{"id":17484,"date":"2020-03-13T10:40:33","date_gmt":"2020-03-13T10:40:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=17484"},"modified":"2020-03-27T17:03:56","modified_gmt":"2020-03-27T17:03:56","slug":"joao-bianchi-villar-a-burra-nas-couves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/joao-bianchi-villar-a-burra-nas-couves\/","title":{"rendered":"JO\u00c3O BIANCHI VILLAR | A Burra nas Couves"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1237\" aria-describedby=\"caption-attachment-1237\" style=\"width: 251px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1237 \" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/jbianchi.jpg\" alt=\"\" width=\"251\" height=\"251\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1237\" class=\"wp-caption-text\">Jo\u00e3o Bianchi Villar joao.bianchi.villar@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Estimado leitor, como j\u00e1 nos escrevia Cervantes, \u00absem juramento me poder\u00e1s crer que quisera que este [texto], como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo e o mais discreto que pudera imaginar-se\u00bb (1). Infelizmente, tempos h\u00e1 em que os acontecimentos atropelam as inten\u00e7\u00f5es e &#8211; a realidade &#8211; crua, feroz, virulenta, impende, tal espada de D\u00e2mocles, sobre as nossas cabe\u00e7as mais ou menos cobertas pelo substrato piloso. O susto pela ambiguidade, a encena\u00e7\u00e3o da desgra\u00e7a, v\u00eam-se locupletadas na velha confus\u00e3o entre riscos e cat\u00e1strofes. Sendo o risco mundial a encena\u00e7\u00e3o da desgra\u00e7a, como nos descreve Beck, redige-se o diagn\u00f3stico como \u00abuma profecia que se contradiz a si mesma\u00bb (2). Ou seja, anuncia-se a luta que o homem trava para que os seus piores receios n\u00e3o se concretizem.<\/p>\n<p>A confian\u00e7a no verdadeiro \u00e9, mais do que nunca, fundamental para a sobreviv\u00eancia dos seres humanos, l\u00ea-se em Eco (3). Transcrevendo: \u00abse n\u00e3o pens\u00e1ssemos que os outros, quando nos falam, nos dizem o verdadeiro ou o falso, n\u00e3o seria poss\u00edvel a vida em sociedade\u00bb (4). Curiosamente, na hist\u00f3ria das ci\u00eancias cind\u00ednicas (ou ci\u00eancias do perigo) \u00e9 comum defender-se que, at\u00e9 Rousseau, \u00aba humanidade admitia o perigo sem o questionar\u00bb (5). Era a fase em que se pensava em Deuses, caprichosos e vingativos, fazendo das suas sobre a humanidade, sem que houvesse forma de perceber, ou evitar, as cat\u00e1strofes inesperadas ou anunciadas. Numa pol\u00e9mica entre este mesmo Rousseau e Voltaire, na sequ\u00eancia do nosso famigerado terramoto de 1755, sedimentou-se a ideia de que as coisas n\u00e3o eram bem assim. Assim, nos dias de hoje, mesmo para quem j\u00e1 n\u00e3o acredita nesses mesmos Deuses, \u00e9 estulto considerar que as Senhoras de F\u00e1tima ajudam mesmo aqueles que n\u00e3o fazem nada para evitar e\/ou morigerar os efeitos da adversidade. Ou, na vers\u00e3o mais soft, h\u00e1 que confiar no c\u00e9lebre ad\u00e1gio, \u00abn\u00e3o leves a manta&#8230;\u00bb.<\/p>\n<p>Parafraseando Camus, o que \u00e9 mais original na nossa cidade, diria at\u00e9 nas nossas vidas, \u00e9 a dificuldade que l\u00e1 se encontra em morrer: \u00abNa nossa pequena cidade, talvez por efeito do clima, tudo se faz ao mesmo tempo, com o mesmo ar fren\u00e9tico e distante. Ou seja, as pessoas aborrecem-se e aplicam-se a criar h\u00e1bitos\u00bb (6). Ou, pelo menos, assim era at\u00e9 h\u00e1 uns dias atr\u00e1s. Um sussurro distendeu-se das conversas de caf\u00e9 e do trabalho para os ecr\u00e3s da televis\u00e3o, para as redes sociais, para os di\u00e1logos \u00e0 mesa do jantar e, como um v\u00e9u de incerteza, cobriu as nossas preocupa\u00e7\u00f5es com um dos seus mais velhos receios: o medo da doen\u00e7a e da morte. \u00abOs rumores duplicam, como a voz e o eco, os n\u00fameros dos que temem\u00bb, declamava Shakespeare (7). E assim, com mais ou menos confian\u00e7a no funcionamento das institui\u00e7\u00f5es, o medo instala-se entre todos, mesmo os mais intemeratos.<\/p>\n<p>Todavia, numa clara alus\u00e3o aos princ\u00edpios base da vida em sociedade, parece que conquist\u00e1mos o direito ao medo sem a sua contraparte que \u00e9 o dever de ac\u00e7\u00e3o. Ou seja, como se entende no dom\u00ednio da Protec\u00e7\u00e3o Civil, parece que nos esquecemos de, enquanto cidad\u00e3os bem informados e solid\u00e1rios, sermos o primeiros agentes na preven\u00e7\u00e3o dos riscos colectivos e na atenua\u00e7\u00e3o dos seus efeitos em situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia (8). Devemos estimular o isolamento inteligente sim, n\u00e3o como fundamento de receios, mas como demonstra\u00e7\u00e3o de cidadania e, logo, como instrumento de saber estar em sociedade. Podemos demonstrar e anunciar preocupa\u00e7\u00e3o sim, mas sem sermos correia de transmiss\u00e3o ou caixa de resson\u00e2ncia de alarmismos e\/ou boatos. Queremos ter o m\u00ednimo de artigos necess\u00e1rios nas nossas dispensas para atender \u00e0s necessidades correntes, com alguma margem toler\u00e1vel, mas n\u00e3o devemos esgotar, a t\u00edtulo de exemplo, o papel higi\u00e9nico nas superf\u00edcies comerciais, para que n\u00e3o se julgue, como alguns j\u00e1 adiantam, que cultivamos uma estreita liga\u00e7\u00e3o entre o intestino grosso e o nosso \u00abego consciente\u00bb, para usar uma express\u00e3o de Descartes. \u00c9 o que separa a paran\u00f3ia e o individualismo do sentido de responsabilidade em sociedade, da cidadania e da civilidade.<\/p>\n<p>Terminando como se come\u00e7ou, o risco mundial enquanto a encena\u00e7\u00e3o da desgra\u00e7a, afirme-se que a \u00aba antecipa\u00e7\u00e3o da cat\u00e1strofe altera o conceito de sociedade no s\u00e9culo XXI\u00bb (9), nas palavras de Beck. Esta pode e deve ser combatida com atitudes que sejam geradoras de um novo \u00abmomento cosmopolita\u00bb para a vida da Humanidade: \u00abOs riscos globais confrontam-nos com o outro aparentemente exclu\u00eddo. Derrubam fronteiras nacionais e misturam o nativo com o estrangeiro. O outro afastado torna-se o outro interno &#8211; n\u00e3o na sequ\u00eancia da migra\u00e7\u00e3o, mas sim de riscos globais. O quotidiano torna-se cosmopolita: as pessoas t\u00eam de atribuir sentido \u00e0 sua vida no interc\u00e2mbio com os outros, e n\u00e3o no encontro com os seus semelhantes\u00bb (10).<\/p>\n<p>Temos, autenticamente, a burra nas couves, o caldo entornado, uma emerg\u00eancia global de caracter\u00edsticas e consequ\u00eancias ainda por definir e descrever com dimens\u00f5es exactas. Contudo, tal como todos os perigos, o desafio tamb\u00e9m encerra uma oportunidade. Assim, saibamos meditar e colocar em pr\u00e1tica a sucinta ideia contida neste c\u00e9lebre reflex\u00e3o: \u00abPorque raz\u00e3o me sinto t\u00e3o bem? (&#8230;) N\u00e3o tenho queijo nem sei para onde vou. (&#8230;) Parou e escreveu na parede: QUANDO ULTRAPASSAS O TEU MEDO, SENTES-TE LIVRE\u00bb (11). Que Assim seja!<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Gon\u00e7alo de Bianchi Villar (P\u00f3s-graduado em Gest\u00e3o de Protec\u00e7\u00e3o Civil Municipal)<\/p>\n<h6>(1) Miguel de Cervantes (1605), Dom Quixote de la Mancha. Publica\u00e7\u00f5es D. Quixote, Alfragide, 2015: 1.\u00aa Ed. P\u00e1g. 68.<br \/>\n(2) Ulrich Beck (2007), Sociedade de Risco Mundial. Edi\u00e7\u00f5es 70, Lisboa, 2016: 1.\u00aa ed. P\u00e1g. 32.<br \/>\n(3) Umberto Eco (2007), Absoluto e Relativo in Aos Ombros de Gigantes. Edi\u00e7\u00e3o Gradiva, Lisboa, 2018: 1.\u00aa Ed. P\u00e1g. 121.<br \/>\n(4) Umberto Eco (2007), idem.<br \/>\n(5) Georges-Yves Kervern (1995), Elementos Fundamentais das Ci\u00eancias Cind\u00ednicas. Ed. Instituto Piaget, Lisboa: 1.\u00aa Ed. P\u00e1g. 13.<br \/>\n(6) Albert Camus (1947) A Peste. Ed. Livros do Brasil, Porto, 2016: 1.\u00aa Ed. P\u00e1gs. 11-12.<br \/>\n(7) William Shakespeare (1600) King Henry the Fourth &#8211; Part II. Ed. The Athenaeum Press, 1924. P\u00e1g. 75.<br \/>\n(8) Elisa Vila Nova (1996) Educar para a Protec\u00e7\u00e3o Civil. Ed. texto Editora, Cac\u00e9m, 1997: 2.\u00aa Ed. Actualizada. P\u00e1g. 8.<br \/>\n(9) Ulrich Beck (2007), idem. P\u00e1g. 42.<br \/>\n(10) Ulrich Beck (2007), ibidem. P\u00e1g. 43.<br \/>\n(11) Spencer Johnson (1998) Quem Mexeu no meu Queijo?. Ed. Gest\u00e3o Plus Edi\u00e7\u00f5es, Cascais, 2001: 2.\u00aa Ed. Revista e Actualizada. P\u00e1g. 51.<\/h6>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/joao-bianchi-villar-a-burra-nas-couves\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estimado leitor, como j\u00e1 nos escrevia Cervantes, \u00absem juramento me poder\u00e1s crer que quisera que este [texto], como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo e o mais discreto que pudera imaginar-se\u00bb (1). 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