{"id":10067,"date":"2019-08-09T17:10:57","date_gmt":"2019-08-09T16:10:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=10067"},"modified":"2019-08-25T23:30:28","modified_gmt":"2019-08-25T22:30:28","slug":"manuela-poitout-ate-o-dr-ricardo-jorge-criticou-o-restaurante-da-estacao-do-entroncamento-e-a-doer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuela-poitout-ate-o-dr-ricardo-jorge-criticou-o-restaurante-da-estacao-do-entroncamento-e-a-doer\/","title":{"rendered":"MANUELA POITOUT | At\u00e9 o Dr. Ricardo Jorge criticou o restaurante da esta\u00e7\u00e3o do Entroncamento, e a doer"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1174\" aria-describedby=\"caption-attachment-1174\" style=\"width: 271px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1174\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelaPoitout.jpg\" alt=\"\" width=\"271\" height=\"292\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1174\" class=\"wp-caption-text\">Manuela Poitout manuelapoitout@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>N\u00e3o sei se algu\u00e9m se lembra da hist\u00f3ria contada por O. P. Brito, da sopa a escaldar. Era uma hist\u00f3ria antiga, de antes de 1876, contada por Alberto Pimentel num seu Guia do Viajante, e que O. P. Brito recuperou numa das suas cr\u00f3nicas.<\/p>\n<p>Nesses idos de oitocentos, havia mudan\u00e7a de comboio no Entroncamento, e um pequeno intervalo para jantar, reservado \u00e0s classes endinheiradas.<\/p>\n<p>Segundo Alberto Pimentel, no restaurante da esta\u00e7\u00e3o do Entroncamento a sopa era propositadamente servida bem quente, de modo que o cliente, que j\u00e1 tinha pago o jantar, n\u00e3o o conseguia comer, devido ao pouco tempo de que dispunha.<\/p>\n<p>Pimentel zurziu com vigor o restaurante, e essa publicidade foi m\u00e1 para a imagem da esta\u00e7\u00e3o que era ent\u00e3o das mais conhecidas.<\/p>\n<p>Escreveu ele no j\u00e1 citado Guia do Viajante: \u201cTodavia, como tu, se vieres do Porto no comboio misto descendente, aqui deves chegar \u00e0s 4 e 20 minutos da tarde, hora de jantar, deixa-me prevenir-te de que durante esses trinta minutos de demora \u00e9 servido no <strong>restaurant<\/strong> o mais confuso, o mais pandem\u00f3nico jantar de que h\u00e1 not\u00edcia. Se quiseres atrai\u00e7oar desapiedadamente o est\u00f4mago, (&#8230;) senta-te \u00e0 mesa, onde o prato da sopa fumega pavorosamente, escalda com o primeiro sorvo a goela e o es\u00f3fago, incomoda-te, atordoa-te no pandem\u00f3nio da sala, onde os criados se enlabirintam intencionalmente para servirem mal, e levanta-te desesperado, verdadeiramente desesperado, &#8211; sem haveres comido e tendo pago 500 r\u00e9is.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 mem\u00f3ria nos fastos pantagru\u00e9licos de t\u00e3o leve e t\u00e3o tormentoso jantar, &#8211; por tanto dinheiro. Tr\u00eas ou quatro pratos perpassam pela gente com uma rapidez vertiginosa, de modo que mal lhes podemos tocar, e para sempre desaparecem na onda revolta. Depois&#8230; fica-se esperando pelo jantar, e, quando a gente cuida ver acalmar a tormenta, d\u00e1-se o sinal de partida, e come\u00e7am os passageiros a correr tumultuosamente para o vag\u00e3o, &#8211; protestando! (&#8230;) Os jornais t\u00eam falado algumas vezes destas cenas tumultu\u00e1rias do <strong>restaurant<\/strong> do Entroncamento, e, ainda outro dia, uma correspond\u00eancia de Coimbra para o Di\u00e1rio de Not\u00edcias referia que os passageiros, entre os quais figurava o ilustre professor, sr. Augusto Soromenho, haviam protestado que n\u00e3o se levantariam da mesa sem ter jantado. Parece que dessa vez o comboio se resolveu a esperar pelo jantar.\u201d<\/p>\n<p>Seria esta uma hist\u00f3ria para esquecer se, depois disso, os concession\u00e1rios do bufete se tivessem aprimorado no servi\u00e7o, mas na d\u00e9cada de vinte, do s\u00e9culo seguinte, apareceram novas queixas. Num estudo, encontrei um excerto da autoria do c\u00e9lebre m\u00e9dico, investigador e higienista Ricardo Jorge, no qual ele se refere ao restaurante da nossa esta\u00e7\u00e3o em termos ainda mais deprimentes do que os anteriores.<\/p>\n<p>Fiquei curiosa e decidi comprar o livro onde essa cr\u00edtica est\u00e1 escrita. Encontrei-o num alfarrabista, e n\u00e3o dou por perdido o dinheiro gasto, antes pelo contr\u00e1rio. Ricardo Jorge era culto e viajado, e escrevia muito bem. Este livro de que falo, <em>Passadas de erradio, <\/em>\u00e9 uma compila\u00e7\u00e3o de cr\u00f3nicas de viagem. L\u00ea-lo \u00e9 um prazer e uma constante aprendizagem.<\/p>\n<p>Desviar-me-ei agora um pouco da mat\u00e9ria que estava a abordar, para mostrar qu\u00e3o enriquecedoras estas cr\u00f3nicas podem ser, consoante o gosto dos leitores. Na primeira delas, foi o m\u00e9dico a Floren\u00e7a, e o que nos descreve com mais realce n\u00e3o s\u00e3o os museus e os pal\u00e1cios, que perpassam pelo texto, mas a vinda de Mussolini \u00e0 cidade que o autor chama florida de nome e de emblema. Omito a interessante an\u00e1lise do Dr. Ricardo Jorge sobre o Duce, e a apote\u00f3tica rece\u00e7\u00e3o que lhe fizeram, que valem bem a pena ler, para me deter num pequeno epis\u00f3dio.<\/p>\n<p>No final da viagem de Paris para Turim, que foi feita de comboio, Ricardo Jorge deu de caras, na esta\u00e7\u00e3o de Turim, com um grupo de camisas negras, jovens fascistas que saudaram um camarada vindo no comboio, de bra\u00e7o estendido e gritando \u2013 eja, eja! alal\u00e1, alal\u00e1!<\/p>\n<p>Ricardo Jorge fez, sobre isto, o seguinte coment\u00e1rio: \u201c\u2026 ritualizou-se esta sauda\u00e7\u00e3o que dizem ser \u00e0 romana. A crer nos arque\u00f3logos, n\u00e3o era assim que trocavam a salva\u00e7\u00e3o os togados do forum; a contin\u00eancia dos fascistas n\u00e3o seria afinal sen\u00e3o o cumprimento usado entre os gladiadores do circo\u201d.<\/p>\n<p>Em janeiro de 1924, o ilustre m\u00e9dico voltou a viajar, desta vez para Madrid, viagem que motivou novo texto do qual faz parte a cr\u00edtica a que me refiro, e que transcrevo: \u201cQuem demandar terras do Cid, n\u00e3o direi que fa\u00e7a testamento, mas tem de preparar-se para o que der e vier. Alforge de comest\u00edveis e bebest\u00edveis, como nos tempos da montada e da liteira, \u00e9 de rigor \u2013 porque o restaurante do Entroncamento usurpa o t\u00edtulo, tornou-se locanda muitos furos abaixo da mais \u00ednfima tasca da Mouraria, salvo no pre\u00e7o. As avaras vitualhas s\u00e3o intrag\u00e1veis, a \u00e1gua turva e salobra; para desafogo da indigna\u00e7\u00e3o, causada pela sujice da mesa e da baiuca, n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o que reparar nos camareiros, porque ningu\u00e9m sofrear\u00e1 uma gargalhada, vendo-os a servir a chanfana\u2026 de smoking\u201d.<\/p>\n<p>O dr. Ricardo Jorge era uma pessoa influente e conhecida, \u00e9 muito plaus\u00edvel que tenha feito chegar a sua opini\u00e3o \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o da CP, ainda antes deste apontamento no seu texto sobre a viagem a Espanha, porque bastas vezes h\u00e1-de ele ter passado no Entroncamento, dada a frequ\u00eancia com que viajava, umas vezes por recreio, outras para representar Portugal em congressos m\u00e9dicos.<\/p>\n<p>N\u00f3s s\u00f3 o conhecemos do Instituto Ricardo Jorge, a que ele deu o nome, mas a sua influ\u00eancia era tal nos anos vinte, que quando chegou a Coca-cola a Portugal, ele desaconselhou o seu consumo e ter\u00e1 sido proibida devido \u00e0 sua opini\u00e3o. A primeira frase publicit\u00e1ria para a bebida tinha sido feita por Fernando Pessoa \u2013 <em>Primeiro estranha-se, depois entranha-se. <\/em><\/p>\n<p>A frase \u00e9 conhecida, o autor n\u00e3o sei se ser\u00e1<em>. <\/em>A presen\u00e7a de coca no nome e possivelmente no produto, a bebida que se entranhava, ter\u00e3o motivado a proibi\u00e7\u00e3o. At\u00e9 1977, quando teve enfim permiss\u00e3o de entrar no mercado, Coca-Cola, a tal\u2026<\/p>\n<p>Da influ\u00eancia do Dr. Ricardo Jorge na melhoria da qualidade do restaurante da esta\u00e7\u00e3o do Entroncamento, nada se sabe.<\/p>\n<p>At\u00e9 1929, n\u00e3o ter\u00e1 havido grandes mudan\u00e7as, porque ainda apareceu uma cr\u00f3nica, publicada no Di\u00e1rio de Not\u00edcias americano, uma publica\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas para emigrantes em terras do tio Sam, na qual se menciona o pre\u00e7o exorbitante do ch\u00e1 do bufete do Entroncamento: \u201cQue chazinho, amigo leitor! Um expoente infinito aplicado ao ch\u00e1 de Tolentino, aquela sete vezes fervida e refervida mistela do vate lisboeta. E d\u00e1 para c\u00e1 cinquenta centavos por cada ch\u00e1vena!<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito n\u00e3o sei quem contou a hist\u00f3ria do pen\u00faltimo arrematante do bufete que, durante a guerra, fez um fortun\u00e3o a vender infuso de folhas a peso de oiro! Se j\u00e1 o outro dizia \u2013 A terra \u00e9 boa, a gente n\u00e3o \u00e9 m\u00e1. A \u00e1gua \u00e9 deles e n\u00f3s vendemo-la.<\/p>\n<p>Por sim, por n\u00e3o, se estas linhas prenderem a aten\u00e7\u00e3o de algum dos diretores da CP, que a sua a\u00e7\u00e3o se exer\u00e7a para que daquela coisa que se chama pomposamente o bufete do Entroncamento, como a F\u00e9nix mitol\u00f3gica, um restaurantezinho modesto, mas decente.\u201d<\/p>\n<p>Creio que, antes de \u201cum restaurantezinho\u201d, falta o verbo nas\u00e7a ou renas\u00e7a, para que a frase fique completa, mas mesmo sem ele, percebemos perfeitamente o pensamento do autor.<\/p>\n<p>At\u00e9 esta data, ou seja, 1929, parece que o \u00fanico escritor que disse maravilhas do restaurante da esta\u00e7\u00e3o, foi Hans Christian Andersen, em 1866.<\/p>\n<p>Manuela Poitout<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/manuela-poitout-ate-o-dr-ricardo-jorge-criticou-o-restaurante-da-estacao-do-entroncamento-e-a-doer\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei se algu\u00e9m se lembra da hist\u00f3ria contada por O. 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