{"id":22153,"date":"2020-08-05T15:20:32","date_gmt":"2020-08-05T14:20:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=22153"},"modified":"2020-08-05T15:20:32","modified_gmt":"2020-08-05T14:20:32","slug":"joao-bianchi-villar-kakuma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/joao-bianchi-villar-kakuma\/","title":{"rendered":"JO\u00c3O BIANCHI VILLAR | Kakuma"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1237\" aria-describedby=\"caption-attachment-1237\" style=\"width: 280px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-1237\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/jbianchi.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"280\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1237\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Bianchi Villar joao.bianchi.villar@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>&#8220;Muslima Aden Abdulrahman mantinha-se junto da pequena sepultura, ajeitando carinhosamente o monte de trapos que envolviam os restos mortais do seu filho de sete anos de idade. A sua filha morrera, tamb\u00e9m de fome, uns dias antes. Antes mesmo de sua mulher, a qual Muslima transportara durante duas semanas pelo carreiro da fome de Baidoa, no Sul da Som\u00e1lia. \u201cEnterrei toda a minha fam\u00edlia\u201d, disse Muslima. \u201cQuase toda a gente da minha aldeia morreu. J\u00e1 n\u00e3o tenho l\u00e1grimas para deitar.\u201d&#8221; (Nat. Geog. Magazine, Agosto\/93, tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/p>\n<p>Quando oi\u00e7o falar nestas coisas, n\u00e3o sei porque tortuoso processo de associa\u00e7\u00e3o mental, tenho tend\u00eancia para me lembrar daquelas transfer\u00eancias milion\u00e1rias do reino do futebol. Revolvem-se os intestinos em espasmos gasosos; sai por via g\u00e1strica um grotesco testemunho da minha barriga alimentarmente aconchegada. \u00c0 falta de um protesto mais vern\u00e1culo tenho tiques muito \u00edntimos de realidades que me recuso a aceitar. \u00c9 curioso verificar que, televisivamente falando, ap\u00f3s umas quantas imagens de corpos agonizantes nos confins africanos, surgem convenientes, os rostos mais saud\u00e1veis de quem, por dominarem com mestria um objecto esf\u00e9rico que se locomove aos pontap\u00e9s, valem, por si s\u00f3, toneladas de comezinhos pacotes de farinha ou arroz \u2013 \u00e9 como se a bola fosse o s\u00edmbolo de um mundo sombrio, e o jogador um instrumento bem pago para chutar com calculado esfor\u00e7o as marcas da mis\u00e9ria dos outros. Paga-se bem a estes psicanalistas que nos extirpam, com a ponta do p\u00e9, as recalcadas vergonhas do sofrimento alheio.<\/p>\n<p>H\u00e1 uns quantos palavr\u00f5es que me ocorrem ao esp\u00edrito. Como sempre, cenas viodeogr\u00e1ficas da mis\u00e9ria humana acendem-se no ecran televisivo a horas do jantar. Entre uma garfada do suculento repasto e um gole de vulgar\u00edssima \u00e1gua da torneira, assento o meu corpo burgu\u00eas para mais um Telejornal. Como toda a gente, sou transportado alguns minutos para um mundo do terror que julgava existir somente nos confins da imagina\u00e7\u00e3o mais escabrosa. Mas, como sempre, calo os improp\u00e9rios e encerro tais mem\u00f3rias nas gavetas da cumplicidade do sil\u00eancio. Engulo mais um pouco de carne do prato, enquanto outros devoram restos de lixo; despejo mais um pouco de \u00e1gua no copo, enquanto outros se matam pelas \u00faltimas gotas de um po\u00e7o enxague.<\/p>\n<p>Sou t\u00e3o respons\u00e1vel pela exist\u00eancia de Kakuma, como qualquer seca, como qualquer fome, como qualquer guerrilheiro das ruas de Mogad\u00edscio. Em vez de dinheiro, de comida ou de alojamento aos meninos do Sud\u00e3o, ofere\u00e7o uma frase vulgar: \u201cMas que desgra\u00e7a!\u201d. Julgo que estas palavras podem desculpar todo o imobilismo hip\u00f3crita do meu ser.<\/p>\n<p>Como todos os campos de refugiados do mundo, Kakuma recebe as v\u00edtimas do \u00f3dio humano. O corno de \u00c1frica despeja \u00e1ridos locais os frutos an\u00f3nimos da intoler\u00e2ncia ancestral. N\u00e3o vale a pena distinguir Som\u00e1lia, Sud\u00e3o, Eti\u00f3pia ou Eritreia. Os nomes geogr\u00e1ficos n\u00e3o t\u00eam significado nesta fatia do mundo. H\u00e1 guerras para todos os gostos; h\u00e1 povos para cada religi\u00e3o; h\u00e1 fome para todas as bocas. Uns dizem-se crist\u00e3os e violam as mulheres do inimigo, vendem as crian\u00e7as como escravas ou, pura e simplesmente, utilizam-nas para pr\u00e1ticas de tiro ao alvo; outros dizem-se \u201clibertadores do povo\u201d, ou mu\u00e7ulmanos, e calam esse mesmo povo com um tiro na nuca.<\/p>\n<p>E mesmo nestes campos pejados de gente preterida, o ref\u00fagio \u00e9 manchado pelo sangue do confronto \u2013 o Tribalismo fala mais alto que a lenta agonia da fome. Onde se pensava encontrar o descanso das lutas, acende-se mais viva a chama das \u00e9tnicas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Em Kakuma, como no Sud\u00e3o, os \u201cDinkas\u201d continuam a luta contra os \u201cNuers\u201d. E estas tribos em confronto desde a noite dos tempos, s\u00e3o, nesse campo do Qu\u00e9nia o s\u00edmbolo de incont\u00e1veis casos de guerra por essas paragens. Se algu\u00e9m perguntar como se iniciou o conflito, muito provavelmente receber\u00e1 o sil\u00eancio por resposta \u2013 j\u00e1 ningu\u00e9m d\u00e1 import\u00e2ncia \u00e0 origem dos factos.<\/p>\n<p>O que realmente tem import\u00e2ncia \u00e9 a pergunta de Steven, um dos 10% de Nuers, no meio de 90% de Dinkas: \u201cPara onde havemos de ir?\u201d, perguntou o jovem Nuer \u201cFomos expulsos de nossas casas pelo nosso Governo. Mandaram-nos embora da Eti\u00f3pia. Se n\u00e3o podemos aqui ficar, ent\u00e3o que esperan\u00e7a nos resta?\u201d (artigo citado).<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho resposta para Steven. N\u00e3o sei que fazer \u00e0s gentes de Kakuma. A \u00fanica ideia que me resta \u00e9 a dada pelas palavras do seu pr\u00f3prio povo \u201cDeus s\u00f3 provoca as secas, o homem \u00e9 que faz a fome\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gon\u00e7alo de Arag\u00e3o de Bianchi Villar<\/p>\n<p>(In Jornal Not\u00edcias do Entroncamento, Tribuna dos Gentios, publicado em 25\/02\/1994)<\/p>\n<p>N.A. Infelizmente, este texto j\u00e1 com mais de 26 anos, poderia ter sido escrito no dia de hoje. N\u00e3o lhe mudei uma v\u00edrgula. Como sempre, o autor n\u00e3o escreve conforme o Novo (des)Acordo Ortogr\u00e1fico de 1991. E, reserva-se ao direito de nunca o vir a fazer.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/joao-bianchi-villar-kakuma\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Muslima Aden Abdulrahman mantinha-se junto da pequena sepultura, ajeitando carinhosamente o monte de trapos que envolviam os restos mortais do seu filho de sete anos de idade. A sua filha morrera, tamb\u00e9m de fome, uns dias antes. 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