Manuela Poitout manuelapoitout@entroncamentoonline.pt

Andando eu em digressão de leitura pela imprensa local dos anos 80, fui cair em plena polémica da demolição ou não do mercado diário já inativo.

Os argumentos a favor da demolição eram de que tal contribuiria para o aformoseamento do largo José Duarte Coelho, tornando-o mais amplo e dando mais protagonismo ao edifício da Câmara; e de que o edifício estava a cair de podre, e nada se aproveitava nele.

Já não era a primeira vez que passávamos por estas provações patrimoniais, estão lembrados do prédio Paris, mas antes desse houve uma outra história bem interessante.

Vou transcrever um documento, uma folha ou boletim paroquial de 13 de março de 1977, separando as duas partes que nele aparecem, ou seja uma carta da Câmara ao pároco e a resposta do mesmo.

A carta é de 25/5/1974, no pleno alvoroço do muito recente 25 de abril, em que ainda mal refeita da mudança de regime político, a Câmara resolveu logo arregaçar as mangas e começar o trabalho pelo alargamento de uma rua. Por coincidência, mesmo uma grande coincidência, para alargar, tinha de se tirar a capela das Vaginhas do seu sítio.

Não interessava que se tratasse do nosso monumento mais antigo, que fosse quase o único vestígio da antiga Vaginhas, que tivesse sido durante três séculos local de referência religiosa para a comunidade, o que interessava era alargar a rua, e precisamente por aquele sítio, nem mais à direita, nem mais à esquerda.

Argumento de peso, o mesmo de sempre: estava em tal ruína, que nela nada se poderia aproveitar.

Mas vamos à carta:

Para conhecimento de V. Ex.ª cumpre-me transcrever o parecer emitido pelos Serviços Técnicos desta C. M., com o qual se concorda:  

“A capela está em muito mau estado, no respeitante à cobertura. O seu valor arquitetónico e a sua manutenção no local em que está, terá que ser modificado para conveniente alargamento da rua, conforme projeto já aprovado. Conviria no entanto manter na zona uma capela com o mesmo nome, por motivos tradicionais.”

Em 1977, a capela estava no mesmo sítio, não havia ainda aquele método de limpar o local numa noite, como aconteceu com o Chafariz do Mercado, e o pároco de então, padre João Gonçalves, entendeu dar explicações sobre o assunto aos seus paroquianos.

Redige então o boletim, documento muito simples constando de uma folha policopiada, com a carta de 1974 em primeiro lugar e a sua proposta para solução do assunto, a seguir.

O argumento de que daquela ruína nada se aproveitaria, deve ter sido tão demolidor, que o pároco cedeu à ideia de fazer novo e diferente, influenciado talvez por umas modas que estavam a correr o país, de erigir novos templos com traças semelhantes, uns edifícios modernos que se começaram a ver por todo o lado. Era a sua boa vontade de ajudar a resolver o assunto, que por sorte não se resolveu, ou por sorte se resolveu de outra maneira, mantendo a capela onde estava.

Eis a segunda parte do boletim:

Desde então a Paróquia tem feito diligências para solucionar o problema. Neste momento, os técnicos dizem que nem as paredes se podem aproveitar, dado que, construídas com adobes e sem fundações capazes, não suportariam as necessárias obras de reparação.

O projeto para ali sugerido é o que, dentro dum estilo atual, melhor parece respeitar as linhas do edifício ali existente, contribuindo para embelezar o local onde teve o seu primeiro berço a povoação que é agora o Entroncamento. Para recordar o edifício primitivo, sugerimos a colocação dum painel de azulejo, que talvez pudesse ser oferta dos moradores da zona.

O Edifício deverá ser recuado em relação ao atual, criando um maior espaço para o Largo de S. João. Quanto ao resto, terá as mesmas dimensões do atual e ficará preparado para responder a algumas necessidades prementes do nosso meio e da paróquia.

Podem pois parar as campanhas e os boatos que em nada servem os interesses da população mas visam somente alimentar o espírito mesquinho e a intriga. A obra precisa da boa vontade de todos, pois é do interesse de todos.

A obra não era do interesse de todos, e por isso não teve a boa vontade de todos, e não se fez, mas nem sempre estas conjugações resultam. A capela lá continua, sinal de que suportou as obras que depois foram feitas.

No caso do mercado municipal houve, na verdade, uma oposição forte à sua manutenção, mas mais uma vez as decisões foram favoráveis (o voto de qualidade do presidente José Cunha).

Ficou ao cargo do Gabinete de Apoio Técnico (GAT) a elaboração do projeto, aproveitando o mais possível a estrutura existente.

Naquele mar de escombros, que se dizia ser o que restava do mercado, brilhou uma centelha de algo que era valioso, que valia a pena manter.

Transcrevo do projeto:

Dispõe a Câmara do Entroncamento do Entroncamento de um edifício onde até há pouco tempo funcionou o mercado municipal e se localiza em pleno centro da vila, frente aos Paços do Concelho, no meio de um amplo espaço com fortes tradições de vida urbana.

O edifício de planta retangular data dos princípios deste século e é constituído por uma estrutura de ferro onde assenta a cobertura em fibrocimento e uma envolvente em alvenaria. Esta estrutura de ferro, característica dos finais do século XIX, cujos exemplares vão rareando cada vez mais no nosso País e de que é exemplo único no concelho do Entroncamento, encontra-se em razoável estado de conservação, razões pelas quais encarou a Câmara a adaptação do edifício a novas funções. (O acentuado a negrito é meu).

Confesso: sempre que assisto a qualquer evento no Centro Cultural, não dou muito por aquela estrutura metálica, de tal modo ela está integrada no espaço, mas sei que ela está lá. Não há dúvida de que é uma raridade a nível concelhio, e vai sendo a nível nacional, uma estrutura com chancela de qualidade, executada pela Construtora Moderna de Pedrouços, à qual se deve a construção do Hotel Aviz, e no capítulo de mercados, o de Almeirim e a construção metálica do do Barreiro.

A mensagem que quero passar, com este exemplo, para além do valor de determinados detalhes arquitetónicos, neste caso a estrutura metálica, é que também acho que a estética e a beleza são importantes nos espaços urbanos, mas não à custa da destruição de memórias do passado, que no caso do Entroncamento são poucas.

Transcrevo da Carta Europeia do Património Arquitetónico uma parte respeitante ao valor educativo das construções de épocas passadas:

O património arquitetónico tem um valor educativo determinante. Ele oferece um manancial privilegiado de explicações e de comparações do sentido das formas e uma fonte de exemplos das suas utilizações. Ora, a imagem e o contacto direto adquirem de novo uma importância decisiva na formação dos homens. Importa por isso conservar vivos os testemunhos de todas as épocas e de todas as experiências. A sobrevivência destes testemunhos não estará assegurada se a necessidade da sua proteção não for compreendida pela grande maioria das pessoas e especialmente pelas gerações mais jovens que terão amanhã responsabilidade sobre eles.

Quanto ao valor educativo do património de que se trata aqui, o antigo mercado municipal, recordo o que a equipa do GAT escreveu a seu respeito: Que ele se localiza num amplo espaço com fortes tradições de vida urbana.

Assim é, na verdade. Ali foi o pulmão económico do Entroncamento, o sítio de todas as feiras e mercados, de gados, de cereais, mercado diário, feiras mensais, feira anual de abril. Ligar o mercado ao seu tempo é conhecer uma boa parte da história do Entroncamento.

E recordo mais um detalhe patrimonial, sobre o qual escrevi em tempos, um painel figurativo e placas cerâmicas que decoram o bar da estação do Entroncamento, o primeiro com a locomotiva D. Luís, e as placas com desenhos geométricos de quadrados e círculos rematados por cercaduras, tirando partido da textura dos materiais e das cores, no caso das placas os azuis e os amarelos.

Foi seu autor Luís Ferreira da Silva, um dos ceramistas de maior relevo do século XX e início do século XXI. Nasceu em 1928 e morreu em 2016.

Inovador, criativo, produziu bastantes peças, entre elas as que se encontram no Entroncamento, seguramente as placas, provavelmente o painel com a locomotiva.

Foi um trabalho executado pela SECLA, a fábrica das Caldas da Rainha cujo prestígio chegou até aos Estados Unidos, e para o qual muito contribuiu Ferreira da Silva, que ali teve durante anos o seu ateliê.

As peças da sua autoria foram comercializadas nos Estados Unidos, e estiveram lá em exposição, na sede da Architectural League of New York, na 5.ª Avenida. Um dos maiores colecionadores privados dessas peças foi Ingvar Kamprad, fundador da cadeia IKEA.

Saibamos valorizar o nosso património. O passado faz parte do futuro.

Manuela Poitout