{"id":14157,"date":"2019-12-07T08:42:10","date_gmt":"2019-12-07T08:42:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=14157"},"modified":"2019-12-07T08:42:10","modified_gmt":"2019-12-07T08:42:10","slug":"vila-de-constancia-o-apoio-a-dom-miguel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/vila-de-constancia-o-apoio-a-dom-miguel\/","title":{"rendered":"Vila de Const\u00e2ncia: o apoio a Dom Miguel"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria oficial das revolu\u00e7\u00f5es escrita no fervor dos acontecimentos \u00e9 a hist\u00f3ria dos vencedores contra os vencidos. E s\u00f3 o tempo vai revelando, com a dist\u00e2ncia necess\u00e1ria, a verdade objectiva, a qual \u00e9 sempre alvo de interpreta\u00e7\u00f5es. Enquanto houver homens haver\u00e1 sempre interpreta\u00e7\u00f5es divergentes sobre os mesmos factos. Mas nem todas sobrevivem \u00e0 chamadas cr\u00edtica das fontes\u2026<\/p>\n<p>No rescaldo da vit\u00f3ria das for\u00e7as liberais na guerra civil\u00a0 de 1828-1834 a vila de Punhete foi elevada \u00e0 preemin\u00eancia de \u00abNot\u00e1vel\u00bb o que coincidiu com a mudan\u00e7a de top\u00f3nimo para \u00abConst\u00e2ncia\u00bb, sendo de assinalar que houve outras localidades com a mesma antiga designa\u00e7\u00e3o que beneficiaram dessa altera\u00e7\u00e3o salvo uma \u00abPunhete\u00bb rival da terra natal do ministro Passos Manuel\u2026<\/p>\n<p>O governo de Passos Manuel revelou uma prodigalidade fora do comum para concess\u00f5es de t\u00edtulos em raz\u00e3o da \u00abfidelidade\u00bb\u00a0 aos valores liberais de que era partid\u00e1rio. A vila de Const\u00e2ncia onde ele habitou e de onde era oriunda\u00a0 a sua futura mulher Gerv\u00e1sia Falc\u00e3o foi tamb\u00e9m local de resid\u00eancia de Dom Manoel Martinini o \u00abHespanhol\u00bb (sabe-se por um censo que morava na rua do actual \u00abPal\u00e1cio\u00bb) e, atente-se, l\u00e1 acabou premiada com o t\u00edtulo de \u00abNot\u00e1vel\u00bb\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Recuemos no tempo&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A 3 de Dezembro de 1836 a c\u00e2mara de Punhete dirigia a D. Maria II um requerimento para que lhe fosse deferido \u00e0\u00a0 t\u00edtulo de \u00abNot\u00e1vel\u00bb. Nesse documento (1) salientava-se que \u00abo mesmo t\u00edtulo j\u00e1 fora concedido, por circunst\u00e2ncias compar\u00e1veis, \u00e0 vila de Marv\u00e3o, por decreto de 5 de Junho de 1834\u00bb. Exclamavam os edis ribatejanos que os\u00a0 seus habitantes\u00a0 \u00abforam os primeiros que em todo o Portugal espontaneamente aclamaram a nova majestade\u00a0\u00a0 e as liberdades p\u00e1trias na vila de Tomar, em o dia 25 de Junho de 1833, mesmo no centro das baionetas do usurpador (\u2026)\u00bb.\u00a0 Mais diziam: \u00abEsta coragem, Real Senhora, tem um fundo de analogia,\u00a0 com a aclama\u00e7\u00e3o dos quarenta contra os Felipes\u00bb.<\/p>\n<p>Esta vers\u00e3o dos factos em causa pr\u00f3pria contada pelos edis no poder \u00e0 data do requerimento \u00e9 contraditada, por exemplo, pelo relato de um Oficial do Regimento de Infantaria 11, em 23 de Junho de 1833, no caso Manuel Ant\u00f3nio Morato (2) Atentemos: \u00abDom Manoel Martinini, s\u00fabdito espanhol, imigrado em Portugal\u00a0 desde as primeiras persegui\u00e7\u00f5es de Fernando VII desde a queda da constitui\u00e7\u00e3o espanhola, reuniu os seus amigos na quinta do Seival e com eles marchou at\u00e9 Tomar\u00bb. Adianta o mesmo testemunho que o \u00abHespanhol\u00bb \u00abestava informado do dia certo e que o Duque da Terceira deveria desembarcar no Algarve\u00bb. Dom Manoel Martinini entrou na cidade templ\u00e1ria ao\u00a0 alvorecer do dia 24, \u00abproclamando a carta e a rainha e soltando os presos pol\u00edticos que ali existiam nas cadeias, os quais correram a engrossar as suas fileiras, juntando-se com outros indiv\u00edduos que partilhavam dos mesmos sentimentos\u00bb. No dia 25 estava na Barquinha. No dia 26 foi dormir ao Pinheiro, acompanhado com 30 ou 40 homens.<\/p>\n<p>Em parte alguma constam refer\u00eancias \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de Punhete\u2026 Nem a Quinta do Seival se situa em Const\u00e2ncia\u2026<\/p>\n<p>Com efeito n\u00e3o pode confundir-se a popula\u00e7\u00e3o da vila com os \u00abamigos\u00bb do \u00abHepanhol\u00bb. Dom Manoel Martinini armou uma quadrilha revolucion\u00e1ria&#8230; na Barquinha (3): \u00ab(\u2026) Um D. Manoel, Hespanhol,\u00a0 casado em Carquejos, armou na Barquinha etc, uma quadrilha, com\u00a0 que veio a Tomar, na noite de 24 a 25 do m\u00eas pr\u00f3ximo passado, soltou os presos,\u00a0 roubou, e prendeu o Juiz de Fora, proclamou o governo revolucion\u00e1rio, e matou cruelmente o Escriv\u00e3o da Correi\u00e7\u00e3o, cortando-lhe os dedos antes de lhe tirar a vida! Ciente disto o Governador d\u2019Abrantes no dia 26,\u00a0 fez marchar 200 a\u00e7orianos, e uma pe\u00e7a, que encontrando a dita quadrilha lhe matou tr\u00eas dos facinorosos que a compunham; os mais afugentados passaram para o sul do Tejo. Assim que o Brigadeiro Raimundo soube, que Tomar se achava livre, marchou avante, fazendo armar os povos; foi em seguimento da quadrilha de D. Manoel, que constava de uns 200 homens; este perversos se haviam dirigido a Galveias, Avis, Crato, e Chamusca, cometendo as costumadas viol\u00eancias. N\u00e3o podendo por\u00e9m passar para o Sul, foram encontrados pelas tropas Realistas, que aprisionaram muitos (\u2026)\u00bb.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 por conseguinte\u00a0 a confirma\u00e7\u00e3o da ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de Punhete \u00e0 causa liberal? Uma vit\u00f3ria de pirro em Tomar de uma quadrilha derrotada! Mas o curso da hist\u00f3ria deu depois uma reviravolta como se ver\u00e1 mais adiante&#8230;<\/p>\n<p>Voltemos ao pol\u00e9mico requerimento dos edis no poder da c\u00e2mara datado de 3 de Dezembro de 1836 o qual apenas quatro dias depois j\u00e1 merecia um decreto\u2026 Como se a rainha e os edis estivessem a partilhar o mesmo solo\u2026 e a mesma casa por momentos\u2026.<\/p>\n<p>Em resposta ao requerimento, o decreto ia mais longe do que o seu pr\u00f3prio objecto. N\u00e3o s\u00f3 premiava a alegada ades\u00e3o \u00e0 causa liberal como mudava o nome da vila (n\u00e3o do concelho, pois saiu posteriormente uma Portaria em 24 de Dezembro a prop\u00f3sito) para \u00abNot\u00e1vel Vila de Const\u00e2ncia\u00bb. A quest\u00e3o da express\u00e3o \u00abda Const\u00e2ncia\u00bb ou \u00abde Const\u00e2ncia\u00bb \u00e9 tema para outro artigo.<\/p>\n<p>Segundo o estudo que seguimos de perto, afinal o t\u00edtulo concedido a Marv\u00e3o e invocado pelos edis ent\u00e3o no poder em Punhete era bem diferente. Na verdade, o exemplo hom\u00f3logo citado tratava-se sim, da \u00abMui nobre e sempre leal vila de Marv\u00e3o\u00bb. M\u00e1 c\u00f3pia portanto\u2026<\/p>\n<p>Um outro pormenor vem ainda em agravo da vers\u00e3o dos edis de Punhete.\u00a0 Ora, exclamavam os peticion\u00e1rios que, \u201cn\u00e3o he menos digna de braz\u00e3o esta villa de Punhete\u201d. Menos digna do que\u2026 Marv\u00e3o ?\u00a0 De acordo com a nossa fonte \u00abnem a concess\u00e3o, operada pelo regente D. Pedro, nem o anterior requerimento apresentado pela respectiva c\u00e2mara municipal a 17 de Maio de 1834 cont\u00eam qualquer refer\u00eancia \u00e0s armas desta povoa\u00e7\u00e3o\u00bb.\u00a0 Estamos conversados!<\/p>\n<p>Outras fontes v\u00eam infirmar (negar)a vers\u00e3o dos edis de Punhete da suposta ades\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de Punhete \u00e0 causa liberal durante a guerra da sucess\u00e3o (4). \u00c9 caso.<\/p>\n<p>2 de Fevereiro de 1829, reinando Dom Miguel.<\/p>\n<p>Segundo a not\u00edcia da Gazeta de Lisboa a famosa Confraria de\u00a0 Nossa\u00a0 Senhora dos M\u00e1rtires, passamos a citar, \u00ab Elegeu o dia vinte e dois de Fevereiro, anivers\u00e1rio do feliz regresso do mesmo Excelso, e Augusto Senhor \u00e0 P\u00e1tria, solenizando este venturoso dia, e rendendo ao Omnipotente as gra\u00e7as pela suspirada melhora de Sua majestade\u00bb.<\/p>\n<p>A not\u00edcia do peri\u00f3dico \u00e9 farta em pormenores e, n\u00e3o sem import\u00e2ncia: a igreja foi particularmente decorada \u00abcom a Real Ef\u00edgie, e Reais armas Lusitanas\u00bb.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera \u00e0 noite \u00abse iluminou a fachada e torre do magn\u00edfico e sumptuoso Templo, cuja soberba, e delicada arquitectura tornara elegant\u00edssima a ilumina\u00e7\u00e3o; avisando os repiques dos sinos com seus sonoros, e harmoniosos sons a solene festividade do segundo dia, no qual a Real Igreja elegantemente armada, e enramada de fragantes arbustos, e odorizantes flores, foi particularmente decorada com a Real Effigie, e Reais armas Lusitanas\u00bb.<\/p>\n<p>Procedeu-se \u00e0 fun\u00e7\u00e3o com repiques de sinos, fogo de ar, e tocando continuamente o \u00f3rg\u00e3o. Celebrou-se o Santo Sacrif\u00edcio da Missa ao som do mesmo \u00f3rg\u00e3o com o Sant\u00edssimo\u00a0 Sacramento exposto, grande concurso de Eclesi\u00e1sticos Seculares\u00a0 Regulares, e Serm\u00e3o, em que o h\u00e1bil Orador energicamente discorreu sobre t\u00e3o digno, e interessante assunto\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 digno de realce este \u00faltimo inciso. O p\u00falpito a apoiar Dom Miguel. S\u00f3 pode ter sido. Um Te Deum conclu\u00eda as cerim\u00f3nias\u00a0 \u00abficando satisfeitos os fi\u00e9is do audit\u00f3rio, que n\u00e3o s\u00f3 se compunha dos devotos confrades, mas das pessoas mais distintas, e qualificadas da vila,\u00a0 e de\u00a0 inumer\u00e1vel povo, reverberando no rosto de todos o mais completo j\u00fabilo (\u2026). A\u00a0 melhoria da sa\u00fade do\u00a0 monarca e a tradi\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0 tinha sido o mote. Cumpriam-se assim os \u00absagrados deveres de amor e vassalagem devidos a este mesmo Real Soberano\u00bb.\u00a0 Havia na vila uma tradi\u00e7\u00e3o sab\u00e1tica que remontava a Dom Sebasti\u00e3o, de cantar depreca\u00e7\u00f5es em s\u00faplica pelos monarcas reinantes. Esta\u00a0 ocorreu em plena guerra da sucess\u00e3o.\u00a0 E n\u00e3o foi pela causa liberal\u2026<\/p>\n<p>Em 4 de Julho de 1845 a Rainha D. Maria II, qual\u00a0\u00a0 coveira desta mesma confraria, viria a extingui-la por decreto. A Santa Igreja Cat\u00f3lica pouco ou nada deve aos liberais e ma\u00e7ons. Mas a mem\u00f3ria dos homens permanece viva. A Igreja est\u00e1 a\u00ed e \u00e9 da invoca\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora dos M\u00e1rtires maogrado a recente decis\u00e3o\u00a0 da Direc\u00e7\u00e3o geral do patrim\u00f3nio que veio\u00a0 mudar a sua designa\u00e7\u00e3o contra direito e contra a hist\u00f3ria, designando-a de S\u00e3o Juli\u00e3o, numa confus\u00e3o de patronos e incorrendo no mesmo erro do decreto de Salazar.. Seguramente, um assunto que n\u00e3o vou abandonar.<\/p>\n<p>Retornemos ao requerimento dos edis de Punhete\u2026<\/p>\n<p>J\u00e1 aqui alert\u00e1mos para o curto espa\u00e7o de tempo que medeia entre o requerimento de 3 de Dezembro e o decreto de 7 de Dezembro.\u00a0 Estas coisas da her\u00e1ldica levam tempo e n\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel\u00a0 que o bras\u00e3o de armas com a legenda \u00abConstante firme e leal s\u00f3 Const\u00e2ncia soube ser\u00bb\u00a0\u00a0 n\u00e3o tivesse sido morosamente aprovado pela autoridade central por causa dos crit\u00e9rios da her\u00e1ldica. O que leva a crer que ao citar-se na legenda a palavra \u00abConst\u00e2ncia\u00bb se est\u00e1\u00a0 a citar t\u00e3o s\u00f3 o nome da vila anteriormente atribu\u00eddo. \u00a0Um dado complementar vem em abono desta suspeita. Sob o\u00a0 t\u00edtulo de \u201cPadr\u00e3o de Armas da Vila de Const\u00e2ncia\u201d\u00a0 existe em arquivo (5) um primitiva proposta para um emblema aut\u00e1rquico. Passando ao largo do todo da descri\u00e7\u00e3o importa para o caso\u00a0 a figura masculina (um guerreiro romano) que calca uma serpente, ser maligno e venenoso que ali representar\u00e1 o absolutismo. \u00a0As palavras escolhidas para o emblema s\u00e1o \u00abLIBERDADE\u00bb, \u00abP\u00c1TRIA\u00bb e \u00abCONSTITUI\u00c7\u00c3O\u00bb.\u00a0 O inumeroso povo, confrades, pessoas mais distintas e qualificadas da vila que\u00a0 acorriam ao templo no cimo da colina para prestar vassalagem ao Rei Dom Miguel n\u00e3o teria sido visto nem achado nestas fantasias da her\u00e1ldica dos edis camar\u00e1rios\u2026 Achamos tamb\u00e9m muita produ\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel das artes visuais para t\u00e3o pouco tempo&#8230;<\/p>\n<p>A \u00abConst\u00e2ncia\u00bb do amor entre Passos e Gerv\u00e1sia<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria da escolha do nome \u00abConst\u00e2ncia\u00bb aquando da mudan\u00e7a de top\u00f3nimo operada em 1836 n\u00e3o escapou \u00e0 mem\u00f3ria dos velhos da vila. Sobre o assunto tive not\u00edcias v\u00e1rias da tradi\u00e7\u00e3o que o cronista local exarou na sua monografia de Const\u00e2ncia (6). Uma das fontes orais chegou-me pela voz da minha antiga professora da 1\u00ba e 2\u00aa classes, de saudosa mem\u00f3ria, a saber, a D. Lurdes Tavares. Quanto ao seu conte\u00fado \u00e9 semelhante ao que consta do texto de Joaquim dos M\u00e1rtires Neto Coimbra.\u00a0 Digna de curiosidade \u00e9 a circunst\u00e2ncia de constar de um estudo realizado por alunos locais, nos anos 50 ou 60 do s\u00e9culo passado, sob o t\u00edtulo \u00abCorografia de Const\u00e2ncia\u00bb, trabalho esse ent\u00e3o orientado pela escola prim\u00e1ria. N\u00e3o o consegui obter ficando-me pela informa\u00e7\u00e3o da minha querida e saudosa professora. Passo a resumir: a vila de Const\u00e2ncia deve o\u00a0 seu nome \u00e0 \u00abconst\u00e2ncia\u00bb do namoro entre Passos Manoel (liberal) e Gerv\u00e1sia Falc\u00e3o (de fam\u00edlia absolutamente miguelista) n\u00e3o obstante a oposi\u00e7\u00e3o destes \u00faltimos ao casamento. Este epis\u00f3dio levou a que Gerv\u00e1sia tivesse sido enclausurada na ent\u00e3o vila de Punhete \u00e0 guarda de um tio. Pela leitura do texto que o nosso cronista local registou poder\u00e3o constatar que encontrando-se a rainha no \u00abpal\u00e1cio\u00bb em Punhete a c\u00e2mara lhe ter\u00e1 solicitado a mudan\u00e7a de top\u00f3nimo tendo contado com a interfer\u00eancia de Passos Manoel, ministro do Reino. \u00c9 assim o texto:<\/p>\n<p>\u00abA vila de Const\u00e2ncia e as origens do seu nome<\/p>\n<p>Do Sr Dr Alberto Campos Melo, advogado em Lisboa, recebemos c\u00f3pia de uma carta que enviou ao sr prof Dr J. Diogo Correia com o pedido de publica\u00e7\u00e3o neste jornal. Hei-la:<\/p>\n<p>Lisboa, 12 de Novembro de 1954<\/p>\n<p>Ex.mo Sr prof Dr J. Diogo Correia \u2013 Estoril<\/p>\n<p>\u00abNo seu magn\u00edfico op\u00fasculo \u00abTopon\u00edmia da Beira Baixa\u00bb, a folha 62 ao tratar do rio Z\u00eazere h\u00e1 uma nota que n\u00e3o traduz a verdade de facto embora seja oficial: a vila de Const\u00e2ncia deve o seu nome n\u00e3o \u00e0 const\u00e2ncia dos seus moradores \u00e0 causa constitucional como refere o \u00abDi\u00e1rio Oficial\u00bb ao tratar da mudan\u00e7a do nome desta vila, mas a outra circunst\u00e2ncia, pois dominava ali a fam\u00edlia Falc\u00e3o absolutamente miguelista. Passos Manuel namorou uma menina da indicada fam\u00edlia Falc\u00e3o. Esta fam\u00edlia, por Passos n\u00e3o ser fidalgo, antes ser p\u00e9 fresco, op\u00f4s-se ao casamento e enclausurou a menina em Punhete (como se chamava ent\u00e3o a vila de Const\u00e2ncia). \u00c0 guarda de um tio, o qual ali habitava a casa conhecida por Pal\u00e1cio, presentemente perten\u00e7a do sr. Jo\u00e3o Falc\u00e3o da referida fam\u00edlia. Triunfante a causa liberal, Passos Manuel foi feito ministro do Reino. Ent\u00e3o, Passos Manoel, j\u00e1 casado com a menina que sempre namorou, leva a rainha a uma\u00a0 viagem pelo Ribatejo e, em Punhete, a rainha e a sua comitiva s\u00e3o recebidos no Pal\u00e1cio. A C\u00e2mara de Punhete tendo dentro da sua vila a rainha e o ministro do Reino solicita que seja mudado o nome da vila. O ministro aconselha a rainha a deferir o pedido dando nome de \u00abConst\u00e2ncia\u00bb. A Const\u00e2ncia a que se refere essa mudan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a dos habitantes de Punhete \u00e0 causa constitucional, que eram na sua quase totalidade miguelistas; mas a da senhora que Passos desposara, a qual embora desterrada para Punhete (como Cam\u00f5es), se manteve firme no seu amor, apesar de terem decorridos bastantes anos. Passos Manuel prestava assim homenagem a sua esposa. Deste casamento existem bisnetos que s\u00e3o da fam\u00edlia Canavarro de Santar\u00e9m.<\/p>\n<p>O facto que era do conhecimento dos velhos de Const\u00e2ncia foi-me referido pelo velho professor Baptista, e confirmada pela pr\u00f3pria filha de Passos Manuel D. Ant\u00f3nia Passos, senhora de suprema distin\u00e7\u00e3o. Desta pode V. ex.a fazer o uso que entender, assim como eu lhe darei publicidade. Com muita considera\u00e7\u00e3o creia, etc<\/p>\n<p>Alberto Campos Melo\u00bb.<\/p>\n<p>Pessoa amiga discorda desta vers\u00e3o argumentando que Gerv\u00e1sia j\u00e1 era vi\u00fava e que s\u00f3 casou posteriomente \u00e0 emiss\u00e3o do decreto.\u00a0 O argumento \u00e9 o de que esta vers\u00e3o registada pelo cronista n\u00e3o resiste \u00e0\u00a0 chamada cr\u00edtica das fontes.\u00a0 Pode ser que nesta vers\u00e3o popular haja incongru\u00eancias. E mesmo havendo-as elas n\u00e3o infirmam o essencial. Mas o certo \u00e9 que a tradi\u00e7\u00e3o ali a colocou no \u00abPal\u00e1cio.\u00bb o qual ficou com essa designa\u00e7\u00e3o devido a isso mesmo.\u00a0 Sabe-se at\u00e9 qual foi o quarto onde pernoitou. Na passagem de testemunhos orais h\u00e1 sempre contamina\u00e7\u00e3o mas fica sempre um fundo de verdade. O que \u00e9 certo \u00e9 que na mem\u00f3ria dos habitantes n\u00e3o ficou a tal ades\u00e3o \u00e0 causa liberal. Nem rasto. H\u00e1 na autarquia uma c\u00f3pia de uma peti\u00e7\u00e3o dce 1896 dirigida ao Rei Dom Carlos que alude ao decreto de 1836.\u00a0 Mas \u00e9 isso e apenas isso: cita\u00e7\u00e3o pura. A vers\u00e3o popular \u00e9 que resistiu ao tempo. E a\u00ed est\u00e1.<\/p>\n<p>A guerra entre dois irm\u00e3os\u2026 uma perspectiva<\/p>\n<p>\u00c0 crise pol\u00edtica e econ\u00f3mica resultante do contexto da guerra peninsular e da partida da corte para o Brasil veio juntar-se a secess\u00e3o do imp\u00e9rio e a revolu\u00e7\u00e3o de 1820. A instabilidade prosseguia com a contra-revolu\u00e7\u00e3o e a reivindica\u00e7\u00e3o do trono por D. Pedro (proclamado imperador do Brasil) em favor de sua filha D. Maria da Gl\u00f3ria e, em contesta\u00e7\u00e3o do trono de Dom Miguel Primeiro. Mas recuemos um pouco\u2026<\/p>\n<p>Com a morte de Dom Jo\u00e3o VI\u00a0 a princesa Isabel Maria presidia ao Conselho de reg\u00eancia nomeado pelo rei antes deste perecer. O herdeiro do trono, Dom Pedro\u00a0 tinha sido reconhecido pelo Conselho de reg\u00eancia inicialmente. Acontece que a Constitui\u00e7\u00e3o do Brasil n\u00e3o permitia que o seu monarca fosse partilhado com outro pa\u00eds\u2026<\/p>\n<p>Dom Pedro gisou um plano faseado em\u00a0 que o irm\u00e3o, Dom Miguel, actuaria como regente at\u00e9 que a D. Maria da Gl\u00f3ria tivesse idade para casar. E, assim, em Julho de 1927 Dom Pedro nomeia o irm\u00e3o, Dom Miguel, regente.<\/p>\n<p>O liberalismo que se conhece oriundo dos finais do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcios do s\u00e9culo XIX n\u00e3o era uma ideologia coerente sistematizada. Contudo, pode afirmar-se, os liberais\u00a0 apregoavam que a sociedade deveria ter v\u00e1rios centros de poder (legislativo, judicial, executivo e moral). A fonte leg\u00edtima do poder deveria residir no povo\u2026 A partir de um determinado ide\u00e1rio constru\u00eddo no vazio do poder pol\u00edtico deixado com a separa\u00e7\u00e3o do Brasil gizou-se uma ideia de constitui\u00e7\u00e3o com direitos individuais e sociais. Por\u00e9m, no Brasil os conceitos do liberalismo estavam mais ligados a quest\u00f5es de autonomia e de independ\u00eancia\u2026 Portugal n\u00e3o estava imune a certas\u00a0 influ\u00eancias&#8230; da ma\u00e7onaria a grande correia de transmiss\u00e3o do dito pensamento liberal. As ideias-chave do nosso liberalismo n\u00e3o irromperam integralmente dos nossos intelectuais da esquerda. As revolu\u00e7\u00f5es americana e francesa e as ideias iluministas d\u00e3o-nos o contexto\u2026 Sabe-se que muitos oficiais estrangeiros aqui estacionados eram ma\u00e7ons, n\u00e3o se podendo negligenciar a sua influ\u00eancia na dissemina\u00e7\u00e3o das ideias liberais. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a imprensa da \u00e9poca conotada com o absolutismo atacava os ma\u00e7ons de forma crescente. Entretanto, Dom Miguel, regressado de Viena, chega a Lisboa em 22 de Fevereiro de 1828. Quatro dias depois presta um juramento nas cortes (que levanta d\u00favidas a historiadores), em sess\u00e3o extraordin\u00e1ria. E Dona Isabel Maria retira-se da vida p\u00fablica.\u00a0 Em finais de Junho, novas cortes, determinam que Dom Miguel era o leg\u00edtimo sucessor de Dom Jo\u00e3o VI e, assim, a interven\u00e7\u00e3o de Dom Pedro e\u00a0 a sua carta constitucional eram inv\u00e1lidas. Dom Miguel aceitou essa decis\u00e3o em 7 de Julho e\u00a0 foi aclamado rei em 11 de Julho de 1828,<\/p>\n<p>Pelo fim de 1833 o campo ainda se mantinha solidamente miguelista.<\/p>\n<p>Dom Pedro embora sendo mais liberal do que os seus ministros (e do que a maioria dos portugueses) e na pr\u00e1tica t\u00e3o absolutista como o pai.<\/p>\n<p>Na realidade Dom Pedro n\u00e3o era inteiramente liberal. A sua carta constitucional era um documento conservador que permitia aos representantes a partilha do poder sem contudo o poder dominar\u2026<\/p>\n<p>Dom Pedro agia com frequ\u00eancia de forma absolutista. Imp\u00f4s de forma unilateral a carta constitucional de 1826. Tornou-se liberal por causa dos seus actos e n\u00e3o dos do povo. As ditas reformas que decretou em 1832 a partir dos A\u00e7ores\u00a0 aconteceram\u00a0 enquanto preparava a invas\u00e3o do continente sem que se tivesse referido ao que desejava a popula\u00e7\u00e3o em geral. A popula\u00e7\u00e3o rural de uma maneira geral (agricultores de subsist\u00eancia, trabalhadores rurais,\u00a0 grandes agricultores e criadores de gado) evidenciava uma prefer\u00eancia por medidas proteccionistas. N\u00e3o estavam interessados em grandes mudan\u00e7as pol\u00edticas.\u00a0 O mundo rural era muito heterog\u00e9neo.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Luz (Const\u00e2ncia)<\/p>\n<p><strong>(N\u00e3o uso o acordo ortogr\u00e1fico)<\/strong><\/p>\n<p>PS \u2013 Encontrei uma refer\u00eancia\u00a0 vaga a uma insurrei\u00e7\u00e3o em Punhete referente a este epis\u00f3dio de 1833 e contempor\u00e2nea do mesmo, mas sem mais. Este artigo n\u00e3o tem a pretens\u00e3o de fazer hist\u00f3ria. \u00c9 apenas um desabafo. Pode ser que o tempo nos revele que n\u00e3o temos raz\u00e3o na argumenta\u00e7\u00e3o. Mas, face aos dados dispon\u00edveis, fizemos o melhor poss\u00edvel. Quem d\u00e1 o que tem a mais n\u00e3o \u00e9 obrigado. Existem mais dados sobre Dom Manuel Martinini mas que nada acrescentariam ao essencial. Feito coronel casou com Em\u00edlia de Sousa Falc\u00e3o, rica propriet\u00e1ria da vila. Teria uma adega segundo a imprensa londrina. Curiosamente a antiga adega da vila seria dos Falc\u00f5es (actual propriedade da par\u00f3quia). \u00c9 poss\u00edvel que tivesse arregimentado para a sua quadrilha gente daqui. Mas isso s\u00f3 se presume,\u00a0 Ainda assim dados os n\u00fameros e factos nada autoriza a confundir-se\u00a0 a gente da quadrilha com a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(1) Estudo de Miguel Seixas, sobre her\u00e1ldica municipal, Centro de Hist\u00f3ria de Al\u00e9m Mar da U.N.L. e Univ. dos A\u00e7ores.<\/p>\n<p>(2) Mem\u00f3ria hist\u00f3rica da Not\u00e1vel Vila de Abrantes, Manuel Ant\u00f3nio Morato e Jo\u00e3o Valentim da Fonseca Mota, 1860, edi\u00e7\u00e3o da CMA de 1981<\/p>\n<p>(3) Gazeta de Lisboa, 20 de Julho de 1833.<\/p>\n<p>(4)Rela\u00e7\u00e3o da festividade que fez a Real Confraria de Nossa Senhora dos M\u00e1rtires da Vila de Punhete, comarca de Thomar, pela melhora de Sua majestade o Senhor Dom Miguel Primeiro.<\/p>\n<p>(5) ANTT, Minist\u00e9rio do Reino, Colec\u00e7\u00e3o de Plantas, Mapas e Outros Documentos, doc. 290.<\/p>\n<p>(6) Subs\u00eddios para a hist\u00f3ria de Const\u00e2ncia\u00a0 e seu concelho, Joaquim dos M\u00e1rtires Neto Coimbra, 1971, editado pelo autor em artigos na imprensa regional.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/vila-de-constancia-o-apoio-a-dom-miguel\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria oficial das revolu\u00e7\u00f5es escrita no fervor dos acontecimentos \u00e9 a hist\u00f3ria dos vencedores contra os vencidos. 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