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Na vila de Constância a tradição de fazer piqueniques vem de longe. Debaixo dos salgueiros do Tejo, no Pinhal D’ El Rey (entretanto destruído pelo município), nas margens do “rio” (Zêzere) passando pelas fontes Férrea e Velha, ou mesmo pela Charneca, vários eram os locais eleitos  quer pelas famílias mais aburguesadas  quer pelas famílias comuns, para confraternizarem.

Piqueniques dos anos 20 a 40 do século passado, em Constância: Pinhal D’El Rey, margem do Tejo e Charneca/campo.

A foto em cima à direita, do conjunto com quatro fotos,  retrata um piquenique por volta de 1920, na margem do Tejo, junto à Quinta da Légua, antiga propriedade da família Corte-Real. À esquerda, em baixo, sentada, está Guilhernina Guia, de apelido “Pirra” a qual serviu de modelo para o anjo das tranças da alegoria de José Malhoa da Assunção de Nossa Senhora, quadro do tecto da Matriz da nossa vila. A espreitar, na árvore, está uma criança, Augusto Alves Soares nascido em 1911, sobrinho do médico  e grande agricultor, Dr Francisco Augusto da Costa Falcão (este médico era mecenas de Columbano e patrocinador da obra de Malhoa). Augusto Soares, um saudoso amigo que me facultou cópia da referida foto e que me transmitiu informação privilegiada sobre factos e tradições locais. Logo à sua frente está o médico Dr José Eugénio de Campos Godinho, antigo delegado de saúde e fundador da Legião Portuguesa na vila, filho do indefectível republicano, José Eugénio de Nunes Godinho (este  trazia a Constância para o seu palacete, António José de Almeida e outros nomes do republicanismo).  Na foto encontram-se membros da família Burguete (pertenciam a esta família  o padre João Alves Meira que contratou Malhoa  bem como António Alves Meira simpatizante da Carbonária…).

Nestes convívios na margem dos rios, com direito à música e fotografia, discutia-se sobre a actualidade.  E com etiqueta.  Não sei se Malhoa teria escolhido o seu “anjo” por ocasião de algum destes piqueniques. Na vila falava-se  ainda que o rosto de Nossa Senhora foi pintado tendo como modelo a mulher de um engenheiro da família Sommer que para aqui veio aquando da construção da ponte sobre o Zêzere. O tempo passa, os velhos vão desaparecendo, mas fica o testemunho que nos legaram.

Na primeira foto  do mesmo conjunto temos um piquenique no Pinhal D’El Rey, anos 40(?) em que ao centro surge o maestro da Filarmónica “Primeiro de Dezembro”,  Carlos Amadeu Saraiva Silvares de Carvalho, militar e fundador do rancho “Flores de Constância”. Segundo a minha mãe era comum o meu avô promover esses piqueniques no Pinhal, antigo pulmão da vila. Ao longo percebe-se a curva do Tejo  onde se quebra a mansa veia, no dizer do poeta…

Esta foto foi-me oferecida pela viúva de um dos “confrades” no caso em grande plano, o Talhadas.

Mais uma vez lá estava o fotógrafo. Ainda conheci o Pinhal D’El Rey,. Pouco resta desse ecossistema de espécies raras. Vieram os planos directores municipais, foram-se os velhinhos planos de urbanização. Veio o betão e a descaracterização  da paisagem e veio a desertificação  da zona histórica da vila. Já não há piqueniques que resistam a esta metamorfose…

Nas margens dos rios os areais há muito destruídos pela extracção desenfreada e gananciosa  já não conservam a beleza e o encanto de outros tempos  Já não se vêem os barcos com as famílias em busca da sombra e da frescura e da brisa do rio. Na terça-feira de Praia, logo a seguir à Segunda-Feira de Nossa Senhora da Boa Viagem, era costume os marítimos fazerem um piquenique com caldeirada, nos rios, em que se transmitia a bandeira para assinalar a passagem de testemunho aos novos festeiros

Numa  outra foto temos um pequeno aqueduto/ponte,  das Águas Férreas, junto a Constância, mas na margem sul do “rio” (Zêzere).  Diz-se nas Limeiras que antigamente  as senhorinhas de Constância vinham para aqui buscar água e algumas aproveitavam para namorar.  O sítio é escondido e fica acima do Lagar do Rio. Ouvi o testemunho duma antiga cozinheira da Gulbenkian, Fernanda Josefa, filha do padeiro Joaquim Alves, a qual me contou que antigamente iam para a Fonte férrea  fazer piqueniques. Já explorei o local e bebi daquela água corrente, num local mais abaixo, e senti-me muito bem.  Tenho cópia duma publicação sobre a Notícia destas águas, de 1799. É assunto para um desenvolvinento  autónomo pois existe um historial de alegadas curas  com base nestas águas, ao longo dos tempos e até mais recentemente.

Quando eu andava na catequese nos anos 70,  a paróquia também organizou um piquenique perto da Quinta de Santa Bárbara. O sr Álvaro, chauffeur da Casa Agrícola, Themudo, levava jarros de sumo/refresco  que transportava na carrinha a mando da Dona Maria José Falcão. Havia sandes com fartura. E a apanha obrigatória dos pinhões. O caminho até ao local, sinuoso, com florestação por vezes densa e agressiva, era para nós uma pequena aventura.  A meio caminho havia paragem  obrigatória na Ti Rita do sr António Marques, para refrescar a boca com tragos numa concha corticeira. E havia sempre tremoços. Que gente tão bondosa.

Mais tarde as crianças da minha rua e vizinhança fizeram um piquenique junto ao depósito da água. Há quem tenha as fotos.

Os piqueniques eram uma oportunidade para o convívio social. E para a socialização.

Deles terão saído namoricos, negócios, conspirações. Disseram-me que era costume fazerem piqueniques nos pequenos areais do “rio” (Zêzere) perto do Vale Escuro.

As praias convidavam ao merendar.

Nas últimas décadas tentou-se  construir na vila um açude no “rio”.  A hidráulica tratou de criar obstáculos a esse projecto. Abrantes, mercê das influências do PS, passou-nos a perna… e conseguiu o açude.

Um dia no Gavião, ainda confrontei  José Sócrates com os problemas da aprovação do açude, última fase do chamado POMTEZE, ordenamento das margens dos rios. Na altura Sócrates creio que era ministro do ambiente . Deu-me uma resposta arrogante, tendo ficado incomodado. O assunto foi publicado na “Gazeta do Tejo’.

Há dias li numa entrevista que o actual autarca de Constância quer levar por diante o projecto da praia do “rio”.  A médio prazo.

Os piqueniques voltarão?
Ou é tudo uma miragem.
Sonhar não faz mal a ninguém.
Oxalá!…

José Luz (Constância)
PS – não uso o dito AOLP.

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