{"id":15518,"date":"2020-01-21T11:19:31","date_gmt":"2020-01-21T11:19:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=15518"},"modified":"2020-01-21T11:19:31","modified_gmt":"2020-01-21T11:19:31","slug":"manuel-fernandes-vicente-quando-ha-100-anos-os-silos-de-trigo-e-um-comboio-mineiro-foram-cenarios-possiveis-para-o-entroncamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-quando-ha-100-anos-os-silos-de-trigo-e-um-comboio-mineiro-foram-cenarios-possiveis-para-o-entroncamento\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Quando h\u00e1 100 anos os silos de trigo e um comboio mineiro foram cen\u00e1rios poss\u00edveis para o Entroncamento"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Este in\u00edcio de d\u00e9cada a que podemos chamar de algum modo como os anos 20 do s\u00e9culo XXI \u00e9 uma oportunidade para, no Entroncamento, olharmos com alguma curiosidade pelo retrovisor do tempo, recordando o que esteve previsto construir no nosso burgo nos mesmos anos 20 do s\u00e9culo passado. Eram projetos de grande f\u00f4lego e bitola larga na vis\u00e3o dos empreendedores nacionais e internacionais, e mesmo da pr\u00f3pria empresa dos caminhos de ferro. E resultavam de uma perspetiva de estrat\u00e9gia de desenvolvimento integrado do pa\u00eds, em que os caminhos de ferro tinham <em>elan<\/em> e eram um dos pilares essenciais, e cujo impacto na ent\u00e3o aldeia ferrovi\u00e1ria seria naturalmente enorme.<\/p>\n<p>O primeiro grande investimento, estudado e proposto logo no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1920 pela CP \u00e0 Dire\u00e7\u00e3o Geral dos Caminhos de Ferro, foi a constru\u00e7\u00e3o de uma via f\u00e9rrea do Entroncamento at\u00e9 \u00e0 Serra da Mendiga \u00a0\u0336 e eventual prolongamento de mais alguns quil\u00f3metros at\u00e9 se ligar com a Linha do Oeste. A pertin\u00eancia da linha, que teria a sua passagem prevista por Torres Novas, Gouxaria, Alcanena, Amiais de Cima, Alcanede, Alqueid\u00e3o e Rio Maior, ligava-se sobretudo ao escoamento dos carv\u00f5es do Couto Mineiro do Lena at\u00e9 ao Entroncamento, cuja localiza\u00e7\u00e3o beneficiada na Linha do Norte e do Leste permitiria tamb\u00e9m o transporte ferrovi\u00e1rio do carv\u00e3o at\u00e9 \u00e0s Beiras. Era uma liga\u00e7\u00e3o, que possibilitaria escala e que tornaria mais barata a chegada do combust\u00edvel f\u00f3ssil aos mais diversos pontos de consumo dispersos pelo pa\u00eds. A empresa mineira concession\u00e1ria The Match and Tobacco Co., que tinha tamb\u00e9m outros neg\u00f3cios e estava cotada em bolsa, disponibilizou-se a construir alguns quil\u00f3metros de linha, ficando os 50 km, que atravessariam a Serra de Candeeiros e o Planalto de Santo Ant\u00f3nio, por conta da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, ou seja, do Estado. Al\u00e9m do seu papel ativo na distribui\u00e7\u00e3o e entregas do carv\u00e3o e no acesso a novos mercados, a CP, que tamb\u00e9m tinha cr\u00e9ditos na Match, era ela pr\u00f3pria um cliente diretamente interessado para as suas primitivas locomotivas a carv\u00e3o e vapor que a toda a hora percorriam os milhares que quil\u00f3metros do mapa ferrovi\u00e1rio portugu\u00eas. Mas o neg\u00f3cio correu bastante mal. O carv\u00e3o das minas da Bezerra j\u00e1 estava pr\u00f3ximo do esgotamento, e o que se produzia em maior quantidade no couto mineiro n\u00e3o tinha qualidade, gorando-se a santa alian\u00e7a entre a ferrovia e a extra\u00e7\u00e3o mineira, que sempre esteve na base do desenvolvimento industrial cl\u00e1ssico. A Match come\u00e7ou tamb\u00e9m com problemas financeiros (falira a sua principal acionista, a Sociedade Torelades), a CP idem, as suas rela\u00e7\u00f5es tornaram-se cada vez mais dif\u00edceis, e a linha mineira para o Entroncamento, que tamb\u00e9m chegou a prever o transporte de passageiros das povoa\u00e7\u00f5es interm\u00e9dias, nunca chegaria sequer a assentar os primeiros carris. Igualmente falecidas no papel nessa altura ficaram as constru\u00e7\u00f5es das ferrovias que ligavam a aldeia do Entroncamento \u00e0 Serra da Estrela (em Gouveia), que j\u00e1 tinha o aval das entidades militares, e a aventura prototur\u00edstica que chegaria \u00e0 Nazar\u00e9, e outra, at\u00e9 Montargil e Mora.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois da linha mineira, uma outra vis\u00e3o iluminou o c\u00e9u virtual do Entroncamento, e, como a anterior, n\u00e3o deixou mais que uma sombra, foi apenas uma ideia respeit\u00e1vel e l\u00f3gica, mas sem estudos nem projetos envolvidos. A ideia extraia uma consequ\u00eancia valiosa da situa\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria do lugar do Entroncamento. Surgiu logo em 1929, nos alvores da Campanha do Trigo\u00a0\u00a0 \u0336\u00a0 as sinergias entre os silos de cereais e os caminhos de ferro eram \u00f3bvias e irresist\u00edveis\u00a0 \u0336\u00a0 e o plano pr\u00e9vio era, tirando partido da sua centralidade e de os seus \u201cbra\u00e7os\u201d de ferro se poderem alongar at\u00e9 muitas regi\u00f5es do pa\u00eds, o Entroncamento ser um <em>player<\/em> de primeira grandeza nessa campanha que procurou e estimulou a produ\u00e7\u00e3o cereal\u00edfera em Portugal, sobretudo no Alentejo e no Ribatejo. Seguindo este desiderato a esta\u00e7\u00e3o do Entroncamento, por ser um destacado n\u00f3 ferrovi\u00e1rio, ficaria fornecida com um dos tr\u00eas silos centrais, os mais importantes do pa\u00eds, tal como a povoa\u00e7\u00e3o de Casa Branca, no Alentejo, e Leix\u00f5es, no Norte, e um not\u00e1vel <em>cluster<\/em> dos cereais que este equipamento potenciaria ao burgo a jusante deste neg\u00f3cio. Seriam grandes silos para garantir a guarda e a conserva\u00e7\u00e3o de grandes quantidades de cereais recebidas e para expedir. E reequilibrariam os desequil\u00edbrios entre regi\u00f5es com excesso de produ\u00e7\u00e3o de cereais e as que deles tinham car\u00eancias. Esta ideia seria estudada e defendida ao longo da d\u00e9cada de 1930 pelo professor do Instituto Superior de Agronomia e engenheiro agr\u00f3nomo Ruy Mayer, respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o, a pedido da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Produtores de Trigo, de um relat\u00f3rio sobre o estabelecimento e localiza\u00e7\u00e3o de silos de trigo no nosso pa\u00eds, tendo em conta os locais de produ\u00e7\u00e3o, de moagem e de consumo.<\/p>\n<p>Tal como no caso das ind\u00fastrias poss\u00edveis a partir do acesso facilitado ao carv\u00e3o (que o futuro se encarregaria de tornar como mat\u00e9ria-prima quase excomungada e a evitar para evitar o apocalipse), tamb\u00e9m os silos ca\u00edram antes de se erguer. A I Guerra Mundial viera gerar as primeiras unidades do complexo militar-ferrovi\u00e1rio do Entroncamento a partir da sua natural aptid\u00e3o log\u00edstica. E com os silos procuravam-se as mesmas vantagens competitivas. \u00c9 um pouco especulativo, sim, mas \u00e9 irresist\u00edvel pensarmos nos v\u00e1rios cen\u00e1rios que se poderiam criar para o Entroncamento com estes investimentos h\u00e1 cerca de um s\u00e9culo. Melhor ou pior, a cidade seria muito diferente. Mas, nem estes investimentos se realizaram, nem outros. E ap\u00f3s o final do Estado Novo, por ironia ou n\u00e3o, os caminhos de ferro entraram em acelerado decl\u00ednio, optando os governos da democracia pelas autoestradas, o emblema mais vis\u00edvel do novo-riquismo com o dinheiro <em>made in<\/em> Europa. Ainda este domingo, em entrevista dada ao di\u00e1rio <em>P\u00fablico<\/em>, a ge\u00f3grafa Teresa S\u00e1 Marques, a coordenadora do Plano Nacional de Pol\u00edticas de Ordenamento do Territ\u00f3rio, considerou um erro do passado e o esquecimento da ferrovia. \u201c\u00c9 preocupante como n\u00e3o fomos suficientemente inteligentes para perceber que a ferrovia era o meio de transporte sustent\u00e1vel, determinante, no qual dev\u00edamos ter apostado, sobretudo nas zonas de grande fluxo populacional\u201d, comentou a ge\u00f3grafa da Universidade do Porto. Sens\u00edvel como o cabelo de um higr\u00f3metro \u00e0 realidade da ferrovia, \u00e9 not\u00f3rio o que o Entroncamento perdeu imenso nas \u00faltimas d\u00e9cadas com a aposta rodovi\u00e1ria dos nossos governos, t\u00e3o not\u00f3ria e desproporcionada que levou um ministro das Obras P\u00fablicas, Transportes e Comunica\u00e7\u00f5es, Ferreira do Amaral, a comentar sem remorso que os editores de mapas das estradas do pa\u00eds n\u00e3o tinham pedalada para o acompanhar na sementeira de asfalto com que o contemplou na sua saga empreendedora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-quando-ha-100-anos-os-silos-de-trigo-e-um-comboio-mineiro-foram-cenarios-possiveis-para-o-entroncamento\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este in\u00edcio de d\u00e9cada a que podemos chamar de algum modo como os anos 20 do s\u00e9culo XXI \u00e9 uma oportunidade para, no Entroncamento, olharmos com alguma curiosidade pelo retrovisor do tempo, recordando o que esteve previsto construir no nosso burgo nos mesmos anos 20 do s\u00e9culo passado. 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