{"id":17891,"date":"2020-03-27T17:08:15","date_gmt":"2020-03-27T17:08:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=17891"},"modified":"2020-03-27T17:08:15","modified_gmt":"2020-03-27T17:08:15","slug":"joao-bianchi-villar-vamosachatarocerebro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/joao-bianchi-villar-vamosachatarocerebro\/","title":{"rendered":"JO\u00c3O BIANCHI VILLAR | #Vamosachataroc\u00e9rebro"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1237\" aria-describedby=\"caption-attachment-1237\" style=\"width: 273px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1237\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/jbianchi.jpg\" alt=\"\" width=\"273\" height=\"273\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1237\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Bianchi Villar joao.bianchi.villar@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o sei ao certo quantas vezes o mundo esteve prestes a acabar. S\u00e3o in\u00fameros aqueles momentos em que o gongo ressoou pelas ruas da cidade com o preg\u00e3o dos \u00faltimos dias mesmo a\u00ed \u00e0 nossa porta. Mas provavelmente, de cada vez que acordo num dia seguinte, o planeta recome\u00e7a a sua vida para uma nova constru\u00e7\u00e3o da realidade que ir\u00e1 encher o meu esp\u00edrito. Todavia, nestes tempos em que o despertar se faz invariavelmente no confinamento de uma habita\u00e7\u00e3o, qual pris\u00e3o sem grades onde voluntariamente nos enclausuramos, \u00e9 poss\u00edvel imaginar que, em vez do labor do chuveiro, da pasta de dentes, da roupa j\u00e1 preparada, ou escolhida \u00e0 pressa para enfrentar a loucura do dia-dia, do pequeno almo\u00e7o consumido sem vagar e com dois pingos de caf\u00e9 que se limpam rapidamente dos l\u00e1bios, a mente matem\u00e1tica, cronol\u00f3gica, feita de hor\u00e1rios e obriga\u00e7\u00f5es que se desenrolam numa rotina di\u00e1ria pelo c\u00e9rebro, se v\u00ea agora substitu\u00edda pelo vazio, pelo espa\u00e7o em branco, pela agenda t\u00e3o deserta como as prateleiras de papel higi\u00e9nico de um supermercado.<\/p>\n<p>N\u00e3o fosse o martelar constante, hipn\u00f3tico, sedativo, das not\u00edcias coron\u00e1sticas, ter\u00edamos, finalmente, atingido o grande sonho dos gregos antigos de uma vida simplesmente filos\u00f3fica, o Bios Theoretikos de Arist\u00f3teles (Suprema Felicidade), ou a Vita Activa de Plat\u00e3o que, curiosamente, compreende todas as actividades humanas numa absoluta quietude da contempla\u00e7\u00e3o. Que grandess\u00edssima\u00a0 seca n\u00e3o seria!<\/p>\n<p>Numa met\u00e1fora deste espa\u00e7o confinado auto-imposto surge-me a ideia da assim designada \u00abGaiola de Ferro\u00bb da racionalidade (Weber) constituindo-se, n\u00e3o num instrumento libertador do esp\u00edrito humano, iluminista, de progresso, mas antes num s\u00edmbolo de servid\u00e3o de homens que deixaram a \u00abf\u00e1brica de certezas\u00bb da mente apod\u00edtica e bem-oleada, para um obscuro recanto de quatro paredes repletas de slogans noticiosos repetitivos e de sensa\u00e7\u00f5es de incerteza social, pol\u00edtica e econ\u00f3mica s\u00f3 poss\u00edvel em tempos em que o decl\u00ednio dos valores, da liberdade, da democracia, se vem somar ao \u00abcolapso das nossas pr\u00f3prias certezas sobre o que o mundo significa\u00bb (Beck). Ou, se preferem o fim de todas as certezas da Modernidade, tornadas antiquadas antes de poderem \u00abossificar\u00bb (Marx). Prefiro uma linguagem alternativa, prestada pela linguagem muito pr\u00f3pria de Pessoa: \u00abA certeza &#8211; isto \u00e9, a confian\u00e7a no car\u00e1cter objectivo das nossas percep\u00e7\u00f5es, e na conformidade das nossas ideias com a \u00abrealidade\u00bb ou a \u00abverdade\u00bb &#8211; \u00e9 um sintoma de ignor\u00e2ncia ou de loucura. O homem mentalmente s\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 certo de nada, isto \u00e9, vive numa incerteza mental constante; quer dizer, numa instabilidade mental permanente; e, como a instabilidade mental permanente \u00e9 um sintoma m\u00f3rbido, o homem s\u00e3o \u00e9 um homem doente\u00bb.<\/p>\n<p>O coronav\u00edrus \u00e9 um desafio a m\u00faltiplas reflex\u00f5es em torno da nossa condi\u00e7\u00e3o humana, da sua aparente fragilidade encapsulada em sinais de progresso, da superveni\u00eancia da vida biol\u00f3gica, tendencialmente finita, mortal, compartilhada num sistema ecol\u00f3gico com outras vidas humanas igualmente finitas, mortais, com a ambi\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito travestido na eternidade de Prometeu em busca do fogo do conhecimento, sonhando com a gn\u00f3stica imortalidade da liberta\u00e7\u00e3o do inv\u00f3lucro f\u00edsico, emergindo sozinho, nem seguido nem acompanhado por outros, como o Plat\u00e3o da Caverna que se libertou dos grilh\u00f5es que o prendiam aos seus semelhantes para atingir a \u00absingularidade\u00bb. Ou seja, simplificando, \u00e9 o desafio de perceber se o esp\u00edrito pode viver destas ilus\u00f5es de eternidade e de imortalidade sendo, afinal, nada mais do que um bin\u00f3mio com o seu corpo f\u00edsico e sens\u00edvel a um ente biol\u00f3gico, microsc\u00f3pico, libertado num\u00a0 distante mercado de uma cidade que todos tivemos que ir procurar ao mapa.<\/p>\n<p>Enquanto a \u00abhipnop\u00e9dia\u00bb (Huxley) noticiosa deslarga o seu copioso embrutecimento surge um Debord no seu esplendor prof\u00e9tico, que n\u00e3o soando como o tal gongo do fim dos tempos, sempre se faz anunciar como um aviso da que ser\u00e1, certamente, uma das grandes\u00a0 \u00a0\u00abdial\u00e9cticas da modernidade\u00bb (Beck): \u00abEmancipar-se das bases materiais da verdade invertida, eis no que consiste a auto-emancipac\u00e3o da nossa \u00e9poca. Esta &#8220;miss\u00e3o hist\u00f3rica de instaurar a verdade no mundo&#8221;, nem o indiv\u00edduo isolado, nem a multid\u00e3o atomizada, submetida \u00e0s manipula\u00e7\u00f5es, a podem realizar\u00bb (Debord).<\/p>\n<p>Enquanto procuramos, todos, o nosso papel no futuro que se avizinha, no mundo p\u00f3s-coronav\u00edrus, saibamos por estes tempos achatar o nosso c\u00e9rebro, que tamb\u00e9m sendo curvo, tamb\u00e9m nos impele a desafiar o desconhecido, a lutar contra a adversidade, a progredir em consci\u00eancia e empenhamento individual e colectivo. Que esse\u00a0 #VAMOSACHATAROC\u00c9REBRO seja sin\u00f3nimo, n\u00e3o de uma mocada na mente deslumbrada pela nova Torre de Babel da grandiosa ci\u00eancia e do aparente dom\u00ednio da Natureza, mas antes do esvaziar simb\u00f3lico dos orgulhos de um c\u00e9rebro inchado pelos fluidos do individualismo, da racionalidade auto-contida, do clister da comunica\u00e7\u00e3o das massas. Mais do que tudo, \u00a0saibamos perceber esta nova realidade que nos transporta para o facto de que todos, ricos e pobres, s\u00e1bios e ignorantes, belos e feios, gordos e magros, brancos e n\u00e3o-brancos, residentes ou imigrantes, crentes ou ateus, etc, etc., repito todos, somos iguais nesta perspectiva da humanidade revelada por uma doen\u00e7a que nos achatou o orgulho e nos lan\u00e7a o desafio \u00a0de um novel estado de esp\u00edrito, t\u00e3o bem sintetizado pelas palavras de Hemingway: \u00abO segredo da sabedoria, do poder e do conhecimento \u00e9 a humildade\u00bb.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gon\u00e7alo de Bianchi Villar (P\u00f3s-graduado em Protec\u00e7\u00e3o Civil Municipal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/joao-bianchi-villar-vamosachatarocerebro\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 n\u00e3o sei ao certo quantas vezes o mundo esteve prestes a acabar. 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