{"id":20929,"date":"2020-06-29T20:16:11","date_gmt":"2020-06-29T19:16:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=20929"},"modified":"2020-06-29T20:33:45","modified_gmt":"2020-06-29T19:33:45","slug":"manuel-fernandes-vicente-a-pandemia-covid-19-e-o-caso-do-entroncamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-pandemia-covid-19-e-o-caso-do-entroncamento\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | A pandemia Covid-19 e o caso do Entroncamento"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>J\u00e1 o meu saudoso av\u00f4, de quem recebi decerto algumas das grandes alus\u00f5es e valores que me serviriam como rochedos de refer\u00eancia e orienta\u00e7\u00e3o quando cheguei ao mar alto da vida, costumava dizer que no mundo n\u00e3o havia nada que fosse absolutamente bom e positivo, mas tamb\u00e9m nada existia que fosse absolutamente execr\u00e1vel, e s\u00f3 trouxesse males, doen\u00e7as e preju\u00edzos. E, acrescentava, o que todas essas b\u00ean\u00e7\u00e3os e favores ou pragas e flagelos nos trazem, e isso fazem-no em comum, s\u00e3o pretextos e oportunidades para crescermos, amadurecer a nossa vis\u00e3o do mundo e tornar-nos mais respons\u00e1veis, conhecedores e conscientes ou at\u00e9 s\u00e1bios do mundo. Com eles a nossa vis\u00e3o do mundo alarga-se e ganha espessura, e aproxima-nos do que o mundo \u00e9 na realidade: complexo, mutante, fascinante e incompreens\u00edvel, resistindo a ser interpretado em absoluto sejam os paradigmas da sua leitura religiosos, cient\u00edficos, ecol\u00f3gicos ou mesmo astron\u00f3micos.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que esta convic\u00e7\u00e3o adquirida de nada haver que seja um mal absoluto tem sido severamente abalroada nos \u00faltimos anos com alguns figurantes p\u00fablicos, com Donald Trump na proa, e acontecimentos mundiais, como a atual pandemia da Covid-19 na frente do pelot\u00e3o, que quanto a esta j\u00e1 come\u00e7am a dissipar-se ultimamente muitas d\u00favidas, depois da divulga\u00e7\u00e3o do enorme impulso que o caso est\u00e1 a dar ao neg\u00f3cio das piscinas privadas, \u00e0 venda de vinhos portugueses, ao al\u00edvio no aquecimento global, na recupera\u00e7\u00e3o de muitos ecossistemas, \u00e0 enorme subida de cota\u00e7\u00e3o de muitas empresas tecnol\u00f3gicas ligadas ao ensino \u00e0 dist\u00e2ncia e at\u00e9 \u00e0 felicidade de muitos ing\u00e9nuos, puros, patetas, m\u00edopes e inscientes que acreditam que v\u00e3o passar pelas plataformas digitais os novos m\u00e9todos pedag\u00f3gicos para a p\u00f3s-modernismo e para o que falta percorrer neste alucinante s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Em Portugal, onde o Governo socialista tem sido elogiado pela forma como o pa\u00eds tem gerido a crise da pandemia, h\u00e1 que reconhecer que numa primeira fase o primeiro-ministro soube conduzir a \u201cgrande nau\u201d com pondera\u00e7\u00e3o, sensatez e sentido de estado. O pa\u00eds sentiu medo, recolheu-se nos aposentos e nas casernas, e confinou-se, expondo-se apenas \u00e0s sa\u00eddas para os destinos que eram socialmente aceit\u00e1veis, para n\u00e3o dizer admiss\u00edveis: mercearias, supermercados, padarias, farm\u00e1cias e hospitais. Depois, surgiu o omnipresente bus\u00edlis da economia, e o paradigma da conten\u00e7\u00e3o e do sucesso pareceu mais<em> marketing<\/em> e propaganda que verdade, pelo menos a que se pode aferir pelos n\u00fameros.<\/p>\n<p>Consumindo-se o pa\u00eds em combust\u00e3o lenta, mas irrevog\u00e1vel, usando recursos de reserva, n\u00e3o produzindo j\u00e1 os que seriam o do seu devir, e reduzindo-se \u00e0 m\u00edngua do teletrabalho e supl\u00eancias afins, ficaram na equa\u00e7\u00e3o duas inc\u00f3gnitas incompat\u00edveis e que se repeliam mutuamente\u00a0 \u0336\u00a0 a sa\u00fade preventiva e o produto econ\u00f3mico. E \u00e9 aqui que come\u00e7a a mec\u00e2nica qu\u00e2ntica do desconfinamento e do risco de ao abrir a agricultura, o com\u00e9rcio, as escolas, a economia e a sociedade \u2212 chegassem as brechas por onde cresceria o novo coronav\u00edrus.<\/p>\n<p>A ideia que prevalece neste final de junho, quase quatro meses depois de a pandemia ter aterrado em Portugal (como mais cedo ou mais tarde o faria em todo o mundo), \u00e9 a de que depois de ter prosperado miseravelmente nos lares de idosos e em conv\u00edvios desconfinantes de adolescentes, o novo coronav\u00edrus mant\u00e9m-se ativo sobretudo na regi\u00e3o de Lisboa e Vale do Tejo. \u00c9 esta a regi\u00e3o que demogr\u00e1fica e sociologicamente \u00e9 mais vulner\u00e1vel ao conflito qu\u00e2ntico entre o lado sanit\u00e1rio e a necessidade econ\u00f3mica, sobretudo nos concelhos de Lisboa, Amadora, Odivelas, Sintra e Loures, onde h\u00e1 freguesias e territ\u00f3rios em que medram a pobreza e a exclus\u00e3o, e se situam os maiores contrastes e os mais gritantes focos de desigualdades sociais e econ\u00f3micas do pa\u00eds. Nessas \u00e1reas, os seus habitantes t\u00eam hoje, depois do in\u00edcio do desconfinamento, de ir trabalhar para terem amanh\u00e3 o que h\u00e3o de p\u00f4r em cima da mesa. E para ganharem os seus dias e chegarem aos seus locais de trabalho, nas ind\u00fastrias, na constru\u00e7\u00e3o civil ou nos servi\u00e7os, e n\u00e3o o podendo fazer em transporte privado, t\u00eam que se amontoar nos transportes p\u00fablicos\u00a0 \u0336\u00a0\u00a0 comboios, metros ou autocarros \u00a0\u00a0\u0336\u00a0 apinhados de gente, e expostos como em mais lado nenhum aos surtos da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ando a economia, progride tamb\u00e9m a epidemia, e \u00e9 nesta realidade que t\u00eam esbarrado a pol\u00edtica de Ant\u00f3nio Costa e as diretivas da Dire\u00e7\u00e3o-Geral de Sa\u00fade. E \u00e9 tamb\u00e9m nelas que se h\u00e1 de configurar a realidade espec\u00edfica do Entroncamento e o fen\u00f3meno particular que tem sido o comportamento da comunidade local face \u00e0 pandemia da Covid-19.<\/p>\n<p>A cidade do Entroncamento compartilha com os centros urbanos mais vulner\u00e1veis das humildes periferias de Lisboa da sua condi\u00e7\u00e3o de servidora de m\u00e3o de obra da grande metr\u00f3pole urbana geradora de empregos. E boa parte do nosso burgo (e at\u00e9 da regi\u00e3o mais pr\u00f3xima) compartilha deste calv\u00e1rio quotidiano de diariamente utilizar os caminhos de ferro para chegar ao seu trabalho. Faz parte de uma das nossas condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, mas das mais essenciais. Sem agricultura por n\u00e3o ter territ\u00f3rio, sem ind\u00fastria por nunca a ter sabido atrair e em alguns casos a ter mesmo expulsado, e subtra\u00eddo de servi\u00e7os por falta de capital e de capitalidade regional, o Entroncamento tem em Lisboa a muleta poss\u00edvel. Boa parte da popula\u00e7\u00e3o (h\u00e1 alguns anos adiantou-se uma estimativa oficiosa de cerca de sete centenas de mun\u00edcipes do Entroncamento e da regi\u00e3o que completavam este p\u00eandulo di\u00e1rio) comunga desta realidade oscilante e semin\u00f3mada. E esta mobilidade para o trabalho \u00e9 um dos fatores de risco acrescido para a propaga\u00e7\u00e3o do v\u00edrus global e maldito. Para al\u00e9m disso, a nossa cidade det\u00e9m uma densidade demogr\u00e1fica consider\u00e1vel, resultante de uma popula\u00e7\u00e3o estimada de 23 mil habitantes concentrados numa \u00e1rea de 13,7 Km \u00b2. E a concentra\u00e7\u00e3o de pessoas \u00e9 obviamente outro fator prop\u00edcio \u00e0 transmiss\u00e3o e expans\u00e3o da pandemia, tal como, naturalmente, a presen\u00e7a de algumas comunidades n\u00f3madas. E isso conduz, no Entroncamento, e num dia em que uma vez mais n\u00e3o h\u00e1 novos casos de infe\u00e7\u00e3o a registar, a uma quest\u00e3o incontorn\u00e1vel: o que \u00e9 que o Entroncamento tem que \u00e9 diferente dos outros, e o conduz a n\u00fameros de infe\u00e7\u00f5es inferiores ao que seria expet\u00e1vel, dado o perfil de risco e de mobilidade e a sua densidade populacional?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sei responder a esta quest\u00e3o, mas ela existe, e h\u00e1 decerto especialistas muito mais habilitados para o fazer. Atrevo-me por\u00e9m a conjeturar de que o facto de n\u00e3o haver demasiadas desigualdades econ\u00f3micas e sociais na cidade, o rendimento m\u00e9dio das fam\u00edlias ser bastante acima da m\u00e9dia no pa\u00eds, o trabalho social das institui\u00e7\u00f5es para isso vocacionadas e a cultura e a educa\u00e7\u00e3o (onde \u00e9 excelente o trabalho que continua a ser feito nas nossas escolas) possam ter um contributo consider\u00e1vel entre as raz\u00f5es que se possam procurar para responder.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-pandemia-covid-19-e-o-caso-do-entroncamento\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; J\u00e1 o meu saudoso av\u00f4, de quem recebi decerto algumas das grandes alus\u00f5es e valores que me serviriam como rochedos de refer\u00eancia e orienta\u00e7\u00e3o quando cheguei ao mar alto da vida, costumava dizer que no mundo n\u00e3o havia nada que fosse absolutamente bom e positivo, mas tamb\u00e9m nada existia que fosse absolutamente execr\u00e1vel, e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-20929","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20929","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20929"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20929\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20929"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20929"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20929"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}