{"id":13608,"date":"2019-11-22T21:15:32","date_gmt":"2019-11-22T21:15:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=13608"},"modified":"2019-11-22T21:20:45","modified_gmt":"2019-11-22T21:20:45","slug":"o-destino-duma-crianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/o-destino-duma-crianca\/","title":{"rendered":"RAUL PIRES | O destino duma crian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1175\" aria-describedby=\"caption-attachment-1175\" style=\"width: 200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-1175 size-full\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/RaulPires1.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"184\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1175\" class=\"wp-caption-text\">Raul Pires raul.pires@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Era o ano de 1957. Num dia de primavera, os raios de sol douravam uma aldeia transmontana, encravada na base da serra de montezinho, quis o destino que, a\u00ed, nascesse uma crian\u00e7a desejada. \u00a0A carinhosa simbiose com a m\u00e3e, durante alguns meses, cedeu e, pouco a pouco, a crian\u00e7a foi crescendo, autonomizando-se, evoluindo numa complexidade biopsicossocial.<\/p>\n<p>Depressa chegou o dia de ir para a escola prim\u00e1ria. A oeste da aldeia, numa casa nova com uma sala, um pequeno corredor, casas de banho e recreio, uma professora, j\u00e1 entrada na idade, ensinava as primeiras letras e a restante mat\u00e9ria a todas as classes. Na sala havia respeitinho e at\u00e9 medo da r\u00e9gua e do caule da couve-galega, mas tudo se esquecia na alegria do recreio. Era contagiante a az\u00e1fama. Os rapazes lan\u00e7avam o pi\u00e3o, jogavam \u00e0 bilharda e \u00e0 apanha, quando n\u00e3o conseguiam uma bola de trapos ou a bexiga do porco para jogar futebol. As raparigas aperfei\u00e7oavam o jogo da macaca, mas a algazarra e vozearia depressa terminavam com a entrada na sala. Findo o dia, o pior estava para vir. Em casa, al\u00e9m de ajudar a fam\u00edlia, havia que fazer os deveres da escola, mesmo que fosse \u00e0 luz do gas\u00f3metro. Ai daquele que n\u00e3o os fizesse! No dia seguinte havia reguadas\u2026<\/p>\n<p>Passaram-se r\u00e1pido os quatro anos da prim\u00e1ria. \u00a0Havia que continuar a estudar. A perspectiva do liceu trazia consigo alguma incerteza, mas comportava, tamb\u00e9m, um aceno confuso de liberta\u00e7\u00e3o. Atemorizava-a a ideia de que iria para uma cidade e para uma escola maior com muita gente diferente. Pelo sim pelo n\u00e3o, foi-se preparando para o pior porque o que acontecesse de bom, seria mais f\u00e1cil de assimilar. A ang\u00fastia dos primeiros meses na cidade era compensada com a alegria de nas f\u00e9rias escolares regressar ao seio materno. Os anos passaram-se entre os estudos na cidade e os trabalhos na aldeia, durante as f\u00e9rias escolares. Pois! Era preciso ganhar algumas jeiras para ajudar a criar os outros cinco irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Conclu\u00eddo o liceu, e aquela crian\u00e7a j\u00e1 adolescente, tinha que procurar trabalho. A restaura\u00e7\u00e3o em Madrid, Girona, o servi\u00e7o militar, em Vila Real e a Escola Pr\u00e1tica de Pol\u00edcia, em Torres Novas, foram os caminhos mais certos na incerteza do destino. Com vinte e dois anos, pensava que j\u00e1 conhecia a vida. N\u00e3o! Em Torres Novas assimilou os valores que lhe bateram \u00e0 porta e que proporcionaram instrumentos de trabalho para os tempos futuros. A indecis\u00e3o do limite entre o real e o imagin\u00e1rio, que caracteriza o mundo adolescente, depressa deixou cair os castelos constru\u00eddos no ar, as quimeras, para tornar mais real a adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, na procura de caminhos mais concretos.<\/p>\n<p>J\u00e1 pol\u00edcia, o destino foi Lisboa. Durante sete anos, a patrulhar, rondar e receber pessoas, resolvendo ou tentando resolver os seus problemas. Como Oficial de Pol\u00edcia, coube-lhe o comando da Esquadra de Seguran\u00e7a \u00e0 Assembleia da Rep\u00fablica. Durante seis anos, trabalhou com tr\u00eas tipos de p\u00fablicos: cidad\u00e3os an\u00f3nimos que assistiam nas galerias, ao desenrolar dos trabalhos; os funcion\u00e1rios da A.R., e os pol\u00edticos (Cabe\u00e7a dos Estado). Vivia, diariamente entre dois mundos: o mundo da ret\u00f3rica e o mundo da realidade, exterior \u00e0 A.R. O Regime Pol\u00edtico (Democracia representativa), assente no povo, j\u00e1 pouco ou nada tem a ver com o Sistema Pol\u00edtico, que me parece constituir um mundo \u00e0 parte, tal como o mundo que o adolescente constr\u00f3i, antes de assentar os p\u00e9s na terra. Da\u00ed, a necessidade que o povo sente em se manifestar. Ainda bem que tem e faz uso desse direito constitucional.<\/p>\n<p>Terminados os estudos policiais na Escola Superior de Pol\u00edcia e os estudos universit\u00e1rios na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, essa crian\u00e7a que nasceu numa aldeia do interior, completamente esquecida porque n\u00e3o rende votos, foi colocada, por imposi\u00e7\u00e3o, na Escola Pratica de Pol\u00edcia, em Torres Novas. A\u00ed, desde formador, coordenador de mat\u00e9rias, director de cursos (agentes e subchefes), director de servi\u00e7os (chefe de divis\u00e3o), tudo lhe coube em destino.<\/p>\n<p>J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o sessenta e dois anos e s\u00e3o mais as d\u00favidas que as certezas. Mas, uma coisa parece certa: a \u00e9poca de aceita\u00e7\u00e3o passiva, acr\u00edtica ou temerosa da ac\u00e7\u00e3o dos governantes est\u00e1 ultrapassada. O futuro \u00e9 desconhecido e imprevis\u00edvel, afirmam alguns. Ser\u00e1? Os pol\u00edticos que continuem a pensar que vivem num mundo \u00e0 parte e ver\u00e3o que o futuro n\u00e3o ser\u00e1 assim t\u00e3o imprevis\u00edvel.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/o-destino-duma-crianca\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era o ano de 1957. 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