{"id":24316,"date":"2020-10-05T09:16:56","date_gmt":"2020-10-05T08:16:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=24316"},"modified":"2020-10-29T16:32:17","modified_gmt":"2020-10-29T16:32:17","slug":"manuel-fernandes-vicente-5-de-outubro-celebrar-o-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-5-de-outubro-celebrar-o-que\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | 5 de Outubro? Celebrar o qu\u00ea?"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>O pa\u00eds celebra hoje, 5 de outubro, com um feriado nacional, os 110 anos ainda n\u00e3o sei bem se da deposi\u00e7\u00e3o da monarquia, se da implanta\u00e7\u00e3o de uma rep\u00fablica em Portugal, ou se de nada. H\u00e1 umas d\u00e9cadas, em 1910, um grupo de cidad\u00e3os mais politizados e radicalmente hostis \u00e0 coroa nacional, comandados por Te\u00f3filo Braga e com a ajuda de alguns oficiais e sargentos do ex\u00e9rcito, pensaram que substituindo um rei, que nem a tropa mon\u00e1rquica quis defender, e impondo um regime republicano, se resolveriam os complicados problemas do pa\u00eds que, ali\u00e1s, se agravavam por cada ano que passava. Proclamaram a rep\u00fablica, promulgaram uma nova Constitui\u00e7\u00e3o para o pa\u00eds, escolheram nova bandeira com novas cores, cunharam moedas novas para substitu\u00edr as antigas, e um belo e patri\u00f3tico hino passou a dar voz \u00e0 esperan\u00e7a coletiva e ao imagin\u00e1rio lus\u00edada. Tamb\u00e9m n\u00e3o esqueceram de encontrar um busto vi\u00e7oso e perfeito de mulher para simbolizar a nova realidade, que fazia prescrever o fim de todos os t\u00edtulos de nobreza e se enchia de promessas de direitos e garantias de liberdade e igualdade. Da\u00ed para c\u00e1, todos os anos, a mem\u00f3ria dessa mudan\u00e7a pol\u00edtica costuma ser celebrada com pomposas paradas militares, a condecora\u00e7\u00e3o e a atribui\u00e7\u00e3o de comendas e de ins\u00edgnias de grandes-oficiais a civis, algum discurso para galvanizar a hostes, mas que apenas as consegue deprimir mais.<\/p>\n<p>Dificilmente se encontrar\u00e1 no calend\u00e1rio uma data mais ilus\u00f3ria, falaciosa e cheia de equ\u00edvocos. E, no entanto, excetuando o interregno imposto h\u00e1 uns anos pelo ex-primeiro-ministro Passos Coelho, invocando imperativos da <em>troika<\/em>, continua a celebrar-se alegremente, n\u00e3o se sabe \u00e9 bem porqu\u00ea.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que os \u00faltimos anos da monarquia foram muito tristes e lastim\u00e1veis, e j\u00e1 poucos acreditavam que a realeza resolvesse as crises financeiras, econ\u00f3micas, sociais, pol\u00edticas, ou fossem quais fossem, que afundavam o pa\u00eds e o deixavam an\u00e9mico sem rem\u00e9dio \u00e0 vista. Ainda no tempo de D. Carlos, com uma profunda crise social, o chefe do Governo, o ditador Jo\u00e3o Franco, decidia impor ainda mais restri\u00e7\u00f5es e trevas ao povo, enquanto cresciam as regalias e as despesas com a Casa Real. Os esc\u00e2ndalos sucediam-se, e a corrup\u00e7\u00e3o e os subornos envolvendo gente influente eram comuns e sem fim orevisto. Da\u00ed at\u00e9 5 de outubro de 1910 os protestos populares n\u00e3o pararam, o mal-estar era geral e o golpe de estado patrocinado pelos revolucion\u00e1rios republicanos aconteceu r\u00e1pida e inevitavelmente, com quart\u00e9is amotinados, tropas sublevadas na rua e navios revoltosos no Tejo.<\/p>\n<p>Os republicanos tinham tudo a seu favor. O povo lagartixa fartara-se da monarquia, de financiar a seita da Casa Real e da instabilidade pol\u00edtica e social \u2212 e era favor\u00e1vel aos novos ventos e \u00e0s suas promessas de regenera\u00e7\u00e3o, liberdade, igualdade e fraternidade.<\/p>\n<p>Contudo, o que a I Rep\u00fablica Portuguesa teve para oferecer ao pa\u00eds foi uma sequ\u00eancia espantosa e quase caricatural de epis\u00f3dios de agita\u00e7\u00e3o social e instabilidade pol\u00edtica, mais repress\u00e3o, tumultos e pris\u00f5es, censura, assassinatos e outras brutalidades, pobreza e sopa dos pobres, e emigra\u00e7\u00e3o em vez de liberdade, reanima\u00e7\u00e3o da agricultura e produ\u00e7\u00e3o. A par disso, a partir de janeiro de 1917, um enorme esfor\u00e7o de guerra foi pedido aos portugueses por causa da participa\u00e7\u00e3o no primeiro conflito mundial, enquanto o clima de descontentamento crescia sempre que chegavam as novas listas de mortos e feridos nas frentes de batalha. O pa\u00eds ficou fragmentando pelo narcisismo das pequenas diferen\u00e7as e dividido pelos acompamentos de seitas para todos os gostos unidas pela \u00fanica convic\u00e7\u00e3o que as ligava nos seus zelos e excessos ideol\u00f3gicos: a de que fraternal e genuinamente todas se odiavam. E assim, o territ\u00f3rio prosperava com liberais, democr\u00e1ticos, evolucionistas, conservadores de direita, cat\u00f3licos e anticlericais, mon\u00e1rquicos, anarquistas, anarco-sindicalistas, unionistas e, mais tarde, bolcheviques, sidonistas e outras estirpes de um mundo de lun\u00e1ticos e descontentes. At\u00e9 que, sem ter sido poss\u00edvel encontrar uma c\u00f4dea de bom senso, a nau da Rep\u00fablica chegou ao seu fim inevit\u00e1vel com o golpe de 28 de maio de 1926, a antec\u00e2mara do Estado Novo, do salazarismo e da ditadura e excessos que s\u00f3 pararam em 1974.<\/p>\n<p>Acresce ainda dizer que esta I Rep\u00fablica, em que predominava a influ\u00eancia do Partido Republicano Portugu\u00eas, que praticamente se tornou dono do estado, e com muitas clientelas a chegar-se \u00e0 sua m\u00e3o, \u00e9 um excelente exemplo de falta de democracia e de representatividade popular, se poss\u00edvel, abaixo ainda da institui\u00e7\u00e3o r\u00e9gia e constitucional que h\u00e1 j\u00e1 muitos anos deixara de invocar o seu \u201cdireito divino\u201d. \u00c9 verdade que houve elei\u00e7\u00f5es. Mas quem \u00e9 que votou? Pouca gente: em 1913 apenas 30 por cento dos homens com mais de 21 anos tinham direito a votar. E, mesmo assim, em 1925, dos poucos que podiam votar, apenas 14 por cento o fizeram. De fora dos sufr\u00e1gios ficaram desde logo as mulheres (metade da popula\u00e7\u00e3o) e os analfabetos (boa parte dos portugueses eram-no, sobretudo no interior). Fora das castas fan\u00e1ticas, poucas pessoas tinham direitos pol\u00edticos e destes, com o tempo e as ilus\u00f5es esmorecidas e atrai\u00e7oadas, eram cada vez menos os que se apresentavam nas urnas. Em 1920 e no ano seguinte a infla\u00e7\u00e3o era enorme, tal como a fuga de capitais, as greves generalizavam-se e parecia incapaz a miss\u00e3o civilizacional e redentora da I Rep\u00fablica, ou melhor, do que o fanatismo, as conspira\u00e7\u00f5es e as brutalidades de todo o tipo fizeram dela.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 alguma coisa a celebrar nestas comemora\u00e7\u00f5es do golpe de 5 de outubro de 1910 \u00e9 a li\u00e7\u00e3o que trouxe pela negativa, o que n\u00e3o deve ser feito e aquilo que n\u00e3o devemos repetir. Chegou de fanatismo, de anarquia e de seitas!&#8230;<em>\u00a0<\/em><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-5-de-outubro-celebrar-o-que\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pa\u00eds celebra hoje, 5 de outubro, com um feriado nacional, os 110 anos ainda n\u00e3o sei bem se da deposi\u00e7\u00e3o da monarquia, se da implanta\u00e7\u00e3o de uma rep\u00fablica em Portugal, ou se de nada. 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