{"id":21233,"date":"2020-07-09T12:02:28","date_gmt":"2020-07-09T11:02:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=21233"},"modified":"2020-07-09T12:02:28","modified_gmt":"2020-07-09T11:02:28","slug":"manuel-fernandes-vicente-tudo-ao-contrario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-tudo-ao-contrario\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Tudo ao contr\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois de uma semana de dificuldades, problemas e algum des\u00e2nimo para tentar renovar a matr\u00edcula os seus filhos nas escolas, por vezes noite dentro, tentando aproveitar a mar\u00e9 baixa no acesso ao portal de matr\u00edculas pr\u00f3prio do Minist\u00e9rio de Educa\u00e7\u00e3o (ME) para as efetuar, os pais dos jovens alunos portugueses souberam agora que esse processo poder\u00e1 ser feito automaticamente para a maioria dos anos de escolaridade. Salvo o caso de transfer\u00eancias ou da entrada num novo ciclo escolar, a renova\u00e7\u00e3o das matr\u00edculas geram-se automaticamente ap\u00f3s a conclus\u00e3o das avalia\u00e7\u00f5es do ano letivo. Para o minist\u00e9rio, o colapso do portal na aceita\u00e7\u00e3o das matr\u00edculas deveu-se a ataques inform\u00e1ticos, que o bloquearam. Mas o mais prov\u00e1vel \u00e9 que o colapso tenha sido simplesmente fruto da enorme despropor\u00e7\u00e3o entre a capacidade do portal e o imenso fluxo di\u00e1ria a que foi sujeito, mais de cem mil matr\u00edculas nalguns dias, segundo o pr\u00f3prio ME, bloqueando o seu acesso, deixando o portal em baixo e desesperando pais e encarregados de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O atual ano letivo, por motivos \u00f3bvios, foi um ano absolutamente an\u00f3malo, com o confinamento sanit\u00e1rio a obrigar os jovens alunos, os docentes (em particular os diretores de turma), as dire\u00e7\u00f5es dos agrupamentos e os pais (alguns dos quais tiveram pela primeira vez uma no\u00e7\u00e3o aproximada do que \u00e9 uma escola e do que andam l\u00e1 a fazer os seus filhos) a um esfor\u00e7o acrescido, chegando alguns mesmo \u00e0 beira da exaust\u00e3o e de algum <em>burnout<\/em>. E n\u00e3o foi caso para menos. Mas nem todas estas excecionalidades que foram ocorrendo, e para as quais se foi improvisando, remendando e encontrando solu\u00e7\u00f5es <em>ad hoc<\/em>, emocionaram o ME. Este foi incapaz de alterar o seu <em>modus operandi<\/em> e de compreender que a hist\u00f3ria da devolu\u00e7\u00e3o dos manuais escolares deveria este ano merecer uma postura mais flex\u00edvel e adequada a todos os ins\u00f3litos ocorridos, at\u00e9 porque haver\u00e1 alunos com exames em setembro, e esses manuais s\u00e3o o \u00fanico recurso por onde poder\u00e3o estudar. Longe das escolas, longe dos seus colegas e dos professores durante cerca de 40 por cento do tempo letivo previsto para 2019-2020, era importante que aos alunos se deixasse ao menos por mais algumas semanas livros e manuais, para durante as f\u00e9rias poderem rever mat\u00e9rias, esclarecer d\u00favidas, preparar-se para os exames e aprofundar os conceitos que a sua curiosidade os levasse a procurar mais al\u00e9m. Insens\u00edvel a estas realidades, o ME imp\u00f4s a devolu\u00e7\u00e3o dos livros. Era essa a regra, e as regras s\u00e3o assim, mesmo que o bom senso aconselhasse a rev\u00ea-las de modo provis\u00f3rio. Agora o ME suspendeu essa devolu\u00e7\u00e3o, e permitir\u00e1 que os alunos fiquem com os manuais at\u00e9 setembro. N\u00e3o tem nisso m\u00e9rito nenhum. A decis\u00e3o veio dos deputados da Assembleia da Rep\u00fablica, e os feiticeiros educativos do pa\u00eds apenas tiveram que meter a viola nos saco, sem honra nem intelig\u00eancia\u00a0 \u0336\u00a0\u00a0 e com isso n\u00e3o evitaram que filas intermin\u00e1veis de alunos, pais e encarregados de educa\u00e7\u00e3o se tivessem formado no port\u00e3o das escolas para restituir os manuais escolares.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia do ME para as escolas portuguesas \u00e9 uma obra-prima de <em>marketing<\/em>\u00a0 \u0336\u00a0 \u201cNenhum aluno pode ser deixado para tr\u00e1s!\u201d. Mas \u00e9 tamb\u00e9m, na pr\u00e1tica, um manifesto de hipocrisia, romantismo, muita inefici\u00eancia e pouca lucidez. E, no que tem de positivo, \u00e9 para ser aplicada pelos professores e escolas, mas n\u00e3o pelo ME que, aparentemente, lan\u00e7a as diretivas, mas depois fica do lado de fora o assunto. \u00c9 bom trazer todos os alunos portugueses para a escola e combater o abandono e o insucesso, mas depois esquecem-se que todos eles t\u00eam direito a um ensino estimulante, uma forma\u00e7\u00e3o de qualidade e a uma avalia\u00e7\u00e3o com crit\u00e9rio e sobretudo s\u00e9ria. E n\u00e3o \u00e9 isso que se faz ao impor como \u201corienta\u00e7\u00f5es\u201d \u00e0s escolas e aos professores um ensino cego em que \u201ca reten\u00e7\u00e3o dos alunos tem um car\u00e1cter absolutamente excecional\u201d, incentivando ao facilitismo dos crit\u00e9rios, oo laxismo das atitudes e \u00e0 irresponsabilidade dos comportamentos. Para estes socialistas burocr\u00e1ticos, tudo vale \u2212 e se o sucesso n\u00e3o \u00e9 real, pois isso exige m\u00e9todo, trabalho e persist\u00eancia, h\u00e1 que fantasi\u00e1-lo com os triunfos de secretaria, que apenas exigem cremes cosm\u00e9ticos para o rosto, algum batom e pouco pudor.<\/p>\n<p>Os efeitos diretos e imediatos que se conseguem com este sucesso delirante e obtido por \u00e9dito \u00e9 o menor empenho e a diminui\u00e7\u00e3o do sentido de responsabilidade dos alunos, que, se \u201cconseguem\u201d transitar de ano sem esfor\u00e7o e tirando partido de \u201cleis\u201d t\u00e3o absurdas, n\u00e3o se v\u00e3o decerto cansar a estudar. \u00c9 o princ\u00edpio da energia m\u00ednima \u00e0 escala humana, e isto pertence \u00e0 antropologia e tamb\u00e9m ao ensino numa turma. E \u00e9 o mutilar do sentido de \u201cir mais longe e mais al\u00e9m\u201d dos alunos, que resulta da consequ\u00eancia natural de premiar o esfor\u00e7o, o talento e o esp\u00edrito de pesquisa, e penalizar quem n\u00e3o quer trabalhar, e \u00e9 indisciplinado e perturbador.<\/p>\n<p>O ministro do eduqu\u00eas j\u00e1 fez saber que no pr\u00f3ximo ano escolar n\u00e3o haver\u00e1 redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de alunos nas turmas. E, assim, n\u00e3o contribui, como era o seu dever, com as medidas mais b\u00e1sicas de preven\u00e7\u00e3o contra a propaga\u00e7\u00e3o da Covid-19 nas escolas, aspeto que nesta altura est\u00e1 a causar bastante apreens\u00e3o entre os especialistas. Por outro lado, o respons\u00e1vel educativo garante que se a escolas funcionarem em sistema h\u00edbrido (parte dos alunos nas aulas, e a outra parte no chamado ensino \u00e0 dist\u00e2ncia) ser\u00e3o os alunos que mais gostam da escola, nela se mostram mais din\u00e2micos, a ela mais se dedicam, e melhores resultados obt\u00eam, os que ficar\u00e3o mais penalizados e do lado de fora. V\u00e3o ficar em casa pendurados nas plataformas de teleaprendizagens, o que, para al\u00e9m de ir\u00f3nico, n\u00e3o deixa de ser contradit\u00f3rio. V\u00e3o \u00e0s aulas quem n\u00e3o gosta da escola \u2013 e s\u00e3o ostracizados os que a amam e dela tiram partido, dignificam e valorizam. H\u00e1 que reconhecer que \u201cningu\u00e9m deve ficar para tr\u00e1s\u201d \u2013 e isto deve ser assumido em todos os sentidos. Sendo assim, a ela t\u00eam tamb\u00e9m direito os que se esfor\u00e7am e est\u00e3o mais sintonizados com o esp\u00edrito de excel\u00eancia, que tamb\u00e9m \u00e9 (ou devia ser) o das escolas, sejam elas p\u00fablicas ou privadas, embora o caso seja mais pertinentes para os estabelecimentos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>E, <em>last but not least<\/em>, h\u00e1 que referir ainda a forma t\u00f3xica e quase kafkiana como os professores t\u00eam vindo a ser tratados pelo elenco de caricaturas que desgovernam a educa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds desde, pelo menos, 2005. Depois de terem visto a sua natural autoridade pedag\u00f3gica posta (perversamente) em causa na sala de aula, e visto menorizado o seu estatuto e dignidade social, os docentes est\u00e3o hoje esmagados por absurdos, anacr\u00f3nicos, in\u00fateis e est\u00e9reis procedimentos burocr\u00e1ticos, que esgotam as suas melhores energias e desfocam-nos das aulas, do ensino e do incentivo \u00e0 aprendizagem dos seus alunos, pois pouco ou nenhum tempo sobra para isso. O eduqu\u00eas imposto pela confraria de magos nas escolas, imp\u00f5e tamb\u00e9m reuni\u00f5es a prop\u00f3sito de tudo e de nada, relat\u00f3rios detalhados sobre minud\u00eancias\u00a0 \u0336 \u00a0e uma impressionante incapacidade de compreender como isto \u00e9 tudo t\u00e3o est\u00e9ril. \u00c9, sobretudo, n\u00e3o entender que as escolas foram criadas para os alunos aprenderem com serenidade a serem pessoas capazes, criativas, cr\u00edticas e respons\u00e1veis\u00a0 \u0336\u00a0 e n\u00e3o um palco para as suas fantasias, vaidades hier\u00e1rquicas e ideais pol\u00edticos e sociais absurdos.<\/p>\n<p>Estes magos e magas, um dia iluminados por uma apari\u00e7\u00e3o que s\u00f3 a eles chegou, carregaram as pobres escolas de planos, escrut\u00ednios, preenchimentos de grelhas anal\u00f3gicas e matrizes digitais de todas as esp\u00e9cies, mas tudo com a mesma evidente inutilidade que fic\u00e7\u00f5es e tretas para todos os gostos. Um caleidosc\u00f3pio de vis\u00f5es, mas com dois problemas\u00a0 \u0336\u00a0 parasitam as energias de quem quer trabalhar, e n\u00e3o funcionam. E quem fica com o preju\u00edzo todo \u00e9 o pa\u00eds e a sociedade, porque a confraria se sente acima de todos os seus disparates.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-tudo-ao-contrario\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Depois de uma semana de dificuldades, problemas e algum des\u00e2nimo para tentar renovar a matr\u00edcula os seus filhos nas escolas, por vezes noite dentro, tentando aproveitar a mar\u00e9 baixa no acesso ao portal de matr\u00edculas pr\u00f3prio do Minist\u00e9rio de Educa\u00e7\u00e3o (ME) para as efetuar, os pais dos jovens alunos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-21233","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21233"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21233\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}