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Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt

Pela primeira vez, desde que se realizam os Censos oficiais da população e da habitação em Portugal, o número de residentes no concelho do Entroncamento sofreu uma redução. De acordo com os resultados preliminares dos Censos de 2021 em Portugal, ontem publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o município do Entroncamento registou no momento censitário considerado (em 19 de abril deste ano) uma população de 20 140 pessoas, menos 0,3 por cento do que se verificava em 2011, altura em que o Entroncamento averbava a presença de 20 206 habitantes. Por territórios, e analisando a cidade pelas suas frações a noroeste e a sudeste dos caminhos de ferro, verifica-se que a urbe apresenta uma dissemelhança na sua evolução, o que se tem acentuado, aliás, ao longo dos anos, e é mais escrutinável desde que os seu territórios foram institucionalizados como freguesias. Assim, enquanto a freguesia de Nossa Senhora de Fátima, a freguesia a noroeste, resiste bem, com a sua população a crescer 1,7 por cento (de 12 630 habitantes, em 2011, para 12 851 atualmente, em boa parte desta população devido ao crescimento da população imigrante e de minorias étnicas), a freguesia de São João Batista, mais vulnerável, viu a sua população declinar 3,8 por cento (de 7 576 para 7289), arrastando assim o concelho para um saldo populacional global negativo, a primeira vez que isso sucede entre censos decenais, volte a sublinhar-se.

Têm sido diversos os fatores que têm contribuído para a estagnação da cidade nos últimos anos. Por volta de 1975, trabalhavam na zona oficinal do complexo ferroviário cerca de três mil funcionários, atualmente não são mais de 300 no mesmo perímetro. Mas não foi só a CP que desinvestiu abnegadamente na “cidade ferroviária” (e só não foi absolutamente porque houve uma aposta no Museu Nacional Ferroviário, uma obra notável mas em estado de orfandade e com uma estratégia que quase ignora a atração de visitantes). À ferrovia acrescenta-se a realidade castrense, hoje pouco mais que residual, não havendo até agora também capacidade para a criação de mais empregos qualificados e atrativos para os jovens da cidade, embora eu acredite que isto depende de muitos fatores a convergir, sendo a perda ou alienação do ensino superior no Entroncamento um dos principais.

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É claro que estes resultados que o INE torna agora públicos, e que têm apenas um carácter preliminar, não são totalmente surpreendentes, e o que neles é mesmo mais marcante é o aparente fim de uma era em que o Entroncamento permanecia estoicamente entre os concelhos do país que maior crescimento da população apresentava, sendo mesmo um dos raríssimos municípios fora da faixa litoral do país que apresentava um crescimento.

De resto, a população do país, sofre também um decréscimo, com menos 214 milhares de habitantes que em 2011. Éramos em 2011 cerca de 10, 56 milhões de residentes, e agora vivem em Portugal 10,35 milhões. Mas também nestes números há uma disparidade notável, como se o país estivesse montado num plano inclinado, e em que o Interior, mais montanhoso e elevado, vai perdendo população, que “desce” para o litoral à procura de mais oportunidades de trabalho e de melhor qualidade de vida. Na região do Médio Tejo todos os concelhos veem baixar o número dos seus moradores, alguns com perdas não inferiores a 10 por cento, como Alcanena (-10 por cento), Tomar (-10,4), Sardoal (-10,5) e Abrantes (-12,6). Temos já todo o direito de invocar para o Médio Tejo o estatuto legítimo de Interior, estamos há muitos anos em declínio e, com o hábito, chegará a fase em vias de encerramento. A Barquinha perdeu 3,9 por cento das pessoas, e tem agora 7 035 habitantes, e Torres Novas perdeu sete por cento, tendo atualmente 34 149 habitantes. Noutras regiões, todavia, o caso é ainda mais deprimente, é como se houvesse uma força estranha a sugá-las, até ficar apenas alguém para apagar no final a luz. Concelhos como Nisa, Torre de Moncorvo, Mesão Frio, Tabuaço e Barrancos viram a sua população decrescer em cerca de 20 por cento em apenas 10 anos, prosseguindo assim a sua sangria no que têm de mais vital. Quanto mais rural, interior e menor for o município maior é, em proporção, o dano. Apenas 51 dos 308 municípios (um em cada seis) viram a sua população aumentar na última década, a maioria deles no litoral, no Algarve ou rebordando as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.

António Costa    tem-se esforçado por transmitir à plebe a vontade dos seus governos em corrigir o nefasto plano inclinado da nacionalidade, e até criou uma Unidade de Missão para a Valorização do Interior e viu concluir um Programa Nacional para a Coesão Territorial. Mas a verdade é que não saíram do ovo, nem tiveram grandes efeitos práticos. Está tudo à vista, e basta olhar. Aliás, segundo noticiou recentemente o semanário Expresso, era o tristemente mediático ministro Eduardo Cabrita quem se encarregava de não dar “meios nem autonomia para desenvolver o plano para o Interior”. As verbas da Europa podem chegar ao país, mas não chegam onde faz mais falta. Os números do Censos 2021 agora divulgados pelo INE falam por si. Era de esperar outra coisa?

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