Henrique Leal henriqueleal@entroncamentoonline.pt

Aproximam-se as eleições legislativas e os partidos políticos ultimam os projetos eleitorais, afinam os programas a sufrágio e arredondam as listas a submeter ao escrutínio dos eleitores. Tudo parece encaminhar-se para que a democracia funcione a plenos pulmões.

Seria normal, digo eu, que os programas fossem discutidos com os cidadãos, isto é, que as propostas a submeter a sufrágio fossem previamente discutidas e resultassem de um amplo movimento de partilha e de entendimento. Também me pareceria perfeitamente natural que as listas de cidadãs e cidadãos apresentadas a sufrágio resultassem desse amplo fórum que somos todos nós, isto é, que interpretassem a vontade expressamente manifestada pelas regiões e pelos círculos eleitorais.

Infelizmente assim não está a acontecer. As direções nacionais dos partidos não resistem à tentação de impor os seus candidatos, quase sempre à revelia e contra as escolhas escrutinadas pelas regiões. É assim com os chamados grandes partidos, em que o presidente ou secretário geral impõe o primeiro ou os primeiros nomes da lista e é também assim com os outros que não resistem à camarilha e avocam aos órgãos nacionais a escolha dos primeiros candidatos, sabe-se lá com que critérios ou com critérios estapafúrdios que camuflam jogos de poder nos bastidores e afrontam as mais elementares regras democráticas.

Vem esta reflexão a propósito das notícias que neste caldo pré-eleitoral têm vindo a público. Há largos meses que a Comissão Coordenadora Distrital do Bloco de Esquerda escrutinou por esmagadora maioria o nome do deputado Carlos Matias como putativo candidato do partido às eleições legislativas. No passado dia 29 de Junho a Assembleia Distrital de aderentes, o órgão máximo do partido no distrito de Santarém, também por larga maioria, com 70% dos votos, escolheu o deputado atualmente eleito para de novo liderar a lista. Para quem acompanha de perto estes processos tal escolha não surpreende. O engenheiro Carlos Matias dedicou toda a sua vida à causa pública. Foi autarca abnegado anos e anos seguidos e nestes quatro anos de mandato na Assembleia da República foi um moiro de trabalho. Ostenta um currículo de trabalho parlamentar que desafia qualquer outro camarada da bancada ou mesmo dos outros grupos parlamentares. Quem duvida, venha prestar contas e pôr as cartas na mesa tal como ele fez.

Apesar destas evidências, a direção nacional do Bloco de Esquerda entendeu que o Carlos Matias não devia ser o candidato do partido às eleições legislativas. Chamou a si o processo e, à revelia de 70% dos aderentes do distrito de Santarém que escolheram o Carlos Matias, propôs e aprovou o nome de uma professora de Santarém que não apresenta outro currículo político senão ser ativista dos direitos LGBT. O Bloco de Esquerda não é nem pode ser só um partido de gays e de lésbicas. O Bloco é um partido progressista,  plural,  que repudia qualquer tipo de discriminações e que atribui os mesmos direitos a todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual ou outra. Por ser homossexual ninguém tem menos direitos ou pode em qualquer circunstância ser discriminado. Mas também não aufere mais direitos do que os heterossexuais.

É triste, muito triste todo este emaranhado. A deriva da direção nacional do Bloco de Esquerda na forma como tem tratado os órgãos locais e regionais do distrito de Santarém rasgou feridas graves que não poderão deixar de condicionar os resultados do partido, mesmo a nível nacional.

Somos pessoas, não somos autómatos. Apesar de apetecer bater com a porta, vamos resistir.

Vamos cerrar fileiras porque a luta está no nosso sangue e o futuro só fará sentido se lutarmos.

Vamos lutar porque o projeto político do Bloco de Esquerda está muito para lá de uma direção de circunstância, autista e embrenhada em querelas e disputas de canibalismo predador. Como disse um dia Camões, “um fraco rei faz fraca a forte gente”.

Vamos cerrar fileiras e acreditar que os pequenos ditadores que hoje se arvoram o direito de mandar às urtigas a vontade democraticamente manifestada nas regiões, têm os dias contados e hão de ser remetidos ao recanto anónimo donde vieram.

Vamos cerrar fileiras porque as seitas que hoje dividem e estilhaçam o partido serão corridas à vassourada num futuro muito próximo se antes se não estilhaçarem numa orgia autofágica.

Vamos cerrar fileiras com o empenhamento de todas e todos os aderentes na vida partidária, sem desistências, no combate externo e interno pelo fortalecimento do Bloco de Esquerda como um partido democrático, inclusivo, com raízes populares e respeitador das estruturas locais e regionais….