João Bianchi Villar joao.bianchi.villar@entroncamentoonline.pt

“Muslima Aden Abdulrahman mantinha-se junto da pequena sepultura, ajeitando carinhosamente o monte de trapos que envolviam os restos mortais do seu filho de sete anos de idade. A sua filha morrera, também de fome, uns dias antes. Antes mesmo de sua mulher, a qual Muslima transportara durante duas semanas pelo carreiro da fome de Baidoa, no Sul da Somália. “Enterrei toda a minha família”, disse Muslima. “Quase toda a gente da minha aldeia morreu. Já não tenho lágrimas para deitar.”” (Nat. Geog. Magazine, Agosto/93, tradução livre).

Quando oiço falar nestas coisas, não sei porque tortuoso processo de associação mental, tenho tendência para me lembrar daquelas transferências milionárias do reino do futebol. Revolvem-se os intestinos em espasmos gasosos; sai por via gástrica um grotesco testemunho da minha barriga alimentarmente aconchegada. À falta de um protesto mais vernáculo tenho tiques muito íntimos de realidades que me recuso a aceitar. É curioso verificar que, televisivamente falando, após umas quantas imagens de corpos agonizantes nos confins africanos, surgem convenientes, os rostos mais saudáveis de quem, por dominarem com mestria um objecto esférico que se locomove aos pontapés, valem, por si só, toneladas de comezinhos pacotes de farinha ou arroz – é como se a bola fosse o símbolo de um mundo sombrio, e o jogador um instrumento bem pago para chutar com calculado esforço as marcas da miséria dos outros. Paga-se bem a estes psicanalistas que nos extirpam, com a ponta do pé, as recalcadas vergonhas do sofrimento alheio.

Há uns quantos palavrões que me ocorrem ao espírito. Como sempre, cenas viodeográficas da miséria humana acendem-se no ecran televisivo a horas do jantar. Entre uma garfada do suculento repasto e um gole de vulgaríssima água da torneira, assento o meu corpo burguês para mais um Telejornal. Como toda a gente, sou transportado alguns minutos para um mundo do terror que julgava existir somente nos confins da imaginação mais escabrosa. Mas, como sempre, calo os impropérios e encerro tais memórias nas gavetas da cumplicidade do silêncio. Engulo mais um pouco de carne do prato, enquanto outros devoram restos de lixo; despejo mais um pouco de água no copo, enquanto outros se matam pelas últimas gotas de um poço enxague.

Sou tão responsável pela existência de Kakuma, como qualquer seca, como qualquer fome, como qualquer guerrilheiro das ruas de Mogadíscio. Em vez de dinheiro, de comida ou de alojamento aos meninos do Sudão, ofereço uma frase vulgar: “Mas que desgraça!”. Julgo que estas palavras podem desculpar todo o imobilismo hipócrita do meu ser.

Como todos os campos de refugiados do mundo, Kakuma recebe as vítimas do ódio humano. O corno de África despeja áridos locais os frutos anónimos da intolerância ancestral. Não vale a pena distinguir Somália, Sudão, Etiópia ou Eritreia. Os nomes geográficos não têm significado nesta fatia do mundo. Há guerras para todos os gostos; há povos para cada religião; há fome para todas as bocas. Uns dizem-se cristãos e violam as mulheres do inimigo, vendem as crianças como escravas ou, pura e simplesmente, utilizam-nas para práticas de tiro ao alvo; outros dizem-se “libertadores do povo”, ou muçulmanos, e calam esse mesmo povo com um tiro na nuca.

E mesmo nestes campos pejados de gente preterida, o refúgio é manchado pelo sangue do confronto – o Tribalismo fala mais alto que a lenta agonia da fome. Onde se pensava encontrar o descanso das lutas, acende-se mais viva a chama das étnicas diferenças.

Em Kakuma, como no Sudão, os “Dinkas” continuam a luta contra os “Nuers”. E estas tribos em confronto desde a noite dos tempos, são, nesse campo do Quénia o símbolo de incontáveis casos de guerra por essas paragens. Se alguém perguntar como se iniciou o conflito, muito provavelmente receberá o silêncio por resposta – já ninguém dá importância à origem dos factos.

O que realmente tem importância é a pergunta de Steven, um dos 10% de Nuers, no meio de 90% de Dinkas: “Para onde havemos de ir?”, perguntou o jovem Nuer “Fomos expulsos de nossas casas pelo nosso Governo. Mandaram-nos embora da Etiópia. Se não podemos aqui ficar, então que esperança nos resta?” (artigo citado).

Não tenho resposta para Steven. Não sei que fazer às gentes de Kakuma. A única ideia que me resta é a dada pelas palavras do seu próprio povo “Deus só provoca as secas, o homem é que faz a fome”.

João Gonçalo de Aragão de Bianchi Villar

(In Jornal Notícias do Entroncamento, Tribuna dos Gentios, publicado em 25/02/1994)

N.A. Infelizmente, este texto já com mais de 26 anos, poderia ter sido escrito no dia de hoje. Não lhe mudei uma vírgula. Como sempre, o autor não escreve conforme o Novo (des)Acordo Ortográfico de 1991. E, reserva-se ao direito de nunca o vir a fazer.