{"id":11487,"date":"2019-09-26T15:50:28","date_gmt":"2019-09-26T14:50:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=11487"},"modified":"2019-09-26T15:50:28","modified_gmt":"2019-09-26T14:50:28","slug":"manuel-fernandes-vicente-encantos-e-desencantos-do-andar-a-pe-e-de-bicicleta-no-entroncamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-encantos-e-desencantos-do-andar-a-pe-e-de-bicicleta-no-entroncamento\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Encantos e desencantos do andar a p\u00e9 e de bicicleta no Entroncamento"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>H\u00e1 poucos dias, e um pouco no esp\u00edrito do Dia Europeu sem Carros, realizou-se no Entroncamento, e destinada \u00e0s crian\u00e7as das primeiras etapas escolares da cidade, a iniciativa \u201cVou a p\u00e9 para a Escola\u201d, alavancada pelo munic\u00edpio, pelo agrupamento de escolas e pela PSP da cidade. Um dia destes tamb\u00e9m podia ser dedicado \u00e0s <em>bikes<\/em>\u2026<\/p>\n<p>A iniciativa formal \u00e9 naturalmente elogi\u00e1vel e tem todo o prop\u00f3sito, agregou v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es da urbe, teve merecimento noticioso, mas, apesar disso, n\u00e3o posso deixar de escapar um sorriso quando ao contraste entre os dias de hoje e o que sucedia h\u00e1 alguns anos. Nessa altura, uma crian\u00e7a ir a p\u00e9 de casa para a escola n\u00e3o era not\u00edcia. Faz\u00ea-lo era natural, apenas mais uma etapa da sua natureza e do seu crescimento, era tamb\u00e9m t\u00e3o normal como a aprendizagem que ia ter na escola e o brincar nas ruas mais calmas, nos largos e nos adros das igrejas com os seus colegas, amigos ou vizinhos. Nesse tempo de h\u00e1 d\u00e9cadas n\u00e3o havia a preocupa\u00e7\u00e3o (ou paranoia?) de superprote\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as e jovens que h\u00e1 hoje, alimentada por not\u00edcias assustadoras e pelo sentimento de inseguran\u00e7a social generalizada e de desconfian\u00e7a cr\u00f3nica em rela\u00e7\u00e3o aos outros. Aos seis anos ia-se para a escola, por vezes longe de casa, a p\u00e9 e com os colegas; e aos 12 os pr\u00e9-adolescentes da cidade que prosseguiam os estudos iam ainda de noite para os liceus de Santar\u00e9m (para o qual tinham de subir ou descer as tem\u00edveis e famosas barreiras do Tejo) ou de Tomar e para a Escola Industrial de Tomar, deslocando-se de comboio at\u00e9 essas urbes, expostos tamb\u00e9m nelas a mais tr\u00e2nsito, mais estradas e mais intranquilidade.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que todas as compara\u00e7\u00f5es que envolvam uma consider\u00e1vel dist\u00e2ncia temporal envolvem o risco de induzir paralogismos e armadilhas falaciosas, para al\u00e9m de poderem provocar animosidades gratuitas e decis\u00f5es err\u00f3neas. A verdade \u00e9 que, ressalvando esta reserva mental, e com a legisla\u00e7\u00e3o atual, h\u00e1 apenas trinta anos, muitos dos pais que davam liberdade e responsabilidades aos seus filhos, e queriam obviamente o melhor por eles, teriam, se existissem, e por ironia, de algum dia enfrentar uma Comiss\u00e3o de Prote\u00e7\u00e3o de Crian\u00e7as e Jovens mais zelosa e a querer mostrar servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Infelizmente, pelo ambiente real ou imagin\u00e1rio criado, instalou-se h\u00e1 uns anos um clima psicol\u00f3gico de medo e depressivo, os pais habituaram-se a levar sempre de carro os filhos at\u00e9 ao port\u00e3o da escola, e sem liberdade \u00e9 dif\u00edcil assumir responsabilidades. Entre outras consequ\u00eancias uma \u00e9 esta: hoje, uma crian\u00e7a de 12 anos tem em m\u00e9dia mais cinco quilos que as crian\u00e7as da mesma idade de h\u00e1 50 anos, e a falta de atividade f\u00edsica \u00e9 uma das principais raz\u00f5es desta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns dias, quiseram os ventos do acaso (que nunca o \u00e9 em absoluto) soprar-me de novo at\u00e9 \u00e0 id\u00edlica vila da Murtosa, terra marinhoa, p\u00e1tria de um dos meus pecados gastron\u00f3micos favoritos, sejam de caldeirada, fritos ou em molho de escabeche, e deparar-me com uma estimulante realidade, que \u00e9 hist\u00f3rica, cultural, mas tamb\u00e9m muito incentivada e estimulada pelo munic\u00edpio local. Dantes, as bicicletas estavam na pele de uma regi\u00e3o muito plana e onde se vivia humildemente dos recursos mais end\u00f3genos da Ria de Aveiro: o moli\u00e7o, as enguias da ria aberta ou dos canais e esteiros daquela terra de \u00e1gua, o milho e outras culturas ou a produ\u00e7\u00e3o de conservas de enguias e doutros peixes. Os moliceiros, os pescadores de enguias a correr para a ria e as mulheres para a f\u00e1brica de conservas, quase todos os murtoseiros, por pobreza ou op\u00e7\u00e3o, faziam das duas rodas o seu meio de transporte. A c\u00e2mara local apostou, entretanto, com for\u00e7a e crit\u00e9rio, numa vasta rede de ciclovias (e vias pedonais), incluindo passadi\u00e7os, e de passagens ao longo das margens lagunares, bem como numa pol\u00edtica sustentada de projetos de incentivo ao uso descarado de bicicletas (mesmo para visitantes), e hoje muitas centenas de alunos (cerca de 90 por cento, segundo a c\u00e2mara) de todas as idades \u00e9 assim, que v\u00e3o calmamente para as suas escolas. As pessoas mais idosas, mesmo com chuva, tamb\u00e9m o fazem, e agradecem; e \u00e0s portas das casas ou de estabelecimentos comerciais h\u00e1 sempre incont\u00e1veis <em>bikes<\/em>. Por isso, a Murtosa foi considerada j\u00e1 este ano o munic\u00edpio mais amig\u00e1vel da bicicleta como transporte urbano <em>pelo Bike Friendly Index.<\/em><\/p>\n<p>O Entroncamento tem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias que tamb\u00e9m a podiam tornar um expoente da bicicleta como meio de transporte urbano preferencial. A cidade \u00e9 ch\u00e3 e at\u00e9 tem um lastro cultural e hist\u00f3rico muito forte ligado \u00e0s bicicletas: mesmo nas d\u00e9cadas de 1970 e 1980 ainda era assim que uma mol de oper\u00e1rios da CP, das oficinas e de outras instala\u00e7\u00f5es, atravessavam como nuvens ininterruptas de bicicletas toda a povoa\u00e7\u00e3o para se deslocar para o trabalho, para a esta\u00e7\u00e3o ou de regresso a casa, e era nelas que tamb\u00e9m iam at\u00e9 \u00e0s tabernas ou a buscar dois garraf\u00f5es de \u00e1gua ao Bonito ou \u00e0s fontes do Castelhano ou da Moita do Norte, em Vila Nova da Barquinha. \u00c9 verdade que o munic\u00edpio tem apostado nos \u00faltimos anos em ciclo e pedovias, mas falta algo, pois o que se fez n\u00e3o fez ainda fa\u00edsca, s\u00e3o poucos os jovens que optam por ir a p\u00e9 at\u00e9 \u00e0s escolas e raros os que o fazem de bicicleta. Falta log\u00edstica, suportes e infraestruturas de apoio, e decerto bicicletas municipais dispon\u00edveis e com registo, controlo (com<em> chips <\/em>antirroubo) e seguro, mas o que \u00e9 essencial \u00e9 mesmo a sensibilidade, o est\u00edmulo e a motiva\u00e7\u00e3o para as usar e andar ao ar livre. Como sempre, o esp\u00edrito antecede a mat\u00e9ria.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuel-fernandes-vicente-encantos-e-desencantos-do-andar-a-pe-e-de-bicicleta-no-entroncamento\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 poucos dias, e um pouco no esp\u00edrito do Dia Europeu sem Carros, realizou-se no Entroncamento, e destinada \u00e0s crian\u00e7as das primeiras etapas escolares da cidade, a iniciativa \u201cVou a p\u00e9 para a Escola\u201d, alavancada pelo munic\u00edpio, pelo agrupamento de escolas e pela PSP da cidade. 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