{"id":16938,"date":"2020-02-29T17:24:44","date_gmt":"2020-02-29T17:24:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=16938"},"modified":"2020-02-29T17:24:44","modified_gmt":"2020-02-29T17:24:44","slug":"sob-a-proteccao-de-nossa-senhora-da-boa-viagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/sob-a-proteccao-de-nossa-senhora-da-boa-viagem\/","title":{"rendered":"Sob a protec\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora da Boa Viagem"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o raro a mem\u00f3ria dos homens comuns tamb\u00e9m \u00e9 feita de acontecimentos marcantes que fogem \u00e0s rotinas do quotidiano. A nossa hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX, pr\u00f3diga em epis\u00f3dios da chamada guerra colonial (express\u00e3o carregada de ideologia) tamb\u00e9m \u00e9 feita de expedi\u00e7\u00f5es militares. Nos idos de 50 partiram ent\u00e3o para o Estado Portugu\u00eas da \u00cdndia alguns constancienses e \u00e9 sobre esse destacamento (D.E.I) que vos queremos dar um breve apontamento.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16939\" aria-describedby=\"caption-attachment-16939\" style=\"width: 493px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16939 size-full\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-1.jpg\" alt=\"\" width=\"493\" height=\"506\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-1.jpg 493w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-1-356x364.jpg 356w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-1-409x420.jpg 409w\" sizes=\"auto, (max-width: 493px) 100vw, 493px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-16939\" class=\"wp-caption-text\">Partida do Quanza de Lisboa para a \u00cdndia. 17\/02\/1958. O meu saudoso pai \u00e9 o primeiro da direita e tem a m\u00e3o direita na cara.<\/figcaption><\/figure>\n<p>A viagem a bordo do navio patrulha Quanza (foto 1) durou uns imensos trinta e dois dias, tendo a alimenta\u00e7\u00e3o sido exclusivamente confeccionada com peixe (recordo-me de sempre ter ouvido queixas c\u00e1 em casa por causa da pescada congelada que se comia nas intermin\u00e1veis viagens de barco). Arnaldo Corda Caxias era \u00e0 data Cabo e estava sob as ordens directas do meu saudoso pai, Ac\u00e1cio Alves luz (ent\u00e3o Furriel e depois 2\u00ba Sargento, ainda na \u00cdndia). \u00c0 conversa com este nosso conterr\u00e2neo Caxias, antigo sargento da EPE, pude cruzar alguns dados de mem\u00f3ria que retinha e da\u00ed este pequeno texto.<\/p>\n<p>O regresso da \u00cdndia foi feito num barco de min\u00e9rio, o Rovuma tendo a tripula\u00e7\u00e3o passado por momentos de verdadeira tormenta em alto mar, aterradores. As ondas de cerca de quinze metros de altura atravessavam o barco de um lado ao outro e a todo o momento faziam temer o pior, tendo os tripulantes entregado a sua alma a Deus. Foi um verdadeiro milagre terem escapado. Desses momentos de quase terror sempre ouvi falar com muito respeito. Caxias quase que se transfigura ao rever as ondas assassinas que se ligavam de bombordo e estibordo, ficando-se por uma ou outra afirma\u00e7\u00e3o porque a express\u00e3o do seu rosto nos basta. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o os des\u00edgnios divinos mas conhe\u00e7o uma devo\u00e7\u00e3o pessoal \u00e0 Senhora da Boa Viagem, a do meu progenitor o qual na sua cria\u00e7\u00e3o havia sido bastante influenciado por uma fam\u00edlia ateia, a do comerciante Manoel dos Santos Costa (seu tio av\u00f4).. Na \u00cdndia\u00a0 o meu saudoso pai viria a pertencer \u00e0 Obra do Soldado. da qual guardo uma esp\u00e9cie de cart\u00e3o de filia\u00e7\u00e3o H\u00e1 precisamente 70 anos aconteceu a .\u00abAugusta peregrina\u00e7\u00e3o de 11 de Maio de 1950.\u00bb. De. Const\u00e2ncia a F\u00e1tima (a p\u00e9).. A organiza\u00e7\u00e3o coube \u00e0 Em\u00edlia Fona. Dessa peregrina\u00e7\u00e3o resta um relato escrito pelo meu pai, a \u00abreportagem\u00bb que carinhosamente sempre citava nas nossas conversas.. Fez ontem precisamente sete anos que nos deixou. L\u00e1 no et\u00e9reo assento, junto \u00e0 Virgem M\u00e3e, que vele por n\u00f3s e por este mundo perdido de valores e de gente valorosa.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16941\" aria-describedby=\"caption-attachment-16941\" style=\"width: 568px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-16941\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-2.jpg\" alt=\"\" width=\"568\" height=\"439\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-2.jpg 568w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-2-543x420.jpg 543w\" sizes=\"auto, (max-width: 568px) 100vw, 568px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-16941\" class=\"wp-caption-text\">Vista geral do quartel do Destacamento de Engenharia da \u00cdndia. Pond\u00e1, 06\/12\/1959.<\/figcaption><\/figure>\n<p>No regresso da \u00cdndia e \u2013 prosseguindo &#8211; chegados ao canal de Suez, tiveram de aguardar seis dias por ordem de Salazar. Motivo? A Uni\u00e3o Indiana tinha invadido o territ\u00f3rio n\u00e3o-aut\u00f3nomo de Goa, do Estado Portugu\u00eas da \u00cdndia, sob administra\u00e7\u00e3o portuguesa (a Constitui\u00e7\u00e3o Portuguesa havia integrado os territ\u00f3rios no Estado, mas isso \u00e9 outra hist\u00f3ria) A todo o momento se aguardava ordem de regresso \u00e0 \u00cdndia. A hist\u00f3ria acabou por revelar a falta de apoio do Velho Aliado (e nem as decis\u00f5es do tribunal internacional a nosso favor fizeram mudar os ventos da pol\u00edtica dos interesses comuns&#8230;). Sobre a invas\u00e3o militar ouvi hist\u00f3rias na primeira pessoa de um velho amigo, \u00e0 data sargento, e que vim a conhecer nos anos 90, o capit\u00e3o Hor\u00e1cio de saudosa mem\u00f3ria. Enquanto prisioneiros de guerra os portugueses n\u00e3o ter\u00e3o sofrido grandes repres\u00e1lias dada a sua posi\u00e7\u00e3o de inferioridade militar e de incapacidade de reac\u00e7\u00e3o. A este prop\u00f3sito revelo que o meu saudoso pai era para ter renovado a miss\u00e3o na \u00cdndia mas fez uma permuta com outro militar e, assim, j\u00e1 estava ao largo em alto mar quando a invas\u00e3o acabou por ocorrer.<\/p>\n<p>De Const\u00e2ncia, Simpl\u00edcio, profiss\u00e3o carpinteiro, muito se falava em Pond\u00e1. O seu nome estava escrito na oficina do quartel e era famoso. Quem o conheceu sabe que era um excelente art\u00edfice. Simpl\u00edcio Silva tinha uma casa dentro do quartel e outra fora da portas. Permaneceu por l\u00e1 cerca de quatro anos. Da Praia ter\u00e1 partido consigo para a \u00cdndia um membro da fam\u00edlia Parracho. Isaac Boiadas, da Roda, ter\u00e1 sido camarada de armas do meu pai, em Pangim. Conheci pessoalmente outro sargento do D.E.I, j\u00e1 como capit\u00e3o, de nome Ferr\u00e3o, que tinha trabalhado com o meu pai.<\/p>\n<figure id=\"attachment_16940\" aria-describedby=\"caption-attachment-16940\" style=\"width: 433px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-16940\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-3.jpg\" alt=\"\" width=\"433\" height=\"577\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-3.jpg 433w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Foto-3-315x420.jpg 315w\" sizes=\"auto, (max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-16940\" class=\"wp-caption-text\">A estrela e o peda\u00e7o de mar ali est\u00e3o perpetuados na igreja matriz no altar de Nossa Senhora da Boa Viagem. A lembrar o altar original da Boa Viagem, da Capela de S\u00e3o Jo\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<p>A camaradagem dos antigos expedicion\u00e1rios da \u00cdndia foi uma constante e a servir de prova temos a\u00ed os sucessivos encontros anuais de conv\u00edvio.<\/p>\n<p>\u00c9! A tropa moldou-nos a todos. Tamb\u00e9m a n\u00f3s. Por muitos anos. A institui\u00e7\u00e3o castrense s\u00f3 tem paralelo com a Igreja. Ambas s\u00e3o estruturantes na Na\u00e7\u00e3o. O sentimento de camaradagem, na adversidade, no perigo, em tempo de paz, \u00e9 uma constante.Perderam-se esses valores p\u00e1trios..<\/p>\n<p>A defesa do Imp\u00e9rio exigiu sacrif\u00edcios \u00e0s fam\u00edlias, desde logo, a separa\u00e7\u00e3o dos maridos das mulheres e dos filhos. Uma, duas e tr\u00eas vezes, ou mais. Com o 25 de Abril houve uma mudan\u00e7a de rumo radical na pol\u00edtica ultramarina ( que n\u00e3o estava na mente do MFA).<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da divis\u00e3o f\u00edsica das fam\u00edlias est\u00e1 para al\u00e9m das revolu\u00e7\u00f5es e\u2026 por escrever&#8230;<\/p>\n<p>Ocorreu-me citar por instantes o c\u00e9lebre banquete de trovas que Cam\u00f5es ofereceu \u00e0 pequena nobreza da velha Punhete, na sede oriental do Estado da \u00cdndia, viajada de Punhete at\u00e9 Goa, com quatrocentos anos a separ\u00e1-los do velho Quanza.<\/p>\n<p>Ocorre-me ainda citar o soneto\u00a0 CCL atribu\u00eddo a Cam\u00f5es e do qual\u00a0 Faria e Sousa nos d\u00e1 conta ter sido sido dedicado a Nossa Senhora dos M\u00e1rtires. Esta devo\u00e7\u00e3o\u00a0 mariana de Const\u00e2ncia (ent\u00e3o Punhete)\u00a0 era muito famosa no tempo do poeta e do seu alegado desterro na nossa terra.<\/p>\n<p>Na obra de Fern\u00e3o \u00c1lvares do Oriente, Lusit\u00e2nia Transformada\u00a0 (haver\u00e1 um Fern\u00e3o \u00c1lvares de Punhete a estudar em Coimbra contempor\u00e2neo destes factos- h\u00e1 investigadores neste p\u00e9) publicada em 1608, parece haver eco da desta invoca\u00e7\u00e3o local mariana. O relato dos acontecimentos atinentes \u00e0 viagem do Oriente (do autor) preenche cerca de um ter\u00e7o de todo o universo narrativo do livro (novela). D\u00e1-se o caso da narrativa surgir precisamente no contexto de uma romaria dos pastores. Precisamente a um templo de Nossa Senhora.<\/p>\n<p>Um estudo apurado poder\u00e1 trazer-nos mais luz sobre o assunto. Entre as m\u00e1scaras dos pastores e o plano da hist\u00f3ria \u2013 fic\u00e7\u00e3o versus realidade \u2013 o poeta vai edificando a sua obra, num modelo perme\u00e1vel \u00e9 certo, mas onde se podem sempre encontrar dados biogr\u00e1ficos, geogr\u00e1ficos, hist\u00f3ricos. Esse empresa n\u00e3o \u00e9 de subestimar. \u00c9 um desafio aos eruditos ou na falta deles, \u00e9 uma aventura de n\u00f3s outros\u2026 Certa parece ser a identifica\u00e7\u00e3o da personagem Urbano com&#8230; Cam\u00f5es (estudos de Ant\u00f3nio Cirurgi\u00e3o).\u00a0 O cen\u00e1rio da ac\u00e7\u00e3o principal \u00e9 a zona de Const\u00e2ncia e do Nab\u00e3o.\u00a0 Estou mesmo a\u00a0 ver os \u00abpastores\u00bb regressados da \u00cdndia a cantar louvores \u00e0 Senhora e a oferecer p\u00e9s e m\u00e3os de cera, quais promessas da \u00abBoa Viagem\u00bb. E assim Cam\u00f5es ter\u00e1 perpetuado em versos elementos sobre estoutra devo\u00e7\u00e3o mariana (?). A estrela e o peda\u00e7o do mar ainda existentes no actual tempo, daquele outro suced\u00e2neo, inspiram-nos esta conjectura. Dos \u00abmonstros do mar\u00bb e de outros \u00abmuito maiores monstros\u00bb se confessou o poeta \u00e0 Senhora, pela Boas Viagens (?) \u00c9 ver o soneto. Se tanto vos causar interesse&#8230;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (Const\u00e2ncia)<\/p>\n<p>PS &#8211; tenho um v\u00eddeo com uma longa conversa com o meu pai sobre tudo isto mas o mesmo n\u00e3o foi utilizado para este texto. Baseie-me por ora no testemunho do sargento Caxias e em factos que me contaram e de que me recordo.<\/p>\n<p>Dedico este texto ao meu saudoso pai e ao Sargento Caxias e fam\u00edlia,\u00a0 bem como \u00e0 fam\u00edlia do Simpl\u00edcio.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/sob-a-proteccao-de-nossa-senhora-da-boa-viagem\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o raro a mem\u00f3ria dos homens comuns tamb\u00e9m \u00e9 feita de acontecimentos marcantes que fogem \u00e0s rotinas do quotidiano. 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