{"id":19222,"date":"2020-05-08T23:39:55","date_gmt":"2020-05-08T22:39:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=19222"},"modified":"2020-05-08T23:39:55","modified_gmt":"2020-05-08T22:39:55","slug":"obito-o-outro-lado-do-tio-zeca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/obito-o-outro-lado-do-tio-zeca\/","title":{"rendered":"\u00d3bito | O outro lado do Tio Zeca"},"content":{"rendered":"<p>Para quem veio viver para o Entroncamento mais recentemente o nome pouco lhe diz, e menos ainda a pessoa. Mas, para a velha guarda deste burgo nascido e crescido \u00e0 beira dos caminhos de ferro, como outros o fizeram \u00e0 beira de um castelo, numa ba\u00eda do mar ou na berma de uma estrada, se \u00e9 verdade que o nome de Jos\u00e9 Maria Sim\u00f5es Fernandes pouco diz, j\u00e1 o ep\u00edteto de Zequinha fala muito. Zequinha era o nome pelo qual toda a gente o tratava, foi uma figura popular, at\u00e9 mesmo t\u00edpica, no Entroncamento, sobretudo na \u00faltima metade do s\u00e9culo XX. Foi ontem, aos 84 anos, a sepultar na cidade, onde sempre viveu.<\/p>\n<figure id=\"attachment_19224\" aria-describedby=\"caption-attachment-19224\" style=\"width: 495px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-19224\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/O-Zeca-uma-figura-singular-do-Entroncamento-495x800.jpg\" alt=\"\" width=\"495\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/O-Zeca-uma-figura-singular-do-Entroncamento-495x800.jpg 495w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/O-Zeca-uma-figura-singular-do-Entroncamento-260x420.jpg 260w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/O-Zeca-uma-figura-singular-do-Entroncamento.jpg 511w\" sizes=\"auto, (max-width: 495px) 100vw, 495px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-19224\" class=\"wp-caption-text\">O Zeca, uma figura singular do Entroncamento<\/figcaption><\/figure>\n<p>Jos\u00e9 Maria Fernandes nasceu em 1935 no dia de S\u00e3o Martinho, 11 de novembro, e foi registado como natural de Vila Nova da Barquinha, mas o seu ber\u00e7o foi o Entroncamento, quando a ent\u00e3o vila ferrovi\u00e1ria integrava o concelho barquinhense. Sobretudo nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970, o Zequinha era uma figura t\u00edpica do Entroncamento, que nessa altura as tinha, porque todos se conheciam, e alguns destacavam-se pela visibilidade e exposi\u00e7\u00e3o da sua profiss\u00e3o, pelo seu car\u00e1cter mais vern\u00e1culo, ou apenas por serem diferente dos outros, e nessa altura ser diferente era metade do caminho para ser um estigma. Ainda me lembro de alguns, que recordo sem dificuldade, at\u00e9 porque eu, como a maioria dos\u00a0entroncamentenses, mant\u00ednhamos naturais e prof\u00edcuas rela\u00e7\u00f5es de amizade. Havia o Silvino dos jornais, com os seus preg\u00f5es cheios de estilo e de s\u00edncopes, quando ainda vendia pelas ruas, que percorria de bicicleta, os jornais<em> S\u00e9culo<\/em>, <em>Di\u00e1rio Popular <\/em>e <em>Capital <\/em>empilhados sua sacola debaixo do ombro, o Vilar do quiosque, o Capela que engraxava sapatos \u00e0 frente de um caf\u00e9 na zona da esta\u00e7\u00e3o, mas nem sempre estava nos seus dias, o inef\u00e1vel Ti Maur\u00edcio, que com a sua carro\u00e7a atrelada \u00e0 Atmosfera era o t\u00e1xi da miudagem, e nunca algu\u00e9m lhe conheceu um gesto \u00e1spero ou uma palavra azeda, e o agente Gra\u00e7a, um \u201cterror\u201d ambulante, sempre pronto para multas impiedosas e desgra\u00e7adas, em tudo contr\u00e1rio \u00e0 bonomia do senhor Maur\u00edcio. E havia ainda outros entroncamentenses que iam fazendo o seu tiroc\u00ednio at\u00e9 ganhar o estatuto de figura t\u00edpica, um galard\u00e3o que \u00e9 sobretudo um reconhecimento do povo. Uns s\u00ea-lo-iam pela sua visibilidade profissional, que executavam com relev\u00e2ncia, outros pela galhardia f\u00edsica ou por aventuras e bas\u00f3fias incr\u00edveis que haviam protagonizado na juventude e que ficaram, com as respetivas alcunhas, tatuadas na pele. E houve ainda homens que ficaram figuras p\u00fablicas apenas por serem diferentes, alvos de um mundo marialva e de machos alfa, t\u00e3o impiedosos para quem n\u00e3o alinhava pelos padr\u00f5es de masculinidade ostensiva, como o Gra\u00e7a era com quem na estrada conduzisse \u00e0s avessas, fosse um cami\u00e3o TIR, fosse uma simples trotineta sem luz \u00e0 retaguarda. Jos\u00e9 Maria Fernandes era Zeca Zeca (ou Tio Zeca) na fam\u00edlia, o nome ing\u00e9nuo com que uma crian\u00e7a um dia o chamou, e a fam\u00edlia, por carinho adotou. Mas na rua era o Zequinha, e a\u00ed o nome j\u00e1 tinha a sua conota\u00e7\u00e3o. Zequinha era diferente, n\u00e3o rivalizava com os outros pela exibi\u00e7\u00e3o de atributos m\u00e1sculos. Ter a mesma condi\u00e7\u00e3o dele hoje j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 alvo para ser apontado a dedo apenas por n\u00e3o pertencer ao padr\u00e3o e \u00e0 norma. O Zequinha n\u00e3o era assim, tinha uma personalidade diferente, um estilo pr\u00f3prio, um tom de voz distinto, e h\u00e1 algumas d\u00e9cadas n\u00e3o ser normal tinha cicatrizes, consequ\u00eancias e deixava marcas (e eu tenho, ali\u00e1s, ainda muitas d\u00favidas sobre isso em rela\u00e7\u00e3o aos tempos atuais, adiante).<\/p>\n<p>\u201cEle cantava muito bem, onde encontrava pessoas cantava. Admirava em especial a Madalena Igl\u00e9sias, tinha um fasc\u00ednio por ela\u201d, conta-nos Manuela Vieira, a filha do seu irm\u00e3o Manuel, aquele que mais o compreendia e apoiava. \u201cEram tr\u00eas rapazes, o Eduardo, o Manuel e o Zeca, o pai n\u00e3o entendia a sua condi\u00e7\u00e3o e era duro com ele, mas o meu pai, pelo contr\u00e1rio, protegia-o\u201d, acrescenta Manuela Vieira, sublinhando que o trabalho de Jos\u00e9 Maria foi sempre a vender p\u00e3o ao domic\u00edlio, vendia porta a porta o p\u00e3o que os pais fabricavam numa padaria. Jos\u00e9 Maria gostava de Madalena Igl\u00e9sias, mas tamb\u00e9m do Benfica, de arroz doce, da sopa quente da m\u00e3e de Manuela (que considerava como uma irm\u00e3 e uma confidente), de parar para conversar em cada esquina, da dobrada do Vila Franca, de rezar, de prociss\u00f5es e de juntar santinhos, de andar de bicicleta com as molas a prender as cal\u00e7as para que n\u00e3o se sujassem, de um \u00edman de um sem\u00e1foro benzido em F\u00e1tima que andava sempre com ele, e da praia da Parede, ningu\u00e9m sabe porqu\u00ea, mas tinha uma fixa\u00e7\u00e3o por esta praia da costa lisboeta, todos anos passava l\u00e1 as suas f\u00e9rias.<\/p>\n<figure id=\"attachment_19225\" aria-describedby=\"caption-attachment-19225\" style=\"width: 206px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19225\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/O-Zequinha-marcou-a-sua-\u00e9poca-desafiando-muitas-conven\u00e7\u00f5es.jpg\" alt=\"\" width=\"206\" height=\"292\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-19225\" class=\"wp-caption-text\">O Zequinha marcou a sua \u00e9poca desafiando muitas conven\u00e7\u00f5es<\/figcaption><\/figure>\n<p>\u201cO meu tio Zeca, ou Zeca Zeca como sempre ouvi a minha m\u00e3e carinhosamente trat\u00e1-lo, era sem d\u00favida uma personagem sem igual.<\/p>\n<p>O meu av\u00f4 Manuel dizia muitas vezes que o irm\u00e3o tinha sido batizado com uma agulha de grafonola pelas incessantes conversas que tinha, e pelas hist\u00f3rias que estava sempre pronto para contar\u201d, conta a sobrinha-neta Ana Lu\u00edsa Fernandes. \u201cSempre que entrava no carro fazia quest\u00e3o de se benzer e de que todos os que com ele viajassem fizessem uma pequena ora\u00e7\u00e3o. De todas as vezes que passava o Natal connosco adormecia, e quando o acord\u00e1vamos dizia sempre que n\u00e3o estava a dormir. Cantava as can\u00e7\u00f5es da Madalena Iglesias e dizia que podia ter sido um sucesso at\u00e9 porque, como fazia quest\u00e3o de frisar, toda a gente gostava dele\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAcho que, no fundo, esse era o seu desejo mais profundo, que todos gostassem dele e que todos o aceitassem. Era extremamente devoto, rezava todos os dias e lembro que sempre que o ter\u00e7o era rezado na r\u00e1dio, o som tinha de estar no m\u00e1ximo, ouvindo-se na casa da minha av\u00f3 ali ao lado. Batalhou imenso para que a capela do cemit\u00e9rio estivesse arranjada, e dizia com muito orgulho que tinha contribu\u00eddo para isso\u201d, acrescenta Ana Lu\u00edsa Fernandes, fazendo uma reflex\u00e3o sobre o seu familiar, que sempre passava o Natal consigo.\u00a0 \u00c0 cunhada \u201cpedia lhe tamb\u00e9m dez euros emprestados sempre que faz\u00edamos anos para nos dar como prenda; ach\u00e1vamos piada porque afinal, a prenda dele seria apenas o envelope com os dizeres de parab\u00e9ns e um beijinho\u201d, conta Ana Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>O Zequinha tinha tamb\u00e9m coisas ins\u00f3litas, que para o comum dos mortais n\u00e3o faria sentido, mas fazia para ele. Conta a irm\u00e3 de Ana Lu\u00edsa, Marta Isabel: \u201cUma vez demor\u00e1mos uma hora e par\u00e1mos sete vezes o carro no caminho, s\u00f3 para ir de uma ponta a outra do Entroncamento, pois fazia quest\u00e3o de cumprimentar todos com quem se cruzasse. Numa outra altura, parou o carro para conversar, sentou se no <em>capot<\/em>, n\u00e3o puxou o trav\u00e3o de m\u00e3o, e tivemos de correr para conseguir parar o carro&#8230; h\u00e1 muitas outras perip\u00e9cias assim. Vamos record\u00e1-lo com muita saudade\u201d.<\/p>\n<p>Manuela Vieira tamb\u00e9m j\u00e1 o recorda com saudade: \u201cQuando lhe fal\u00e1vamos de casar, mudava logo de assunto. Ajudava muito os outros e algumas funda\u00e7\u00f5es. Ficar solteiro tornou a sua vida num servi\u00e7o para os outros. Foi sempre muito religioso e esp\u00edrito alegre, compadecendo-se outros, rezava pelas suas almas\u201d.<\/p>\n<p>Talvez tivesse sido posto \u00e0 margem por algumas pessoas, sobretudo depois de se ter tornado dependente e desenvolver um quadro demencial nos \u00faltimos anos. Talvez a sua extrovers\u00e3o e a religi\u00e3o fossem tamb\u00e9m uma capa, um ref\u00fagio para resistir a isso. Num dia de maio, o m\u00eas que lhe era t\u00e3o especial, o cora\u00e7\u00e3o falhou. Fica em paz, amigo.<\/p>\n<p><em>Manuel Fernandes Vicente<\/em><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/obito-o-outro-lado-do-tio-zeca\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para quem veio viver para o Entroncamento mais recentemente o nome pouco lhe diz, e menos ainda a pessoa. 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