{"id":18299,"date":"2020-04-09T15:49:26","date_gmt":"2020-04-09T14:49:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=18299"},"modified":"2020-04-09T15:49:26","modified_gmt":"2020-04-09T14:49:26","slug":"manuel-fernandes-vicente-a-liberdade-individual-a-seguranca-de-todos-e-a-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-liberdade-individual-a-seguranca-de-todos-e-a-covid-19\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | A liberdade individual, a seguran\u00e7a de todos e a Covid-19"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>O constrangimento de ficar confinado em casa faz do mundo, que j\u00e1 tinha ficado mais pequeno desde o in\u00edcio de 2020, e esta semana de P\u00e1scoa fica ainda mais diminu\u00eddo, limita-nos de muitas formas, mas tamb\u00e9m abre o caminho a muitas alternativas secund\u00e1rias, que de outro modo nunca seriam trilhadas. Quaisquer delimita\u00e7\u00f5es ou condicionalismos que s\u00e3o impostos \u00e0 nossa liberdade (aos nossos h\u00e1bitos comuns) trazem quase sempre no seu \u00e2mago uma oportunidade para espreitar por frestas e encontrar op\u00e7\u00f5es que oferecem as suas compensa\u00e7\u00f5es e contrapartidas consider\u00e1veis. Quantas obras-primas em muitas artes foram geradas quando se ditaram restri\u00e7\u00f5es ou confinamentos (por vezes muito s\u00e9rios e graves) aos seus autores? Por alguma lei ainda pouco estabelecida, quando algo nos \u00e9 subtra\u00eddo, se olharmos de forma sens\u00edvel e atenta, h\u00e1 sempre boas oportunidades que ent\u00e3o surgem e se oferecem. E por vezes superam o valor da perda. N\u00e3o \u00e9 quando perdemos a sa\u00fade que mais valor lhe damos? N\u00e3o \u00e9 quando nos \u00e9 retirada a liberdade que mais sentimos a sua import\u00e2ncia?<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es de quarentena e de afastamento social e dos h\u00e1bitos comuns, que s\u00e3o a nossa segunda natureza, levaram-me por puro acaso, a ouvir m\u00fasicas de discos que j\u00e1 n\u00e3o ouvia h\u00e1 d\u00e9cadas. E a agulha do meu velho Garrard voltou a deslizar surpreendida sobre os vinis e a mostrar 30 anos depois que ainda \u00e9 capaz de extrair uns sons anal\u00f3gicos dos velhos LP dos primeiros Pink Floyd, dos Amon D\u00fc\u00fcl II, dos Third Ear Band, de John Surman, Leonard Cohen ou de Gustav Mahler. Nunca mais os ouvira vindas das espiras negras, trouxeram renovadas emo\u00e7\u00f5es, e algumas saudades pelas hist\u00f3rias que a sua mem\u00f3ria sempre convoca. E h\u00e1 tamb\u00e9m dois livros que podem estar anos longe, mas, quando h\u00e1 mais tempo e disponibilidade mental, sempre me v\u00eam parar \u00e0s m\u00e3os. Foram alguns os livros que sorvi na minha vida e me ajudaram a ser a pessoa que sou, mas a minha adolesc\u00eancia n\u00e3o seria a mesma sem o <em>Admir\u00e1vel Mundo Novo<\/em>, de Aldous Huxley, e <em>1984<\/em>, de George Orwell. Duas distopias depressivas e, simultaneamente, est\u00edmulos excitantes, quer pelo que diziam, quer pelo espa\u00e7os em branco do que n\u00e3o diziam, e deixavam ao leitor para reflex\u00e3o e deslumbramento. Folheio-os brevemente com alguma frequ\u00eancia, mas nunca os voltei a reler integralmente por recear que uma nova leitura viesse macular a marca de epifania, quase sagrada, excelsa e superior que deixaram na minha juventude.<\/p>\n<p>As duas leituras s\u00e3o particularmente estimulantes. O <em>Admir\u00e1vel Mundo Novo<\/em>, publicado em 1932, \u00e9 a vis\u00e3o de um futuro ao mesmo tempo admir\u00e1vel e pungente. Nela, os cidad\u00e3os divididos por castas s\u00e3o inevitavelmente resignados e felizes, quanto mais n\u00e3o seja por recurso a uma droga, chamada \u201csoma\u201d, a no\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia n\u00e3o existe, e ter um filho era uma obscenidade indesculp\u00e1vel. \u00c9 uma sociedade puritana e muito sexualizada, que a um tempo admiramos e nos repugna, \u00e9 cientificamente muito evolu\u00edda, mas nela muitos de n\u00f3s n\u00e3o gostar\u00edamos de viver, apesar de aparentemente termos a certeza garantida de que ser\u00edamos felizes. No ensaio <em>1984<\/em>, com edi\u00e7\u00e3o datada de 1949, pouco tempo depois de terminada a II Guerra Mundial, George Orwell, que curiosamente foi aluno de franc\u00eas de Huxley em Eton, inventa o arqu\u00e9tipo de Big Brother, o irm\u00e3o observador bom e remoto que nos contempla de onde quer que seja e aonde quer que n\u00f3s vamos. Orwell tece ao longo de um not\u00e1vel trabalho vision\u00e1rio, as consequ\u00eancias dos totalitarismos, por mais benfazejas que sejam as suas inten\u00e7\u00f5es. Li os dois livros fascinado com a imagina\u00e7\u00e3o vision\u00e1ria dos seus autores e a capacidade como ambos faziam refletir sobre cen\u00e1rios t\u00e3o imponentes e absolutos para a esp\u00e9cie humana, mas cuja natureza ut\u00f3pica dava margem para pensar que, felizmente, nunca chegariam, e nunca dispor\u00edamos de todas aquelas maravilhosas e manipuladas aberra\u00e7\u00f5es. Hoje, gra\u00e7as \u00e0s novas tecnologias, pela intelig\u00eancia artificial e pela selva neoliberal, a realidade j\u00e1 fez o que eu considerava imposs\u00edvel \u2212 ultrapassou-os em absoluto, e isso n\u00e3o \u00e9 nem traz boas not\u00edcias.<\/p>\n<p>Na luta contra o novo coronav\u00edrus, a China tornou-se dupla not\u00edcia por ter estado na origem da pandemia (que ficar\u00e1 para sempre por esclarecer, e tem motivada in\u00fameras e n\u00e3o inocentes teorias), e tamb\u00e9m por ter sido o pa\u00eds que, depois de o v\u00edrus se ter dispersado copiosamente pelas cidades, melhor o soube controlar. Neste momento, na Europa, nos EUA e noutras regi\u00f5es do mundo, esse asfixiar da pandemia ainda parece um cen\u00e1rio distante, apesar da luta que se trava e das emerg\u00eancias que se decretam e devemos cumprir. E como conseguiu a China chegar a esse \u201cestado est\u00e1vel\u201d que tornou a curva do seu gr\u00e1fico de propaga\u00e7\u00e3o da pandemia t\u00e3o distinta das dos outros?<\/p>\n<p>De onde pude obter informa\u00e7\u00e3o fidedigna e v\u00e1lida, soube que o governo da China recorreu a toda a infantaria e cavalaria tecnol\u00f3gica de que disp\u00f5e, e que \u00e9 muita. E, com esse arsenal complexo que envolve telem\u00f3veis, sistemas de localiza\u00e7\u00e3o GPS, bases de dados, metadados, monitoriza\u00e7\u00f5es e algoritmos complexos e diversos, reconhecimentos faciais, cercas virtuais e c\u00e2maras de videovigil\u00e2ncia por onde haja maior fluxo de pessoas; e com medidas espartanas e de restri\u00e7\u00f5es v\u00e1rias \u00e0 liberdade de circula\u00e7\u00e3o ou com internamentos compulsivos, e recursos digitais altamente intrusivos na esfera das pessoas, conseguiu limitar, e muito, a prosperidade viral da Covid-19. A China passou a ver o rasto das pessoas contaminadas, identifica os que se encontram pr\u00f3ximos e p\u00f5e de quarentena compulsiva ou volunt\u00e1ria quem podia estar potencialmente infectado. No mundo ocidental, com restri\u00e7\u00f5es de ordem constitucional e mesmo com tradi\u00e7\u00f5es culturais e mentalidades muito distintas, a aplica\u00e7\u00e3o deste freio radical \u00e9 praticamente inexequ\u00edvel.<\/p>\n<p>H\u00e1 imensas cr\u00edticas que se fazem ao imp\u00e9rio oriental, desde a forma como tudo come\u00e7ou, como ao modo como negligenciou as precau\u00e7\u00f5es e resguardos iniciais e agora \u00e0 sua vis\u00e3o totalit\u00e1ria e \u201c<em>Big Brother<\/em>\u201d, com que se lan\u00e7ou ao pa\u00eds e onde a liberdade de cada cidad\u00e3o esteve ao mesmo n\u00edvel de direitos que os de uma perdiz no dia de abertura de ca\u00e7a.<\/p>\n<p>O caso op\u00f5e a liberdade individual e a seguran\u00e7a do Estado, da sociedade e do coletivo. Em condi\u00e7\u00f5es normais dir\u00edamos, sem pestanejar, que a liberdade \u00e9 um bem essencial, absoluto e inalien\u00e1vel. Mas em situa\u00e7\u00f5es excecionais, graves e dolorosas, como aquelas que o coronav\u00edrus trouxe para esta guerra mundial, parece que os cidad\u00e3os est\u00e3o dispostos a desvalorizar e abdicar do \u201cluxo\u201d da liberdade pessoal e reinvesti-lo em meios em que o poder estatal possa defender a sociedade como puder e souber.<\/p>\n<p><em>Manuel Fernandes Vicente<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-a-liberdade-individual-a-seguranca-de-todos-e-a-covid-19\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O constrangimento de ficar confinado em casa faz do mundo, que j\u00e1 tinha ficado mais pequeno desde o in\u00edcio de 2020, e esta semana de P\u00e1scoa fica ainda mais diminu\u00eddo, limita-nos de muitas formas, mas tamb\u00e9m abre o caminho a muitas alternativas secund\u00e1rias, que de outro modo nunca seriam trilhadas. 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