{"id":10474,"date":"2019-08-25T23:27:01","date_gmt":"2019-08-25T22:27:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=10474"},"modified":"2019-08-25T23:27:01","modified_gmt":"2019-08-25T22:27:01","slug":"manuela-poitout-tera-o-povo-do-entroncamento-participado-num-linchamento-na-estacao-ferroviaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuela-poitout-tera-o-povo-do-entroncamento-participado-num-linchamento-na-estacao-ferroviaria\/","title":{"rendered":"MANUELA POITOUT | Ter\u00e1 o povo do Entroncamento participado num linchamento, na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria?"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1174\" aria-describedby=\"caption-attachment-1174\" style=\"width: 271px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1174\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelaPoitout.jpg\" alt=\"\" width=\"271\" height=\"292\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1174\" class=\"wp-caption-text\">Manuela Poitout manuelapoitout@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em tempos da Primeira Rep\u00fablica, ter\u00e1 o povo do Entroncamento participado num linchamento, na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria?<\/p>\n<p>Para enquadrar este acontecimento na \u00e9poca e na Hist\u00f3ria, comecemos pela data dele \u2013 o dia 16 de maio, ou com mais precis\u00e3o, a noite de 16 para 17. \u00c9 uma das datas turbulentas da Primeira Rep\u00fablica, esta assinalando o atentado a Jo\u00e3o Chagas e a morte de um senador na esta\u00e7\u00e3o do Entroncamento, dois dias depois da mais mort\u00edfera de todas as revolu\u00e7\u00f5es portuguesas do s\u00e9culo XX, que p\u00f4s fim \u00e0 ditadura do general Pimenta de Castro.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Chagas, que tinha sido indigitado para novo primeiro ministro, na sequ\u00eancia da destitui\u00e7\u00e3o de Pimenta de Castro, neste preciso dia 16 de maio vinha do Porto para Lisboa, acompanhado de sua mulher e de Paulo Jos\u00e9 Falc\u00e3o, que ia tomar conta de um minist\u00e9rio, instalados num compartimento do r\u00e1pido. Segundo noticiara o jornal <em>A Capital<\/em>, estava previsto ir o aviso Lidador ao porto de Leix\u00f5es busc\u00e1-lo, provavelmente por raz\u00f5es de seguran\u00e7a, mas finalmente decidiu-se que viria no r\u00e1pido da noite, com chegada prevista a Lisboa \u00e0 uma da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Foi o futuro primeiro ministro atacado pelo senador Jo\u00e3o de Freitas, ou no Entroncamento, onde o senador se encontraria \u00e0 espera do r\u00e1pido, ou no percurso entre Paialvo e Entroncamento. Dado que a chegada a Lisboa seria \u00e0 1 da manh\u00e3, a passagem no Entroncamento deveria ocorrer entre as onze horas e a meia noite.<\/p>\n<p>Os contornos deste atentado s\u00e3o difusos, as vers\u00f5es desencontradas, quanto ao s\u00edtio onde entrou Jo\u00e3o de Freitas, quanto ao n\u00famero de tiros, quanto \u00e0 sorte do atacante.\u00a0 A hip\u00f3tese de ter entrado em Paialvo tem alguma consist\u00eancia, pois precisaria de percorrer carruagens e observar compartimentos, antes de encontrar o alvo que pretendia abater. Na \u00e9poca, era a esta\u00e7\u00e3o de Paialvo que servia Tomar, por estrada, n\u00e3o existindo ainda o ramal ferrovi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Escreveu-se, entre outras motiva\u00e7\u00f5es do atentado, que Jo\u00e3o de Freitas procurava Afonso Costa, mas n\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel que os confundisse. Jo\u00e3o de Freitas, como pol\u00edtico, deveria conhec\u00ea-los pessoalmente, e saber a quem estava a atingir.<\/p>\n<p>O que se passou nesse compartimento do r\u00e1pido, \u00e9 narrado pelo pr\u00f3prio Jo\u00e3o Chagas, no seu Di\u00e1rio (Di\u00e1rio de Jo\u00e3o Chagas, vol. 3):<\/p>\n<p><em>Em 15 de maio, uma revolu\u00e7\u00e3o destituiu o governo Pimenta de Castro e restabeleceu a Constitui\u00e7\u00e3o. Neste grande apuro, fui mais uma vez presidente do Conselho.<\/em><\/p>\n<p><em>Em viagem do Porto para Lisboa, aonde ia assumir mais uma vez essas responsabilidades, um senador da Rep\u00fablica tentou assassinar-me. Recebi tr\u00eas tiros dos cinco que desfechou sobre mim, estando eu sentado ao lado de minha mulher, num compartimento de primeira classe. Em resultado desta agress\u00e3o, perdi o olho direito. (\u2026) De tudo o que se passou conservo uma lembran\u00e7a s\u00f3 e essa muito grata \u2013 a do amparo que minha mulher me deu quando estive para perder a vida. Ainda a estou vendo, nessa terr\u00edvel noite de 16 de maio e enquanto eu ca\u00eda prostrado pelos tiros que me feriram, correndo para o sinistro malfeitor. Sinto ainda na minha m\u00e3o a press\u00e3o da sua, enquanto o comboio rolava pra Lisboa, e o meu sangue corria a jorros.<\/em><\/p>\n<p>O que aconteceu a seguir \u00e9 que se torna mais complexo. Seguindo as diversas not\u00edcias dadas na imprensa, e depois o que se foi escrevendo sobre o assunto, fica-se sem saber como morreu o senador, que at\u00e9 era uma figura respeit\u00e1vel, tinha sido professor, deputado, e depois senador, fun\u00e7\u00e3o que exercia \u00e0 data do atentado.<\/p>\n<p>Num dos textos lidos, se diz que ter\u00e1 sido dominado pelo acompanhante de Jo\u00e3o Chagas, Paulo Falc\u00e3o, que o entregou \u00e0 GNR, atingindo-o esta com um tiro de carabina.<\/p>\n<p>A not\u00edcia correu al\u00e9m-fronteiras e chegou a Fran\u00e7a. Jo\u00e3o Chagas tinha sido ministro de Portugal em Fran\u00e7a at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, tinha o seu c\u00edrculo de amigos e casa em Paris, era conhecido.<\/p>\n<p><em>Le journal<\/em>, \u00f3rg\u00e3o de imprensa franc\u00eas, no dia 18 de maio noticiava que o sr. Chagas tinha sido mortalmente ferido, e que o assassino n\u00e3o tivera tempo de fugir, pois os soldados encarregados do servi\u00e7o de ordem na esta\u00e7\u00e3o de Entroncamento, tinham descarregado as suas armas sobre ele, matando-o logo. Quanto ao indigitado primeiro ministro, o seu estado era de tal modo grave, que se esperava uma morte pr\u00f3xima, que n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>Uma outra not\u00edcia, esta do jornal <em>A Vanguarda<\/em>, d\u00e1 uma vers\u00e3o completamente diferente dos factos:<\/p>\n<p><em>O Dr. Jo\u00e3o de Freitas, ap\u00f3s despejar as cargas do rev\u00f3lver, entrega-se \u00e0 pris\u00e3o\u2026 Mal soaram os tiros, os habitantes da pequena povoa\u00e7\u00e3o correm ao vil\u00f3rio a armar-se do que apanham \u00e0 m\u00e3o: rev\u00f3lveres, bombas, punhais, cacetes. E come\u00e7am o supl\u00edcio. Primeiro agridem-no \u00e0 paulada\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>Quando o levaram para a sala da 1.\u00aa classe, agonizava. J\u00e1 n\u00e3o se podia ter de p\u00e9. Estava moribundo.<\/em><\/p>\n<p><em>A massa encef\u00e1lica e o sangue corriam-lhe pelas faces, dando-lhe um aspeto horroroso e terr\u00edvel. Passadas quase duas horas de torturas infames e quando seria j\u00e1 cad\u00e1ver \u00e9 que partiu o tal tiro, que nem h\u00e1 a certeza de lhe haver acertado. Ainda que lhe acertasse, mataria \u2026 um morto, linchado pelo povo em pleno S\u00e9culo XX.<\/em> (A Vanguarda, 21-05-1915)<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m o historiador Oliveira Marques escreveu que Jo\u00e3o de Freitas foi morto pelo povo indignado.<\/p>\n<p>Que povo do Entroncamento \u00e9 este que, entre as onze e a meia noite, est\u00e1 na esta\u00e7\u00e3o a ver passar os comboios, e estamos a falar de 1915, quando, nessa \u00e9poca, o povo oper\u00e1rio se deitava cedo, porque tamb\u00e9m se levantava de madrugada? E como \u00e9 que uma aldeia t\u00e3o pequena, como era naquela altura o Entroncamento, d\u00e1 origem \u00e0 multid\u00e3o linchadora de que falam algumas not\u00edcias?<\/p>\n<p>Estarem l\u00e1 soldados da GNR ou de outra for\u00e7a de seguran\u00e7a, seria normal, tinha havido uma revolu\u00e7\u00e3o, e era habitual a esta\u00e7\u00e3o do Entroncamento estar ocupada por tropas sempre que havia turbul\u00eancia pol\u00edtica. A sua situa\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e a utiliza\u00e7\u00e3o do comboio como meio privilegiado de desloca\u00e7\u00e3o justificavam cuidados de seguran\u00e7a e presen\u00e7a de for\u00e7as da ordem. Mas uma multid\u00e3o, ou o povo do vil\u00f3rio, como se escreveu, parece algo deslocado da realidade.<\/p>\n<p>A morte do senador Jo\u00e3o de Freitas \u00e9 uma nebulosa. \u00a0Talvez quem se tenha aproximado mais da verdade tenha sido o historiador Vasco Pulido Valente, ao atribuir a morte aos carbon\u00e1rios do Entroncamento. Carbon\u00e1rios eram indiv\u00edduos treinados para ferir e matar, grupos organizados, e haveria um no Entroncamento, uma cho\u00e7a carbon\u00e1ria organizada ainda em tempo da monarquia, que na altura da sua funda\u00e7\u00e3o envolvia ferrovi\u00e1rios, como n\u00e3o podia deixar de ser, e tamb\u00e9m militares da Escola Pr\u00e1tica de Cavalaria de Torres Novas.<\/p>\n<p>Brito Camacho, num dos seus livros (Por cerros e vales), fala-nos da morte do senador, que lhe ocorria sempre que passava no Entroncamento:<\/p>\n<p><em>Muita arboriza\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda, montados e olivais, terras planas e de semeadura \u00e0 direita, e eis-nos chegados ao Entroncamento, que j\u00e1 hoje \u00e9 vila, e nem sequer era aldeia, h\u00e1 quarenta e tantos anos, quando eu por ali passava, estudante em f\u00e9rias, viajando na terceira, com as comedorias num taleigo.<\/em><\/p>\n<p><em>Nunca passo por aqui, depois de 1915, que n\u00e3o evoque a mem\u00f3ria desse pobre Jo\u00e3o de Freitas, homem de bem na mais larga ace\u00e7\u00e3o da palavra, levado \u00e0 pr\u00e1tica de um crime por alucina\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica, que havia muito lhe conturbava o esp\u00edrito.<\/em><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Chagas, que ficou vivo, embora sem um olho, mas continuou a escrever, entendeu que o crime tinha sido cometido por fanatismo pol\u00edtico, e ter\u00e1 sido certamente, fruto das rivalidades pol\u00edticas do republicanismo.<\/p>\n<p>Muitas coisas aconteceram na esta\u00e7\u00e3o do Entroncamento, envolvendo figuras de relevo nacional, normalmente a passagem desses ilustres pela esta\u00e7\u00e3o, onde as comitivas e o povo os vinham ver e aplaudir, se era caso disso. Mas um linchamento \u00e0 noite, a horas mortas, com o pormenor b\u00e9lico de irem os linchadores a casa armar-se de paus, bombas e punhais, n\u00e3o se percebendo para que era tanto aparato, se o visado era s\u00f3 um, colocam o povo do Entroncamento na Hist\u00f3ria, ainda que os testemunhos sejam contradit\u00f3rios.<\/p>\n<p>Pode ser que algum perdido arquivo, ou carta, ou confiss\u00e3o feita a amigo, em pap\u00e9is resgatados do esquecimento, aclarem esta morte obscura, e decidam de vez se o povo linchou ou n\u00e3o linchou.<\/p>\n<p>Manuela Poitout<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuela-poitout-tera-o-povo-do-entroncamento-participado-num-linchamento-na-estacao-ferroviaria\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos da Primeira Rep\u00fablica, ter\u00e1 o povo do Entroncamento participado num linchamento, na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria? 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