{"id":16364,"date":"2020-03-13T17:42:16","date_gmt":"2020-03-13T17:42:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=16364"},"modified":"2020-03-27T17:07:21","modified_gmt":"2020-03-27T17:07:21","slug":"manuela-poitout-patrimonio-desconhecido-no-entroncamento-ou-ao-qual-se-da-pouca-atencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuela-poitout-patrimonio-desconhecido-no-entroncamento-ou-ao-qual-se-da-pouca-atencao\/","title":{"rendered":"MANUELA POITOUT | Patrim\u00f3nio desconhecido no Entroncamento, ou ao qual se d\u00e1 pouca aten\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1174\" aria-describedby=\"caption-attachment-1174\" style=\"width: 271px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1174\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelaPoitout.jpg\" alt=\"\" width=\"271\" height=\"292\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1174\" class=\"wp-caption-text\">Manuela Poitout manuelapoitout@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Andando eu em digress\u00e3o de leitura pela imprensa local dos anos 80, fui cair em plena pol\u00e9mica da demoli\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o do mercado di\u00e1rio j\u00e1 inativo.<\/p>\n<p>Os argumentos a favor da demoli\u00e7\u00e3o eram de que tal contribuiria para o aformoseamento do largo Jos\u00e9 Duarte Coelho, tornando-o mais amplo e dando mais protagonismo ao edif\u00edcio da C\u00e2mara; e de que o edif\u00edcio estava a cair de podre, e nada se aproveitava nele.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era a primeira vez que pass\u00e1vamos por estas prova\u00e7\u00f5es patrimoniais, est\u00e3o lembrados do pr\u00e9dio Paris, mas antes desse houve uma outra hist\u00f3ria bem interessante.<\/p>\n<p>Vou transcrever um documento, uma folha ou boletim paroquial de 13 de mar\u00e7o de 1977, separando as duas partes que nele aparecem, ou seja uma carta da C\u00e2mara ao p\u00e1roco e a resposta do mesmo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-16366\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/painel-1.jpg\" alt=\"\" width=\"661\" height=\"378\" \/><\/p>\n<p>A carta \u00e9 de 25\/5\/1974, no pleno alvoro\u00e7o do muito recente 25 de abril, em que ainda mal refeita da mudan\u00e7a de regime pol\u00edtico, a C\u00e2mara resolveu logo arrega\u00e7ar as mangas e come\u00e7ar o trabalho pelo alargamento de uma rua. Por coincid\u00eancia, mesmo uma grande coincid\u00eancia, para alargar, tinha de se tirar a capela das Vaginhas do seu s\u00edtio.<\/p>\n<p>N\u00e3o interessava que se tratasse do nosso monumento mais antigo, que fosse quase o \u00fanico vest\u00edgio da antiga Vaginhas, que tivesse sido durante tr\u00eas s\u00e9culos local de refer\u00eancia religiosa para a comunidade, o que interessava era alargar a rua, e precisamente por aquele s\u00edtio, nem mais \u00e0 direita, nem mais \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-16367\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/placas-2.jpg\" alt=\"\" width=\"666\" height=\"375\" \/><\/p>\n<p>Argumento de peso, o mesmo de sempre: estava em tal ru\u00edna, que nela nada se poderia aproveitar.<\/p>\n<p>Mas vamos \u00e0 carta:<\/p>\n<p><em>Para conhecimento de V. Ex.\u00aa cumpre-me transcrever o parecer emitido pelos Servi\u00e7os T\u00e9cnicos desta C. M., com o qual se concorda: \u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cA capela est\u00e1 em muito mau estado, no respeitante \u00e0 cobertura. O seu valor arquitet\u00f3nico e a sua manuten\u00e7\u00e3o no local em que est\u00e1, ter\u00e1 que ser modificado para conveniente alargamento da rua, conforme projeto j\u00e1 aprovado. Conviria no entanto manter na zona uma capela com o mesmo nome, por motivos tradicionais.\u201d<\/em><\/p>\n<p>Em 1977, a capela estava no mesmo s\u00edtio, n\u00e3o havia ainda aquele m\u00e9todo de limpar o local numa noite, como aconteceu com o Chafariz do Mercado, e o p\u00e1roco de ent\u00e3o, padre Jo\u00e3o Gon\u00e7alves, entendeu dar explica\u00e7\u00f5es sobre o assunto aos seus paroquianos.<\/p>\n<p>Redige ent\u00e3o o boletim, documento muito simples constando de uma folha policopiada, com a carta de 1974 em primeiro lugar e a sua proposta para solu\u00e7\u00e3o do assunto, a seguir.<\/p>\n<p>O argumento de que daquela ru\u00edna nada se aproveitaria, deve ter sido t\u00e3o demolidor, que o p\u00e1roco cedeu \u00e0 ideia de fazer novo e diferente, influenciado talvez por umas modas que estavam a correr o pa\u00eds, de erigir novos templos com tra\u00e7as semelhantes, uns edif\u00edcios modernos que se come\u00e7aram a ver por todo o lado. Era a sua boa vontade de ajudar a resolver o assunto, que por sorte n\u00e3o se resolveu, ou por sorte se resolveu de outra maneira, mantendo a capela onde estava.<\/p>\n<p>Eis a segunda parte do boletim:<\/p>\n<p><em>Desde ent\u00e3o a Par\u00f3quia tem feito dilig\u00eancias para solucionar o problema. Neste momento, os t\u00e9cnicos dizem que nem as paredes se podem aproveitar, dado que, constru\u00eddas com adobes e sem funda\u00e7\u00f5es capazes, n\u00e3o suportariam as necess\u00e1rias obras de repara\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>O projeto para ali sugerido \u00e9 o que, dentro dum estilo atual, melhor parece respeitar as linhas do edif\u00edcio ali existente, contribuindo para embelezar o local onde teve o seu primeiro ber\u00e7o a povoa\u00e7\u00e3o que \u00e9 agora o Entroncamento. Para recordar o edif\u00edcio primitivo, sugerimos a coloca\u00e7\u00e3o dum painel de azulejo, que talvez pudesse ser oferta dos moradores da zona.<\/em><\/p>\n<p><em>O Edif\u00edcio dever\u00e1 ser recuado em rela\u00e7\u00e3o ao atual, criando um maior espa\u00e7o para o Largo de S. Jo\u00e3o. Quanto ao resto, ter\u00e1 as mesmas dimens\u00f5es do atual e ficar\u00e1 preparado para responder a algumas necessidades prementes do nosso meio e da par\u00f3quia.<\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-16368\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/placas-1.jpg\" alt=\"\" width=\"666\" height=\"375\" \/><\/p>\n<p><em>Podem pois parar as campanhas e os boatos que em nada servem os interesses da popula\u00e7\u00e3o mas visam somente alimentar o esp\u00edrito mesquinho e a intriga. A obra precisa da boa vontade de todos, pois \u00e9 do interesse de todos.<\/em><\/p>\n<p>A obra n\u00e3o era do interesse de todos, e por isso n\u00e3o teve a boa vontade de todos, e n\u00e3o se fez, mas nem sempre estas conjuga\u00e7\u00f5es resultam. A capela l\u00e1 continua, sinal de que suportou as obras que depois foram feitas.<\/p>\n<p>No caso do mercado municipal houve, na verdade, uma oposi\u00e7\u00e3o forte \u00e0 sua manuten\u00e7\u00e3o, mas mais uma vez as decis\u00f5es foram favor\u00e1veis (o voto de qualidade do presidente Jos\u00e9 Cunha).<\/p>\n<p>Ficou ao cargo do Gabinete de Apoio T\u00e9cnico (GAT) a elabora\u00e7\u00e3o do projeto, aproveitando o mais poss\u00edvel a estrutura existente.<\/p>\n<p>Naquele mar de escombros, que se dizia ser o que restava do mercado, brilhou uma centelha de algo que era valioso, que valia a pena manter.<\/p>\n<p>Transcrevo do projeto:<\/p>\n<p><em>Disp\u00f5e a C\u00e2mara do Entroncamento do Entroncamento de um edif\u00edcio onde at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo funcionou o mercado municipal e se localiza em pleno centro da vila, frente aos Pa\u00e7os do Concelho, no meio de um amplo espa\u00e7o com fortes tradi\u00e7\u00f5es de vida urbana.<\/em><\/p>\n<p><em>O edif\u00edcio de planta retangular data dos princ\u00edpios deste s\u00e9culo e \u00e9 constitu\u00eddo por uma estrutura de ferro onde assenta a cobertura em fibrocimento e uma envolvente em alvenaria. <strong>Esta estrutura de ferro, caracter\u00edstica dos finais do s\u00e9culo XIX, cujos exemplares v\u00e3o rareando cada vez mais no nosso Pa\u00eds e de que \u00e9 exemplo \u00fanico no concelho do Entroncamento<\/strong>, encontra-se em razo\u00e1vel estado de conserva\u00e7\u00e3o, raz\u00f5es pelas quais encarou a C\u00e2mara a adapta\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio a novas fun\u00e7\u00f5es<\/em>. (O acentuado a negrito \u00e9 meu).<\/p>\n<p>Confesso: sempre que assisto a qualquer evento no Centro Cultural, n\u00e3o dou muito por aquela estrutura met\u00e1lica, de tal modo ela est\u00e1 integrada no espa\u00e7o, mas sei que ela est\u00e1 l\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que \u00e9 uma raridade a n\u00edvel concelhio, e vai sendo a n\u00edvel nacional, uma estrutura com chancela de qualidade, executada pela Construtora Moderna de Pedrou\u00e7os, \u00e0 qual se deve a constru\u00e7\u00e3o do Hotel Aviz, e no cap\u00edtulo de mercados, o de Almeirim e a constru\u00e7\u00e3o met\u00e1lica do do Barreiro.<\/p>\n<p>A mensagem que quero passar, com este exemplo, para al\u00e9m do valor de determinados detalhes arquitet\u00f3nicos, neste caso a estrutura met\u00e1lica, \u00e9 que tamb\u00e9m acho que a est\u00e9tica e a beleza s\u00e3o importantes nos espa\u00e7os urbanos, mas n\u00e3o \u00e0 custa da destrui\u00e7\u00e3o de mem\u00f3rias do passado, que no caso do Entroncamento s\u00e3o poucas.<\/p>\n<p>Transcrevo da <em>Carta Europeia do Patrim\u00f3nio Arquitet\u00f3nico<\/em> uma parte respeitante ao valor educativo das constru\u00e7\u00f5es de \u00e9pocas passadas:<\/p>\n<p><em>O patrim\u00f3nio arquitet\u00f3nico tem um valor educativo determinante. Ele oferece um manancial privilegiado de explica\u00e7\u00f5es e de compara\u00e7\u00f5es do sentido das formas e uma fonte de exemplos das suas utiliza\u00e7\u00f5es. Ora, a imagem e o contacto direto adquirem de novo uma import\u00e2ncia decisiva na forma\u00e7\u00e3o dos homens. Importa por isso conservar vivos os testemunhos de todas as \u00e9pocas e de todas as experi\u00eancias. A sobreviv\u00eancia destes testemunhos n\u00e3o estar\u00e1 assegurada se a necessidade da sua prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o for compreendida pela grande maioria das pessoas e especialmente pelas gera\u00e7\u00f5es mais jovens que ter\u00e3o amanh\u00e3 responsabilidade sobre eles.<\/em><\/p>\n<p>Quanto ao valor educativo do patrim\u00f3nio de que se trata aqui, o antigo mercado municipal, recordo o que a equipa do GAT escreveu a seu respeito: <strong>Que ele se localiza num amplo espa\u00e7o com fortes tradi\u00e7\u00f5es de vida urbana<\/strong>.<\/p>\n<p>Assim \u00e9, na verdade. Ali foi o pulm\u00e3o econ\u00f3mico do Entroncamento, o s\u00edtio de todas as feiras e mercados, de gados, de cereais, mercado di\u00e1rio, feiras mensais, feira anual de abril. Ligar o mercado ao seu tempo \u00e9 conhecer uma boa parte da hist\u00f3ria do Entroncamento.<\/p>\n<p>E recordo mais um detalhe patrimonial, sobre o qual escrevi em tempos, um painel figurativo e placas cer\u00e2micas que decoram o bar da esta\u00e7\u00e3o do Entroncamento, o primeiro com a locomotiva D. Lu\u00eds, e as placas com desenhos geom\u00e9tricos de quadrados e c\u00edrculos rematados por cercaduras, tirando partido da textura dos materiais e das cores, no caso das placas os azuis e os amarelos.<\/p>\n<p>Foi seu autor Lu\u00eds Ferreira da Silva, um dos ceramistas de maior relevo do s\u00e9culo XX e in\u00edcio do s\u00e9culo XXI. Nasceu em 1928 e morreu em 2016.<\/p>\n<p>Inovador, criativo, produziu bastantes pe\u00e7as, entre elas as que se encontram no Entroncamento, seguramente as placas, provavelmente o painel com a locomotiva.<\/p>\n<p>Foi um trabalho executado pela SECLA, a f\u00e1brica das Caldas da Rainha cujo prest\u00edgio chegou at\u00e9 aos Estados Unidos, e para o qual muito contribuiu Ferreira da Silva, que ali teve durante anos o seu ateli\u00ea.<\/p>\n<p>As pe\u00e7as da sua autoria foram comercializadas nos Estados Unidos, e estiveram l\u00e1 em exposi\u00e7\u00e3o, na sede da Architectural League of New York, na 5.\u00aa Avenida. Um dos maiores colecionadores privados dessas pe\u00e7as foi Ingvar Kamprad, fundador da cadeia IKEA.<\/p>\n<p>Saibamos valorizar o nosso patrim\u00f3nio. O passado faz parte do futuro.<\/p>\n<p>Manuela Poitout<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuela-poitout-patrimonio-desconhecido-no-entroncamento-ou-ao-qual-se-da-pouca-atencao\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andando eu em digress\u00e3o de leitura pela imprensa local dos anos 80, fui cair em plena pol\u00e9mica da demoli\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o do mercado di\u00e1rio j\u00e1 inativo. 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