João Bianchi Villar joao.bianchi.villar@entroncamentoonline.pt

O caso MRS (e os testes positivos e negativos a que entretanto se sujeitou) vem trazer a lume velhas questões. Talvez a mais dramática e pertinente de todas seja esta: quantos morrem DE Covid 19 e quantos morrem COM Covid 19?

Fiz uma pequena investigação, um pouco por várias línguas, estudos e países, e cheguei a uma (in)conclusão muito curiosa. Não é possível afirmar, com rigor científico, se o número de vítimas de Covid está inflacionado ou, pelo contrário,  se é inferior à realidade. A explicação é simples e não necessita de grandes conhecimentos médicos. A determinação precisa da causa da morte só pode (e deve) ser estabelecida por um exame de anatomia patológica. Isto porque, o óbito, resulta de uma cadeia de acontecimentos onde, no final, pode (ou não) estar o Covid 19. Mais concretamente, se alguém padece de uma insuficiência coronária e é portador de Covid 19 só é possível afirmar que a morte se deveu ao vírus se este se tiver situado como último elo da cadeia fatal e diante de toda uma cadeia de acontecimentos fisiológicos que o precederam. Ou seja, por outras palavras, o vírus pode ter acelerado os processos tanatológicos, tipo reacção em cadeia, perante a resposta do nosso organismo a ele; ou, pelo contrário, o vírus estava presente no organismo e era inócuo e/ou assintomatico, nada tendo contribuído para o desfecho final.

Acresce ao facto que este processo de determinação da causa da morte pela anatomia patológica só é executado numa pequena fracção dos óbitos. Quer pela   falta crónica de número suficiente de profissionais que a executem, quer pelo enquadramento legal da autópsia,  só exigível em determinados casos muito concretos e que não incluem efeitos pandémicos.

Assim, a vexata quaestio subsiste: quantos morrem DE ou COM o Covid 19? Parece uma minudência, mas não é.  O diabo, como sempre, esconde-se nos pormenores e se, como certamente parece, o número de óbitos resultantes de causa directa e derradeira Covid 19 estiver errado, isto terá consequências nada minudentes a final. Ou a estratégia de combate foi errada por ter desvalorizado as reais consequências da pandemia; ou então,  na inversa, vamos todos para casa Quinta-feira à custa de gigantesco erro de avaliação que está a minar a nossa resiliência psicológica e a destruir, paulatinamente, a economia. Pelo menos como ela era até Março de 2020. De qualquer dos modos, quem sabe destes assuntos muito mais do que eu e tem de tomar decisões globais está a faltar à verdade (passo o eufemismo) por excesso ou por omissão. Ou então, por incompetência,  o que é bem pior…

(o autor não segue a grafia do novo (des)acordo ortográfico)