{"id":16164,"date":"2020-02-10T15:29:10","date_gmt":"2020-02-10T15:29:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=16164"},"modified":"2020-02-10T15:29:10","modified_gmt":"2020-02-10T15:29:10","slug":"manuel-fernandes-vicente-os-ritos-e-as-tristes-ilusoes-do-medio-tejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-os-ritos-e-as-tristes-ilusoes-do-medio-tejo\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Os ritos e as tristes ilus\u00f5es do M\u00e9dio Tejo"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Os \u00faltimos dias foram f\u00e9rteis na regi\u00e3o a dar mostras sobre a ess\u00eancia da natureza da pol\u00edtica \u00e0 portuguesa, da hipocrisia das interven\u00e7\u00f5es que se fazem no seu are\u00f3pago nacional e da raz\u00e3o por que os cidad\u00e3os eleitores se v\u00e3o alheando cada vez mais dos atos de consulta p\u00fablica da sua vontade, considerando-os cada vez mais c\u00ednicos e sobretudo ineficazes. Quem pode, em Lisboa, alheia-se sem remorso das dores do interior do pa\u00eds; e no Interior, os seus representantes democr\u00e1ticos pouco mais podem fazer que reunir, sensibilizar, contestar, apelar e bater-se por aquilo em que acreditam, que pode trazer mais-valias \u00e0 regi\u00e3o, mas que se vai gorar na indiferen\u00e7a de quem em Lisboa pode.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do m\u00eas, com o Centro Cultural de Vila Nova da Barquinha cheio, muitos autarcas, investidores, t\u00e9cnicos, membros das for\u00e7as armadas e cidad\u00e3os mais empenhados debateram a possibilidade de ampliar a miss\u00e3o da antiga base a\u00e9rea de Tancos, tornando-a capaz de, com algumas interven\u00e7\u00f5es, servir para fun\u00e7\u00f5es civis e voos tur\u00edsticos e comerciais. O M\u00e9dio Tejo e o pa\u00eds beneficiariam bastante com essa remodela\u00e7\u00e3o, e argumentos n\u00e3o faltaram naquela assembleia regional, com algumas vozes conhecedoras e autorizadas. Falou-se da centralidade de Tancos, da sua apet\u00eancia para acolher voos <em>low cost<\/em>, da aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0s autoestradas A 1, A 13 e A 23, a F\u00e1tima (com tr\u00eas milh\u00f5es de visitantes que chegam a Portugal por via a\u00e9rea e \u201co \u00fanico destino tur\u00edstico da Europa que cresce a dois d\u00edgitos\u201d) e ao n\u00f3 ferrovi\u00e1rio do Entroncamento, da sua complementaridade ao aeroporto da capital e de que seria importante se houvesse uma estrat\u00e9gia nacional na \u00e1rea do turismo. \u00c9 preciso criar novos aeroportos, pois a avia\u00e7\u00e3o est\u00e1 a crescer a 6,2 por cento em cada ano, e Tancos tem \u201ctudo para dar certo\u201d. \u00c9 claro que em t\u00e3o ilustre assembleia n\u00e3o esteve presente qualquer oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ideia. Mas a convic\u00e7\u00e3o que fica mesmo \u00e9 a de que o encontro n\u00e3o passou de mais uma liturgia ritual. Mais uma. Como se, por pudor, se tivesse de cumprir periodicamente este rito sobre as potencialidades e virtudes virgens do aeroporto de Tancos. Os argumentos podem multiplicar-se (o aeroporto Humberto Delgado j\u00e1 n\u00e3o suportar\u00e1 o crescimento de voos que tem tido por muito tempo), mas falta entusiasmo a estas assembleias, pois ningu\u00e9m ali acredita que o deus algarvio das finan\u00e7as nacionais venha a dispensar um minuto ou um c\u00eantimo a t\u00e3o nobre causa. Tancos tem tudo para dar certo, mas nunca passar\u00e1 dessa causa nobre.<\/p>\n<p>Outro ritual regional teve a sua celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica uns dias depois junto \u00e0 ponte sobre o Tejo na Chamusca \u00a0\u0336\u00a0 e a consagra\u00e7\u00e3o, que esteve a cargo da deputada do Bloco de Esquerda Fab\u00edola Cardoso, foi sobre a mesma. Fab\u00edola, jovem, idealista, de esquerda, e sobretudo crente, deixou-se embarcar na ilus\u00e3o das apar\u00eancias. Em abril de 2018, no mesmo hemiciclo de bailados marialvas e insultos entusiastas em que agora se senta, aprovara-se por unanimidade uma resolu\u00e7\u00e3o que recomendava ao governo a constru\u00e7\u00e3o de uma nova ponte sobre o Tejo entre a Chamusca e a Goleg\u00e3, dado o \u00f3bvio estrangulamento da atual travessia, onde verdadeiras odisseias ocorrem sempre que dois cami\u00f5es se encontram a meio do trajeto. Fab\u00edola tem todas as raz\u00f5es, exceto a de n\u00e3o ter entendido que em pol\u00edtica h\u00e1 um abismo na ponte que liga a margem da recomenda\u00e7\u00e3o \u00e0 outra, que a configurar\u00e1 em lei. E caiu dele abaixo, porque os vira-casacas da Assembleia da Rep\u00fablica voltaram a fazer aquilo que melhor sabem \u00a0\u0336 \u00a0mudar de opini\u00e3o ao sabor das conveni\u00eancias, dos interesses e da indec\u00eancia. A centen\u00e1ria ponte de ferro, conclu\u00edda em 1909 por especial incumb\u00eancia de Jo\u00e3o Joaquim Isidro dos Reis, ir\u00e1 continuar a servir para lubrificar a paci\u00eancia dos seus utentes com esperas longas e alguns epis\u00f3dios demasiado picarescos para um pa\u00eds t\u00e3o civilizado.<\/p>\n<p>De resto, no M\u00e9dio Tejo, h\u00e1 muitos outros rituais sociopol\u00edticos que v\u00e3o decorando as esta\u00e7\u00f5es do ano e a triste realidade do dia a dia e das legislaturas, como o cantar dos Reis e a apanha da espiga. Recordo-me de um que ocorria como um p\u00eandulo bissexto e sempre que se aproximavam os votos e as elei\u00e7\u00f5es legislativas. A regulariza\u00e7\u00e3o do Tejo, com uma vers\u00e3o de maior categoria reivindicativa que era a da regulariza\u00e7\u00e3o e navegabilidade do rio, era uma delas. Esmoreceu nos \u00faltimos anos face \u00e0 lament\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o a que se deixou chegar o caudal do rio, que j\u00e1 n\u00e3o leva \u00e1gua nem traz votos. Outro culto ritual, reivindicativo e sem santo que j\u00e1 come\u00e7a a ter cabelos brancos \u00e9 o das manifesta\u00e7\u00f5es em torno do pagamento de portagens na A 23\u00a0 \u0336 \u00a0outro privil\u00e9gio com que os neoliberais dos \u00faltimos governos contemplaram a regi\u00e3o, e que resulta tamb\u00e9m de o M\u00e9dio Tejo ser mais estat\u00edstica que alma e <em>ethos<\/em>.<\/p>\n<p>Gradualmente, esta identidade, que nem sequer est\u00e1 em crise porque tamb\u00e9m nunca a teve, a que chamaram M\u00e9dio Tejo, com esta falta de investimento p\u00fablico gritante (a recente aposta da Medway no Entroncamento foi obviamente privada), vamo-nos tornando cada vez mais Interior, que \u00e9 tamb\u00e9m um estado de esp\u00edrito induzido. E o que \u00e9 mais ir\u00f3nico e hip\u00f3crita\u00a0 \u0336 \u00a0quando o investimento p\u00fablico mais se concentra nos focos urbanos mais desenvolvidos e o Interior vai desfalecendo e despovoando\u00a0 \u0336 , \u00e9 ver agora o governo criar o autoproclamado Minist\u00e9rio da Coes\u00e3o Territorial, enquanto mant\u00e9m alegremente os privil\u00e9gios de uns e a condena\u00e7\u00e3o a uma morte lenta dos restantes. \u00c9 de g\u00e9nios. Mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso ter lata!<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-os-ritos-e-as-tristes-ilusoes-do-medio-tejo\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os \u00faltimos dias foram f\u00e9rteis na regi\u00e3o a dar mostras sobre a ess\u00eancia da natureza da pol\u00edtica \u00e0 portuguesa, da hipocrisia das interven\u00e7\u00f5es que se fazem no seu are\u00f3pago nacional e da raz\u00e3o por que os cidad\u00e3os eleitores se v\u00e3o alheando cada vez mais dos atos de consulta p\u00fablica da sua vontade, considerando-os cada vez [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-16164","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16164","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16164"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16164\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16164"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16164"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16164"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}