{"id":16301,"date":"2020-02-13T16:50:33","date_gmt":"2020-02-13T16:50:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=16301"},"modified":"2020-02-13T16:50:33","modified_gmt":"2020-02-13T16:50:33","slug":"carlos-ferreira-o-iva-das-touradas-para-autarcas-distraidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/carlos-ferreira-o-iva-das-touradas-para-autarcas-distraidos\/","title":{"rendered":"CARLOS FERREIRA | O IVA das touradas para autarcas distra\u00eddos"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_16302\" aria-describedby=\"caption-attachment-16302\" style=\"width: 294px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-16302\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Carlos-Ferreira.jpg\" alt=\"\" width=\"294\" height=\"241\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-16302\" class=\"wp-caption-text\">Carlos Ferreira carlosferreira@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>A prop\u00f3sito do protesto dos autarcas pela subida do IVA das touradas para 23%, recupero um texto que h\u00e1 umas semanas publiquei no meu blog e que me parece demonstrativo da necessidade de uma abordagem s\u00e9ria e coerente ao tema, neste caso concreto pelos edis de concelhos com interesses na festa e com tradi\u00e7\u00f5es taurinas. Este artigo foi escrito, partindo do pressuposto, que n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 de lei, mas tamb\u00e9m de bom senso, que as Entidades Regionais de Turismo, articulem a sua atua\u00e7\u00e3o com as autarquias. Assim o foi, pelo menos, aquando da sua funda\u00e7\u00e3o. Segue o texto.<\/p>\n<p>\u201c<em>Ribatejo. Tanto para viver. Muito para contar. Descubra o Ribatejo<\/em>\u201d \u00e9 uma brochura editada pela Entidade Regional de Turismo Alentejo e Ribatejo que, atrav\u00e9s de um grafismo exemplar, procura \u201cvender\u201d os concelhos da lez\u00edria a turistas.<\/p>\n<p>Quando a folheei fiquei t\u00e3o incr\u00e9dulo com o que me pareceu ter lido, ou melhor, n\u00e3o ter lido, que redobrei a aten\u00e7\u00e3o numa segunda e terceira abordagem. Na verdade, a equipa que a elaborou conseguiu, em 20 p\u00e1ginas sobre os concelhos da lez\u00edria do Tejo, n\u00e3o fazer uma refer\u00eancia direta \u00e0s touradas.<\/p>\n<p>A brochura organiza-se em torno do conceito \u201cviva\u201d para permitir um duplo sentido de leitura: o de oferecer ao visitante experi\u00eancias inolvid\u00e1veis e o de sublimar as virtudes da regi\u00e3o, permitindo concluir que \u00e9 sua excel\u00eancia que propiciar\u00e1 inesquec\u00edveis momentos aos visitantes.<\/p>\n<p>Sucedem-se, por esta ordem: Viva a Hist\u00f3ria, Viva o Patrim\u00f3nio, Viva a Lez\u00edria, Viva a Paisagem, Viva a Tradi\u00e7\u00e3o, Viva a Gastronomia, Viva o Vinho do Ribatejo e Viva a Festa.<\/p>\n<p>Sobre os crit\u00e9rios que levaram \u00e0 sele\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados nada h\u00e1 a dizer. O seu grau de subjetividade tornaria presun\u00e7oso considerar que uns s\u00e3o melhores que outros. E a generalidade dos escolhidos, com toda a certeza, gera unanimidade.<\/p>\n<p>Algo me parece, no entanto, dif\u00edcil de entender. Como \u00e9 poss\u00edvel mostrar o Ribatejo sem referenciar a lide do touro na pra\u00e7a? Como se pretende vender uma regi\u00e3o excluindo, ou procurando esconder, um dos aspetos essenciais da sua cultura e da sua economia?<\/p>\n<p>No Viva a Lez\u00edria pode ler-se:<\/p>\n<p><em>\u201cToiro Bravo<\/em><\/p>\n<p><em>O toiro bravo ou toiro de lide, \u00e9 um dos s\u00edmbolos do Ribatejo e uma das 50 ra\u00e7as aut\u00f3ctones portuguesas. Criado em liberdade nas grandes extens\u00f5es de montado e lez\u00edria, o animal \u00e9 reconhecido pela sua natureza selvagem e por ser um dos elementos fundamentais da pr\u00e1tica da tauromaquia.<\/em><\/p>\n<p><em>Descendente de animais primitivos de grande estatura e agressividade, preserva at\u00e9 hoje a figura encorpada e a bravura inata. Ao contr\u00e1rio de outros animais quando invadem o seu espa\u00e7o, o toiro tem tend\u00eancia a atacar, o que exige ao campino grande coragem e sentido desafiador.<\/em><\/p>\n<p><em>Para conhecer melhor o toiro bravo e entender por que os ribatejanos respeitam tanto esta ra\u00e7a visite uma das ganadarias da regi\u00e3o<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Este campino que aqui se descreve \u00e9 o de Ant\u00f3nio Ferro e o da propaganda do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o e Cultura Popular, nos primeiros anos do Salazarismo. Nem ele anda, assim, pelos campos a desafiar os animais, nem a ra\u00e7a (bravura) do toiro, que \u00e9 a raz\u00e3o da sua cria\u00e7\u00e3o, \u00e9 apreciada por turistas no pasto. S\u00f3 na pra\u00e7a, quando \u00e9 corrido.<\/p>\n<p>No &#8220;<em>Viva a Tradi\u00e7\u00e3o&#8221;<\/em>, que tem como subt\u00edtulo\u00a0<em>A festa brava e a emo\u00e7\u00e3o das gentes<\/em>, l\u00ea-se que \u201c<em>\u00c0 braveza do toiro, junta-se a braveza das gentes que ao longo do tempo foram colhendo os benef\u00edcios daquela terra imensa\u2026<\/em>\u201d e fica-se sem perceber a raz\u00e3o do subt\u00edtulo.<\/p>\n<p>No \u201c<em>Viva a Festa A m\u00fasica, a tradi\u00e7\u00e3o e os sabores<\/em>\u201d refere-se \u00e0 \u201c<em>Festa Brava como uma das muitas celebra\u00e7\u00f5es que pode viver no Ribatejo. A agenda anual \u00e9 intensa e pontuada tanto por festas de tradi\u00e7\u00e3o antiga como por eventos recentes e inovadores. No Ribatejo celebra-se o cavalo e o toiro mas tamb\u00e9m a m\u00fasica, a gastronomia<\/em>\u00a0\u2026.\u201d.<\/p>\n<p>Quando passamos a uma agenda mensal, verificamos que, por exemplo, na listagem das atividades da Feira Nacional de Agricultura \/ Feira do Ribatejo, em Santar\u00e9m, n\u00e3o consta uma \u00fanica tourada. Nem em Almeirim, nem na Chamusca, nem em Benavente, nem no Cartaxo, nem em Coruche, nem em Salvaterra de Magos ou na Azambuja, nem em lado nenhum. Eclipsaram-se. Deixaram de se realizar touradas no Ribatejo.<\/p>\n<p>Quando um respons\u00e1vel p\u00fablico, eleito ou nomeado, n\u00e3o compreende que a cultura genu\u00edna est\u00e1 para al\u00e9m do politicamente correto, n\u00e3o presta um bom servi\u00e7o \u00e0 comunidade que \u00e9 suposto servir. Quando numa regi\u00e3o profundamente rural se omite a ancestral rela\u00e7\u00e3o entre o homem e o animal, assente no trabalho, no equil\u00edbrio de ecossistemas, na escatologia, nas pr\u00e1ticas medicinais, nas cren\u00e7as, na alimenta\u00e7\u00e3o, na inspira\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e art\u00edstica, na companhia, no vestu\u00e1rio, na afirma\u00e7\u00e3o de identidades individuais e coletivas, na consolida\u00e7\u00e3o de grupos e de solidariedades, etc., para n\u00e3o desagradar a quem apenas conhece dos animais a companhia e a fidelidade, nada est\u00e1 a fazer para o desenvolvimento sustentado dessa regi\u00e3o e para a preserva\u00e7\u00e3o do seu equil\u00edbrio\u00a0\u00a0ecol\u00f3gico. Sem argumentos para atrair visitantes em massa, julgamos caber ao turismo o papel de potenciar economicamente um ecossistema genu\u00edno, vender o que resulta do equil\u00edbrio entre o homem e a natureza, na sua tradi\u00e7\u00e3o e na sua modernidade. Isto quer dizer: na sua cultura.<\/p>\n<p>Omitir uma originalidade diferenciadora para mostrar e evidenciar produtos que s\u00e3o iguais e melhores em muitos outros locais, parece-nos pouco inteligente para atrair turistas, para al\u00e9m de pouco respeitador dos aut\u00f3ctones.<\/p>\n<p>Que isto venha de profissionais do turismo possuidores de grandes saberes t\u00e9cnicos, ainda pode ser compreens\u00edvel, embora pouco desej\u00e1vel e at\u00e9 deplor\u00e1vel, o que n\u00e3o concebo \u00e9 atitude, ou a falta dela, dos autarcas ribatejanos perante t\u00e3o abstrusa op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Remato referindo o recente estudo do Polit\u00e9cnico de Santar\u00e9m, mostrando que as tr\u00eas corridas de toiros realizadas por altura da Feira do Ribatejo na capital de distrito (as tais que n\u00e3o constam da brochura) movimentaram mais de um milh\u00e3o de euros e recomendo a sua leitura aos autores da brochura e, j\u00e1 agora, aos autarcas mais distra\u00eddos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/carlos-ferreira-o-iva-das-touradas-para-autarcas-distraidos\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A prop\u00f3sito do protesto dos autarcas pela subida do IVA das touradas para 23%, recupero um texto que h\u00e1 umas semanas publiquei no meu blog e que me parece demonstrativo da necessidade de uma abordagem s\u00e9ria e coerente ao tema, neste caso concreto pelos edis de concelhos com interesses na festa e com tradi\u00e7\u00f5es taurinas. 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