{"id":22868,"date":"2020-08-30T15:59:00","date_gmt":"2020-08-30T14:59:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=22868"},"modified":"2020-08-30T15:59:46","modified_gmt":"2020-08-30T14:59:46","slug":"manuel-fernandes-vicente-a-leveza-assetica-das-peticoes-contra-salazar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-leveza-assetica-das-peticoes-contra-salazar\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | A leveza ass\u00e9tica das peti\u00e7\u00f5es contra Salazar"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Uma peti\u00e7\u00e3o p\u00fablica lan\u00e7ada <em>online <\/em>h\u00e1 poucas semanas pelo professor de Hist\u00f3ria Lu\u00eds Braga est\u00e1 a motivar as mais desencontradas opini\u00f5es na opini\u00e3o publicada, o que n\u00e3o \u00e9 de espantar, porque se qualquer peti\u00e7\u00e3o causa pol\u00e9mica quando enfrenta coisas reais, maior a pol\u00e9mica ser\u00e1 quando o seu tema s\u00e3o lendas. E esta tem caro\u00e7o. Pretende o docente, embalado \u00e0 boleia na vaga iconoclasta que percorreu alguns pa\u00edses ocidentais, incluindo Portugal, com a vandaliza\u00e7\u00e3o da est\u00e1tua do padre Ant\u00f3nio Vieira, banir da topon\u00edmia portuguesa tudo o que\u00a0 \u0336\u00a0 avenidas, alamedas largos,\u00a0 ruas, becos ou quelhas\u00a0 \u0336\u00a0\u00a0 tenha a ousadia de ostentar o nome de Ant\u00f3nio Oliveira Salazar.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Braga invoca as suas raz\u00f5es para o prop\u00f3sito, ali\u00e1s por demais conhecidas e comungadas. Para ele, a manuten\u00e7\u00e3o desses top\u00f3nimos s\u00f3 pode ser \u201cou por in\u00e9rcia face ao passado, ou por inten\u00e7\u00e3o, exaltar\u201d. Esta inten\u00e7\u00e3o excomungat\u00f3ria, 50 anos ap\u00f3s a morte do ditador e numa altura em que um partido da extrema-direita cresce estrenuamente em Portugal, sucede a outras rea\u00e7\u00f5es que se sucederam na sequ\u00eancia da inten\u00e7\u00e3o de criar um museu dedicado a Salazar em Santa Comba D\u00e3o. Para isso, o docente, ap\u00f3s consulta no Google Maps, constatou que 22 munic\u00edpios ostentavam ainda essa topon\u00edmia abjeta, e decidiu dirigir algumas missivas aos autarcas locais n\u00e3o s\u00f3 para confirmar se a aplica\u00e7\u00e3o inform\u00e1tica est\u00e1 atualizada (e a topon\u00edmia se mant\u00e9m), mas tamb\u00e9m para os incentivar a que seriamente \u201cpromovam o debate p\u00fablico junto da popula\u00e7\u00e3o e dos \u00f3rg\u00e3os aut\u00e1rquicos, tendo em vista a remo\u00e7\u00e3o urgente de tal designa\u00e7\u00e3o da via p\u00fablica&#8221;. Ou seja: fa\u00e7am uma an\u00e1lise sensata e refletida, e no final removam tal nome. Este racioc\u00ednio faz-me lembrar o de um juiz que um dia no velho Faroeste americano interrompeu abruptamente um enforcamento de um desgra\u00e7ado na pra\u00e7a p\u00fablica em modos altamente convincentes: \u201cAlto! Parem j\u00e1 isso\u2026! Antes de o enforcarmos, temos de lhe fazer um julgamento justo\u2026\u201d<\/p>\n<p>Em Portugal, as quest\u00f5es ligadas com o antigo e quase vital\u00edcio presidente do Conselho de Ministros t\u00eam quase sempre o cond\u00e3o de dividir a opini\u00e3o p\u00fablica em posi\u00e7\u00f5es extremadas. As hostilidades contra o ditador (a maior parte das vezes justas) t\u00eam sempre quem as defenda de modo apaixonado, mas com uma paix\u00e3o que j\u00e1 se deixou toldar muitas vezes por algum ressabiamento com a democracia e as corruptelas de oportunistas a que esta tem aberto as portas. E s\u00e3o um not\u00f3rio exagero as loas que, com frequ\u00eancia crescente, por a\u00ed se ouvem dirigidas a Salazar. Salazar n\u00e3o foi nenhum santo! Assenta-lhe melhor o fato de d\u00e9spota esclarecido, inflex\u00edvel e paternalista que viveu num contexto hist\u00f3rico mundial preciso, e que condicionou diretamente a Hist\u00f3ria de Portugal durante quase 50 anos. A mem\u00f3ria desses tempos n\u00e3o foi feliz. Houve muita pobreza extrema, muitas injusti\u00e7as sociais, uma guerra colonial onde morreram e se estropiaram gera\u00e7\u00f5es de jovens, uma pol\u00edcia pol\u00edtica inclemente, e pris\u00f5es, persegui\u00e7\u00f5es e torturas dos que pensavam fora da pauta do Estado Novo. Era precisamente este Estado Novo e as suas finan\u00e7as que Salazar incensava, muito mais que ouvir e respeitar a opini\u00e3o dos outros. Nascido em Santa Comba D\u00e3o, seminarista em Viseu, universit\u00e1rio em Coimbra, tesoureiro das finan\u00e7as p\u00fablicas em Lisboa, talvez estes epis\u00f3dios tenham marcado incisivamente a sua ideologia conservadora, reacion\u00e1ria, cat\u00f3lica e rural num pa\u00eds que era igual. E que provinha, quando Salazar come\u00e7ou a governar, dos desmandos financeiros e desvarios republicanos. Era o Estado e a p\u00e1tria que comandavam o pensamento tautol\u00f3gico de Salazar, a trilogia \u201cDeus, P\u00e1tria e Fam\u00edlia\u201d era a sua divisa, o Estado, a autoridade e a sua moral n\u00e3o se discutiam e as feridas disso ficaram expostas por todo o pa\u00eds quando caiu (literalmente) do poder em 1968.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da peti\u00e7\u00e3o para a erradica\u00e7\u00e3o do nome do ditador vision\u00e1rio levanta quest\u00f5es dif\u00edceis, algumas delas relacionadas mesmo com metodologias, ideologias e crit\u00e9rios. O que se pretende realmente quando uma comunidade local atribui um nome, sobretudo o de uma pessoa, a um lugar p\u00fablico?<\/p>\n<p>A comunidade municipal ou de vizinhos pretende homenagear algu\u00e9m, e essa \u00e9 forma de retribuir? Ou quer deixar o seu espa\u00e7o vinculado \u00e0 mem\u00f3ria de uma pessoa que foi grande ou de uma ideologia que marcou uma \u00e9poca ou foi importante no seu tempo, sendo certo que estas formas de ver divergem muito com o tempo, a cultura e as pr\u00f3prios indiv\u00edduos. Haver\u00e1 at\u00e9 outros modos de atribuir nomes a ruas ou a largos. Um amigo meu de Leiria conta que a rua da aldeia em que nasceu e viveu algum tempo ficou com o nome de Salazar por uma raz\u00e3o absolutamente surpreendente: atribui-se \u00e0 rua, por asfaltar, esse nome para que a C\u00e2mara se envergonhasse disso e fosse l\u00e1, calcasse o alcatr\u00e3o e n\u00e3o deixasse desonrado o nome do ent\u00e3o presidente do Governo. Uma rua com tal nome nunca podia ficar por alcatroar\u2026 Mas os autarcas, ou porque n\u00e3o tivessem dinheiro ou porque tivessem conhecimento da ratoeira, deixaram-na ficar com a poeira que tinha. A topon\u00edmia n\u00e3o era uma homenagem, mas uma estrat\u00e9gia ardilosa. Depois de abril de 1974, a democracia alcatroou a via, mas n\u00e3o se incomodou com o nome nem com a sua historieta\u2026 Provavelmente, noutros largos e avenida \u00e9 mais importante resolveram a conflitualidade do tr\u00e2nsito ou as condi\u00e7\u00f5es do alcatr\u00e3o e dos passeios do que o nome de algu\u00e9m \u2212 50 anos depois da sua morte e que at\u00e9 agora pouco inc\u00f3modo deu aos vizinhos.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da peti\u00e7\u00e3o parece-me poder inscrever-se na praga do politicamente correto que se instalou na sociedade portuguesa e em muitas outras, e que procura impor uma ditadura do gosto e passar um rolo compressor sobre todas as outras formas de ver, de sentir e de pensar, n\u00e3o tendo sequer qualquer problema em apagar as mem\u00f3rias da Hist\u00f3ria em nome de uma ideologia ass\u00e9tica, monol\u00edtica e absurda, olhando tudo apenas pelo prisma do \u201cdaqui e de agora\u201d. Hoje varre-se o nome de Salazar, amanh\u00e3 o do Marqu\u00eas de Pombal, depois segue-se o do Infante D. Henrique, e com jeito e manhas h\u00e3o de chegar a Mendes Cabe\u00e7adas, Gualdim Pais e D. Afonso Henriques. Lenha e combust\u00edvel para estas mentes ardentes nunca lhes faltar\u00e1, e se encontrarem a habitual indiferen\u00e7a dos demais, \u00e9 fartar vilanagem\u2026<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que a topon\u00edmia tamb\u00e9m est\u00e1 muito ligada aos lugares p\u00fablicos, ao seu esp\u00edrito e ao tempo em que foram criados. A topon\u00edmia \u00e9 uma coisa s\u00e9ria e sens\u00edvel, n\u00e3o se apagam nomes que a mor parte das vezes t\u00eam muitas hist\u00f3rias e raz\u00f5es. Mesmo que hoje n\u00e3o concordemos com elas, nem com o que fizeram os seus protagonistas. A democracia tamb\u00e9m h\u00e1 de ter esta grandeza, e uma placa de m\u00e1rmore ou de azulejos coloridos assente numa parede n\u00e3o h\u00e1 de ser amea\u00e7a para ela.<\/p>\n<p>Salazar tinha um problema: n\u00e3o admitia que se pensasse de uma forma diferente da sua. E n\u00e3o est\u00e3o os signat\u00e1rios desta peti\u00e7\u00e3o maccartista a trilhar pelo mesmo caminho, mas em sentido contr\u00e1rio? Tenhamos grandeza, e n\u00e3o andemos como an\u00f5es, incapazes de levantar os olhos do ch\u00e3o. A Hist\u00f3ria n\u00e3o se apaga nem se conta \u00e0 maneira do que hoje pode parecer mais conveniente. Pode n\u00e3o se gostar, mas Salazar pertenceu \u00e0 nossa Hist\u00f3ria, e muito\u00a0 \u0336\u00a0 atrevo-me mesmo a dizer que demais. Ser\u00e1 que o predat\u00f3rio apagamento do seu nome de 22 lugares p\u00fablicos vai retirar os signat\u00e1rios de um pesadelo e resolver algum problema do pa\u00eds?<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-leveza-assetica-das-peticoes-contra-salazar\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma peti\u00e7\u00e3o p\u00fablica lan\u00e7ada online h\u00e1 poucas semanas pelo professor de Hist\u00f3ria Lu\u00eds Braga est\u00e1 a motivar as mais desencontradas opini\u00f5es na opini\u00e3o publicada, o que n\u00e3o \u00e9 de espantar, porque se qualquer peti\u00e7\u00e3o causa pol\u00e9mica quando enfrenta coisas reais, maior a pol\u00e9mica ser\u00e1 quando o seu tema s\u00e3o lendas. E esta tem caro\u00e7o. Pretende [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-22868","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22868","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22868"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22868\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22868"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22868"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22868"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}