{"id":20005,"date":"2020-05-31T17:10:50","date_gmt":"2020-05-31T16:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=20005"},"modified":"2020-05-31T17:10:50","modified_gmt":"2020-05-31T16:10:50","slug":"manuel-fernandes-vicente-o-sapateiro-freitas-os-cata-ventos-e-a-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-sapateiro-freitas-os-cata-ventos-e-a-covid-19\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | O sapateiro Freitas, os cata-ventos e a Covid-19"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ainda h\u00e1 pessoas assim. Durante d\u00e9cadas foi sapateiro, profiss\u00e3o que intermediava com as atividades de bo\u00e9mia garrida com vinho do tonel e de ex\u00edmio jogador de cartas e de damas na taberna ao lado da sua sapataria, que pouco mais era que um v\u00e3o de escada, e de executante de cavaquinho e banjo, pr\u00e1ticas que celebrava sob qualquer pretexto e condi\u00e7\u00e3o com muita paix\u00e3o e algum virtuosismo.<\/p>\n<p>Com os consertos dos sapatos e a aplica\u00e7\u00e3o de meias-solas e de rastos de pneus nas botas ganhava a vida; e com os concertos instrumentais \u00e0 porta do trabalho, a libertinagem do vinho e dos petiscos do fim de tarde e os v\u00edcios do jogo e de n\u00e3o poder ver um rabo de saias, mesmo j\u00e1 em idade adiantada, deve ter ganho o inferno; mas eu estou mais inclinado para que o Freitas (o nome \u00e9 suposto) v\u00e1 para o c\u00e9u.<\/p>\n<p>Primeiro, porque \u00e9 essa a prefer\u00eancia que manifesta de modo aberto e expressivo, e na sua vida sempre procurou seguir os ditames do princ\u00edpio epicurista <em>carpe diem<\/em>, vive cada momento que passa, que \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o bem divina. E o sapateiro vivia-o, nem sempre com hedonismo, algumas vezes havia dor. Dizia-se que partiu um dia o polegar depois de uma martelada fulminante mas de pouca pontaria, quando uma senhora de busto prendado e decote ainda mais generoso, entrou sem aviso no seu estabelecimento comercial\u2026<\/p>\n<p>Para os mais fundamentalistas a sua vida poder\u00e1 n\u00e3o ter sido mais que um folhetim colecion\u00e1vel de pecados que ofendem uma boa parte do dec\u00e1logo dos mandamentos. Mas, para quem o conheceu e conhece, agora j\u00e1 em plena e merecida reforma, toda essa exuberante obscenidade de prazeres embrulhados em pecados foi hoje convertida em padecimentos previs\u00edveis e imprevistos, que v\u00e3o da gota e da diabetes a tiques obsessivo-compulsivos adquiridos quando perdia \u00e0s cartas e que n\u00e3o conseguiu exorcizar totalmente atrav\u00e9s do palavreado vern\u00e1culo com que emoldurava o azar que tinha nalgumas jogadas. Dessa vida, antes de chegar o fado triste da idade, n\u00e3o tem arrependimento nem remorso.<\/p>\n<p>Se houvesse algu\u00e9m a quem devia pedir perd\u00e3o, hoje que j\u00e1 est\u00e1 cheio de ju\u00edzo, mas sem sa\u00fade para o saborear, era aos in\u00fameros clientes do seu artesanato utilit\u00e1rio de couros, a quem para alocar um simples tac\u00e3o, colocar contrafortes, aplicar umas meias-solas, um par de saltos altos ou dar uns pontos numa ranhura no couro inoportuna e feia, demorava uma infinidade de semanas. Aceitar trabalho era-lhe f\u00e1cil, o pior era faz\u00ea-lo e, ainda pior, cumprir os prazos que ele pr\u00f3prio estabelecia. Os infelizes clientes tinham de se arrastar e suplicar vezes sem conta ao Freitas para ver resolvida a tarefa mais banal numa sand\u00e1lia, coisa que o sapateiro tomava como um frete adi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em d\u00e9cadas da oficina de sapataria sempre me lembro de a ver desorganizada, sabuja, imut\u00e1vel e singularmente funcional. Os sapatos, rotos ou com outras mazelas, num mont\u00e3o admiravelmente ca\u00f3tico \u00e0 sua ilharga, do lado esquerdo, local onde sempre ocorria o milagre de o Freitas, homem alto e de bra\u00e7os longos, sempre conseguir encontrar o par de cada exemplar; um monte diminuto dos sapatos que tinham tido a sorte do arranjo, depois de muita insist\u00eancia dos respetivos propriet\u00e1rios, \u00e0 direita; no ch\u00e3o alguns pneus (para os rastos das botas de borracha), e nas prateleiras, de forma aparentemente aleat\u00f3ria, botas da tropa e de cano alto e com esporas e capas; tamb\u00e9m havia um arm\u00e1rio com as coisas mais estranhas l\u00e1 dentro, mas que o sapateiro considerava indispens\u00e1veis para muitos arranjos, e um banco corrido de madeira para a clientela mais paciente ou conversadora. A forrar todas as paredes, e at\u00e9 o teto, dando-lhes cor e excita\u00e7\u00e3o, calend\u00e1rios de mulheres nuas, que atraiam o olhar dos homens, e afugentavam a presen\u00e7a das senhoras, que, retra\u00eddas, n\u00e3o tinham para onde olhar, nem sequer para o teto, e se sentiam a mais entre ambiente t\u00e3o obscenamente marialva. Mesmo quando o can\u00e1rio numa gaiola \u00e0 entrada no estabelecimento morria de idade ou de tanto cantar, o sapateiro nesse mesmo dia havia de encontrar outro para o substituir e para atenuar a solid\u00e3o que sentia quando n\u00e3o havia clientes \u00e0 conversa sobre a maledic\u00eancia na urbe. E havia a pequena mesa de trabalho, onde, sobre as cevelas, facas, cardas, grosas, alicates, fios de coser, latas com sebo e mil outras tranquitanas do of\u00edcio, vergava o seu tronco e onde tamb\u00e9m ganhara uma corcunda consider\u00e1vel. Com os seus longos bra\u00e7os, e como um baterista atr\u00e1s do seu instrumento de trabalho, o Freitas Meias-Solas, parecia chegar a todos os cantos da oficina, fosse para retirar uma lima do arm\u00e1rio ou passar, ao fim do m\u00eas, mais uma folha de calend\u00e1rio e destapar outra magn\u00edfica ruiva descendente de Eva. Naquela oficina, durante todos os anos em que o sapateiro bo\u00e9mio l\u00e1 trabalhou, cada coisa tinha o seu local, e n\u00e3o havia raz\u00e3o nenhuma para mudar, tudo funcionava, e funcionava \u00e0 maneira do seu gerente e propriet\u00e1rio. Freitas era um conservador por intui\u00e7\u00e3o e por talento, e era assim o seu c\u00e9u. Essa era a melhor maneira de funcionar, por mais sugest\u00f5es de mudan\u00e7as que os clientes lhe dessem. Tantos anos depois, \u00e0 porta da sapataria, ainda sentimos aquele cheiro perp\u00e9tuo de graxa, sebo, couros curtidos e do suor daqueles velhos tempos.<\/p>\n<p>Nestes tempos da Covid-19, em que, entre emerg\u00eancias, calamidades, confinamentos e uns vagos esbo\u00e7os de desconfinamento, a nossa vida tem dado ziguezagues not\u00e1veis, tem sido assustador a forma como vejo algumas pessoas a mudarem t\u00e3o abruptamente a sua opini\u00e3o sobre tudo e sobre nada do que vai acontecendo. S\u00e3o verdadeiros cata-ventos sobre qualquer ideia, opini\u00e3o ou alarme que oi\u00e7am, e tornam-se depois altifalantes das ideias mais est\u00fapidas que ouviram numa esquina, nas redes sociais ou vinda de quem lhes pagou a \u00faltima bica ao balc\u00e3o de qualquer bar. \u00c9 constrangedor perceber o que poder\u00e3o ter na cabe\u00e7a estas criaturas que mudam t\u00e3o facilmente de opini\u00e3o e correm atr\u00e1s da \u00faltima <em>fake new<\/em> viral \u00e0 solta na <em>Internet<\/em>. E espantam-me com a forma como hoje adotam comportamentos e atitudes que ainda ontem abominavam\u00a0 \u0336\u00a0\u00a0 e amanh\u00e3 excomungar\u00e3o, se tiverem poder para isso, quem pensar como eles pensavam hoje. Talvez sorvam <em>overdoses<\/em> de informa\u00e7\u00e3o em ritmos t\u00e3o r\u00e1pidos e fren\u00e9ticos que n\u00e3o tenham tempo para esbo\u00e7ar, nem que seja palidamente, um pequeno exerc\u00edcio ou esfor\u00e7o de reflex\u00e3o e cr\u00edtica. Mudar \u00e9 o m\u00e1ximo, alterar o que existe \u00e9 sublime e deixar em cacos qualquer situa\u00e7\u00e3o existente \u00e9 o c\u00famulo da inova\u00e7\u00e3o e da excel\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas o maior problema dos cata-ventos n\u00e3o \u00e9 sequer a mudan\u00e7a s\u00fabita de convic\u00e7\u00e3o, sustentando durante dois dias sucessivos a mesma f\u00e9. O maior bus\u00edlis desta estirpe digital \u00e9 que opinam sobre tudo, com a agravante de darem \u00e0s suas opini\u00f5es a amplitude permitida pelas redes sociais e com o an\u00e1tema inquisitorial sobre quem n\u00e3o pensa assim, apesar do no dia seguinte j\u00e1 pensarem o contr\u00e1rio. E d\u00e3o opini\u00e3o e emitem <em>soundbites<\/em> sobre educa\u00e7\u00e3o, professores e ensino \u00e0 dist\u00e2ncia, sa\u00fade, medicamentos e epidemias em particular (ci\u00eancia que de resto ganhou reputados especialistas em Portugal nos \u00faltimos tr\u00eas meses), \u00e9tica de cabeleireira, ansiol\u00edticos, bons vinhos e maus costumes, o que lhes der na cisma.<\/p>\n<p>A Covid-19, que come\u00e7ou por ser (e ainda \u00e9) um problema sanit\u00e1rio, e se converteu gradualmente numa sarna econ\u00f3mica, social e suspeito j\u00e1 que psiqui\u00e1trica, arrasta ainda esta praga viral dos cata-ventos que se propagam na <em>Internet<\/em>, e cujo alcance \u00e9 tanto maior quanto maior \u00e9 o dislate emitido e a incontin\u00eancia verbal, e menor o seu sentido de bom senso. O novo coronav\u00edrus, com tudo o que continua a p\u00f4r em causa., parece n\u00e3o ter trazido apenas altera\u00e7\u00f5es \u00e0 fisiologia humana, mas tamb\u00e9m \u00e0 forma com muita gente come\u00e7ou a pensar, virando tudo de pernas para o ar.<\/p>\n<p>O mundo parece estar polarizado entre senhores Freitas, arcaicos e conservadores, e cata-ventos, destitu\u00eddos de qualquer sentido cr\u00edtico, e que sopram para onde vai o vento. Como em tudo, temos de ter refer\u00eancias, valores e rochedos num mundo que os parece ter perdido \u2013 e tamb\u00e9m uma certa flexibilidade e capacidade de orientar o leme, o que qualquer radicalismo nunca poder\u00e1 sequer admitir.<\/p>\n<p><em>Manuel Fernandes Vicente<\/em><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-sapateiro-freitas-os-cata-ventos-e-a-covid-19\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda h\u00e1 pessoas assim. 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