Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt

Há poucos dias, e um pouco no espírito do Dia Europeu sem Carros, realizou-se no Entroncamento, e destinada às crianças das primeiras etapas escolares da cidade, a iniciativa “Vou a pé para a Escola”, alavancada pelo município, pelo agrupamento de escolas e pela PSP da cidade. Um dia destes também podia ser dedicado às bikes

A iniciativa formal é naturalmente elogiável e tem todo o propósito, agregou várias instituições da urbe, teve merecimento noticioso, mas, apesar disso, não posso deixar de escapar um sorriso quando ao contraste entre os dias de hoje e o que sucedia há alguns anos. Nessa altura, uma criança ir a pé de casa para a escola não era notícia. Fazê-lo era natural, apenas mais uma etapa da sua natureza e do seu crescimento, era também tão normal como a aprendizagem que ia ter na escola e o brincar nas ruas mais calmas, nos largos e nos adros das igrejas com os seus colegas, amigos ou vizinhos. Nesse tempo de há décadas não havia a preocupação (ou paranoia?) de superproteção das crianças e jovens que há hoje, alimentada por notícias assustadoras e pelo sentimento de insegurança social generalizada e de desconfiança crónica em relação aos outros. Aos seis anos ia-se para a escola, por vezes longe de casa, a pé e com os colegas; e aos 12 os pré-adolescentes da cidade que prosseguiam os estudos iam ainda de noite para os liceus de Santarém (para o qual tinham de subir ou descer as temíveis e famosas barreiras do Tejo) ou de Tomar e para a Escola Industrial de Tomar, deslocando-se de comboio até essas urbes, expostos também nelas a mais trânsito, mais estradas e mais intranquilidade.

É claro que todas as comparações que envolvam uma considerável distância temporal envolvem o risco de induzir paralogismos e armadilhas falaciosas, para além de poderem provocar animosidades gratuitas e decisões erróneas. A verdade é que, ressalvando esta reserva mental, e com a legislação atual, há apenas trinta anos, muitos dos pais que davam liberdade e responsabilidades aos seus filhos, e queriam obviamente o melhor por eles, teriam, se existissem, e por ironia, de algum dia enfrentar uma Comissão de Proteção de Crianças e Jovens mais zelosa e a querer mostrar serviço.

Infelizmente, pelo ambiente real ou imaginário criado, instalou-se há uns anos um clima psicológico de medo e depressivo, os pais habituaram-se a levar sempre de carro os filhos até ao portão da escola, e sem liberdade é difícil assumir responsabilidades. Entre outras consequências uma é esta: hoje, uma criança de 12 anos tem em média mais cinco quilos que as crianças da mesma idade de há 50 anos, e a falta de atividade física é uma das principais razões desta situação.

Há alguns dias, quiseram os ventos do acaso (que nunca o é em absoluto) soprar-me de novo até à idílica vila da Murtosa, terra marinhoa, pátria de um dos meus pecados gastronómicos favoritos, sejam de caldeirada, fritos ou em molho de escabeche, e deparar-me com uma estimulante realidade, que é histórica, cultural, mas também muito incentivada e estimulada pelo município local. Dantes, as bicicletas estavam na pele de uma região muito plana e onde se vivia humildemente dos recursos mais endógenos da Ria de Aveiro: o moliço, as enguias da ria aberta ou dos canais e esteiros daquela terra de água, o milho e outras culturas ou a produção de conservas de enguias e doutros peixes. Os moliceiros, os pescadores de enguias a correr para a ria e as mulheres para a fábrica de conservas, quase todos os murtoseiros, por pobreza ou opção, faziam das duas rodas o seu meio de transporte. A câmara local apostou, entretanto, com força e critério, numa vasta rede de ciclovias (e vias pedonais), incluindo passadiços, e de passagens ao longo das margens lagunares, bem como numa política sustentada de projetos de incentivo ao uso descarado de bicicletas (mesmo para visitantes), e hoje muitas centenas de alunos (cerca de 90 por cento, segundo a câmara) de todas as idades é assim, que vão calmamente para as suas escolas. As pessoas mais idosas, mesmo com chuva, também o fazem, e agradecem; e às portas das casas ou de estabelecimentos comerciais há sempre incontáveis bikes. Por isso, a Murtosa foi considerada já este ano o município mais amigável da bicicleta como transporte urbano pelo Bike Friendly Index.

O Entroncamento tem características próprias que também a podiam tornar um expoente da bicicleta como meio de transporte urbano preferencial. A cidade é chã e até tem um lastro cultural e histórico muito forte ligado às bicicletas: mesmo nas décadas de 1970 e 1980 ainda era assim que uma mol de operários da CP, das oficinas e de outras instalações, atravessavam como nuvens ininterruptas de bicicletas toda a povoação para se deslocar para o trabalho, para a estação ou de regresso a casa, e era nelas que também iam até às tabernas ou a buscar dois garrafões de água ao Bonito ou às fontes do Castelhano ou da Moita do Norte, em Vila Nova da Barquinha. É verdade que o município tem apostado nos últimos anos em ciclo e pedovias, mas falta algo, pois o que se fez não fez ainda faísca, são poucos os jovens que optam por ir a pé até às escolas e raros os que o fazem de bicicleta. Falta logística, suportes e infraestruturas de apoio, e decerto bicicletas municipais disponíveis e com registo, controlo (com chips antirroubo) e seguro, mas o que é essencial é mesmo a sensibilidade, o estímulo e a motivação para as usar e andar ao ar livre. Como sempre, o espírito antecede a matéria.