nossa identidade e a nossa liberdade. Sem, ao menos um can\u00e1rio que nos possa avisar de tais danos digitais. Mais que um problema de sa\u00fade, social ou da grave depress\u00e3o econ\u00f3mica em que j\u00e1 mergulh\u00e1mos, a pandemia veio acrescentar a amea\u00e7a de um novo paradigma civilazacional. E o que vem para a\u00ed n\u00e3o \u00e9 flor que se cheire, nem haver\u00e1 can\u00e1rio que a ele n\u00e3o sucumbe. Uma civiliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 antecipada h\u00e1 mais de um s\u00e9culo pelo escritor E. M. Forster, que vive abaixo do solo, vegetando em plataformas tecnol\u00f3gicas, com tudo o que precisa ao alcance de um <em>click<\/em> no rato do computador, onde a liberdade n\u00e3o existe, mas em compensa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 precisa.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-nas-galerias-digitais-mas-ja-sem-canarios-que-avisem\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos principais efeitos que as sucessivas revolu\u00e7\u00f5es industriais introduziram nas sociedades ocidentais, para al\u00e9m da inevit\u00e1vel e irrevers\u00edvel cultura de massas da\u00ed resultante, foi a da acresentada aposta nas m\u00e1quinas e tecnologias das mais diferentes ordens, onde assentou boa parte do nosso desenvolvimento nos dois \u00faltimos s\u00e9culos. 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