{"id":18869,"date":"2020-04-26T12:43:38","date_gmt":"2020-04-26T11:43:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=18869"},"modified":"2020-04-26T12:43:38","modified_gmt":"2020-04-26T11:43:38","slug":"manuel-fernandes-vicente-o-pogrom-de-lisboa-a-peste-de-ha-500-anos-e-a-pandemia-atual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-pogrom-de-lisboa-a-peste-de-ha-500-anos-e-a-pandemia-atual\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | O Pogrom de Lisboa, a peste de h\u00e1 500 anos e a pandemia atual"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em tr\u00eas dias sucessivos no declinar do m\u00eas de abril de 1506, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o mais de cinco s\u00e9culos, Lisboa ficou marcada a ferros por uma chacina popular, ativada e acicatada por frades dominicanos do Convento de S\u00e3o Domingos, que a hist\u00f3ria do pa\u00eds preferia esquecida ou, pelo menos, deixar na obscuridade, e que ficou conhecida para uma posteridade envergonhada como a Matan\u00e7a dos Judeus de Lisboa. As condi\u00e7\u00f5es sociais da capital eram deplor\u00e1veis, pobreza, fome, uma lament\u00e1vel falta de higiene generalizada, a seca e, como consequ\u00eancia, uma devastadora peste grassava pela cidade, ceifando vidas com desespero e sem piedade. Com os Descobrimentos Portugueses, a capital do novel imp\u00e9rio mar\u00edtimo enchera-se de gente de muitas latitudes, ra\u00e7as e credos, uns vindos como escravos, outros, como os judeus, trazendo conhecimentos e recursos para dar f\u00f4lego \u00e0 aventura das naus e caravelas, e capazes de as transformar em neg\u00f3cios pr\u00f3speros. Muitas fam\u00edlias judaicas sefarditas, estima-se que pr\u00f3ximo de cem mil pessoas, tinham vindo para Portugal, a partir de 1492, expulsas pelos Reis Cat\u00f3licos de Espanha, o seu esp\u00edrito de iniciativa fora importante para impulsionar o rumo para o mar, tiveram fun\u00e7\u00f5es importantes, eram matem\u00e1ticos e m\u00e9dicos, mas tiveram depois de se converter ao cristianismo para se manterem no pa\u00eds. Eram os conversos, crist\u00e3os-novos, marranos ou criptojudeus. Poucos acreditavam na autenticidade dessa convers\u00e3o, praticariam ocultamente a sua f\u00e9 original e seguiriam os textos sagrados da Torah, mas em p\u00fablico diziam-se fi\u00e9is da cristandade. O ambiente era de crispa\u00e7\u00e3o, tens\u00e3o e de pr\u00e9-ruptura social. A cidade estava nos limites do comport\u00e1vel.<\/p>\n<p>A peste bub\u00f3nica, proveniente da \u00c1sia e embarcada para a Europa em embarca\u00e7\u00f5es cheias de ratos, que por vezes acolhiam piolhos \u2013 e estes, as tenebrosas bact\u00e9rias que causavam a peste \u2013 espalhava desola\u00e7\u00e3o e, na prega\u00e7\u00e3o dos frades dominicanos, a peste era o resultado de Deus andar zangado. A doen\u00e7a era o castigo, e a culpa era dos judeus\u2026 Na tarde quente do dia 19 de abril de 1506, e no decorrer de uma liturgia na igreja de S\u00e3o Domingos, uma participante no culto ter\u00e1 visto um estranho reflexo de luz no altar e o rosto de Jesus Cristo iluminado, e ter\u00e1 ficado t\u00e3o impressionada com a vis\u00e3o que a interpretou como a evid\u00eancia de um milagre, logo excitando os demais presentes com a sua agita\u00e7\u00e3o. Rezavam todos por uma interven\u00e7\u00e3o divina para que terminasse a peste (e tamb\u00e9m a seca) no pa\u00eds, e essa observa\u00e7\u00e3o seria uma mensagem prenunciadora de algo mais\u2026 Uma apari\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Ao lado da vidente, todavia, um dos presentes n\u00e3o se mostrava t\u00e3o enlevado, opinando que a ilumina\u00e7\u00e3o observada nada tinha de transcendente, apenas cumpria as leis da \u00f3ptica, era um reflexo normal num dia solarengo no interior uma igreja. E logo ali se armou uma enorme desordem, em que uma multid\u00e3o arrebatada e crente no milagre se revoltou com o c\u00e9ptico, logo apontado como judeu, de nada lhe valendo as raz\u00f5es invocadas. Foi espancado e morto \u00e0 porta do templo. Mas este epis\u00f3dio foi apenas o rastilho. A partir daqui instalou-se o caos. Uma turba de indiv\u00edduos, inflamada pela <em>verve<\/em> de dois frades dominicanos, incentivando-os contra os crist\u00e3os-novos, transformou o \u00f3dio popular institu\u00eddo contra os judeus sefarditas numa matan\u00e7a. E foi assim durante tr\u00eas dias. O rei D. Manuel I estava fora da cidade (para evitar a peste), a corte real estacionava em Abrantes por id\u00eanticas raz\u00f5es, e as autoridades policiais em Lisboa n\u00e3o conseguiram segurar a turba e evitar o massacre. Centenas de arruaceiros, vil\u00e3os de toda a estirpe e marinheiros estrangeiros de barcos ancorados em Lisboa, associaram-se aos antissemitas e outros fan\u00e1ticos e levaram a cabo uma das maiores vergonhas humanas executadas no pa\u00eds. \u00c9 claro que o epis\u00f3dio, que incluiu persegui\u00e7\u00f5es a quem quer que fosse que algu\u00e9m acussasse de judeu, e assaltos e roubos \u00e0s suas casas, tamb\u00e9m remete para a psicologia tenebrosa das multid\u00f5es, que agem como um monstro ac\u00e9falo comandada por qualquer demagogo talentoso, e para o papel que sobre elas pode ter a <em>verve <\/em>inflamada e o discurso do \u00f3dio de uma qualquer minoria ativa e movida a fanatismos, sejam religiosos ou outros. Foi o execr\u00e1vel Pogrom de Lisboa, que no relato do historiador Dami\u00e3o de G\u00f3is consumou a morte de duas mil pessoas (homens, mulheres e crian\u00e7as), enquanto outros, como Samuel Usque, apontam para o dobro. Os judeus eram a causa da peste medonha e da seca severa que assolava todo o pa\u00eds\u2026<\/p>\n<p>Atualmente, Portugal e todo o mundo carregam o estigma de uma nova pandemia, igualmente proveniente da \u00c1sia, que cruzou o mundo numa velocidade assombrosa e o afetou numa dimens\u00e3o incomparavelmente superior \u00e0s dos surtos das pandemias de outros s\u00e9culos. Mas a forma de abordar uma doen\u00e7a t\u00e3o enigm\u00e1tica como letal mudou radicalmente. Apesar da sua origem permanecer ainda dentro de algum mist\u00e9rio e uma certa suspeita, j\u00e1 ningu\u00e9m a atribui a um castigo b\u00edblico, embora algumas ideologias radicais queiram ver na propaga\u00e7\u00e3o do novo coronav\u00edrus um sinal e uma mensagem, j\u00e1 n\u00e3o de Deus, mas de um destino e um determinismo teleol\u00f3gico que favorece os seus prop\u00f3sitos.<\/p>\n<p>O pensamento m\u00e1gico (que procura rela\u00e7\u00f5es onde n\u00e3o as h\u00e1, mas as suas supersti\u00e7\u00f5es julgam que sim), e at\u00e9 vingativo e viral de h\u00e1 500 anos \u00e0 porta de uma igreja de Lisboa, deu hoje lugar em todo o planeta ao conhecimento cient\u00edfico. H\u00e1 cinco s\u00e9culos havia demasiados fanatismos cegos e nenhuma virologia humana, ainda seriam precisos tr\u00eas s\u00e9culos at\u00e9 Louis Pasteur nascer. Hoje, conhece-se a forma de propaga\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e procuramos, em conformidade, atuar de forma a cortar os passos do seu caminho e evit\u00e1-la. H\u00e1 500 anos incriminava-se e perseguiam-se os judeus por preconceitos odiosos e acicatados. Face ao desconhecimento das doen\u00e7as, e ao medo que elas causavam, atribu\u00edam-se as suas causas a sinistros bodes expiat\u00f3rios, e se os odiassem (por qualquer preconceito inoculado anteriormente), melhor. Hoje, \u00e9 diferente a forma de as pessoas encararem a Covid-19. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 multid\u00f5es alvora\u00e7adas, nem beatos puritanos e com odres de \u00e1gua benta a incentiv\u00e1-las. O mundo procura reagir com racionalidade \u00e0 forma como o v\u00edrus se propaga, e procura atrav\u00e9s de pequenos passos adaptar-se e moldar-se \u00e0s suas investidas. Na frente da batalha surgem os her\u00f3is desta guerra, m\u00e9dicos, enfermeiros e outro pessoal hospitalar, bombeiros, autoridades e muitos volunt\u00e1rios. Na retaguarda, nos laborat\u00f3rios e universidades de todo o mundo, cruzando \u00e1reas de conhecimentos de forma hol\u00edstica e proveitosa, batalh\u00f5es de cientistas procuram testes, imunidades, vacinas, terapias e curas para enfrentar a doen\u00e7a. Como acredito no ser humano, na capacidade de se superar e naquilo de que \u00e9 capaz, estou convicto que vamos ganhar esta guerra. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por uma quest\u00e3o de f\u00e9.<\/p>\n<p><em>Manuel Fernandes Vicente<\/em><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-o-pogrom-de-lisboa-a-peste-de-ha-500-anos-e-a-pandemia-atual\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tr\u00eas dias sucessivos no declinar do m\u00eas de abril de 1506, j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o mais de cinco s\u00e9culos, Lisboa ficou marcada a ferros por uma chacina popular, ativada e acicatada por frades dominicanos do Convento de S\u00e3o Domingos, que a hist\u00f3ria do pa\u00eds preferia esquecida ou, pelo menos, deixar na obscuridade, e que ficou [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-18869","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18869"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18869\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}