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Após nove anos de sucessivos adiamentos, finalmente surgiu a homenagem ao antigo Presidente da Câmara de Constância da CDU, António Mendes. O homem que Cavaco Silva fez «Comendador»: uma travessa na aldeia é a «justa homenagem» que a maioria socialista encontrou. Quanto à estátua almejada pelos camaradas… nem sombras. A história destes adiamentos merece alguma atenção. A homenagem será no dia das mentiras: a 1 de Abril. Coincidências.

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Em 2015 a Assembleia Municipal de Constância aprovou por unanimidade uma moção em que se elogiava o mérito do antigo Presidente da Câmara Municipal, António Manuel dos Santos Mendes, na defesa daquilo que entendiam como sendo «os interesses do Concelho». A ocasião serviu ainda para um balanço relativo ao seu percurso autárquico. Esta moção é consequência da atribuição do grau de Comendador de Mérito ao visado, por parte do Social Democrata Cavaco Silva, à data, Presidente da República.

Em bom rigor o professor Cavaco queria significar nas comendas atribuídas (não a um mas a quinze autarcas ) o contributo dado pelos municípios e seus eleitos no desenvolvimento do país atentos os 40 anos de democracia. Impõe-se aqui uma leitura democrática.

Segundo a página oficial do Grão-Mestre, «a Ordem do Mérito destina-se a galardoar actos ou serviços meritórios praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas, que revelem abnegação em favor da colectividade».

Na moção de 2015 era notório o reconhecimento interpretativo de que «a António Mendes se deve o período mais intenso de desenvolvimento do concelho». Para compor o texto, os vogais recorriam a uma mão cheia de exemplos: “o abastecimento regular de água com qualidade em todo o território municipal e a total remodelação da respectiva rede; a construção de grande parte da rede de esgotos e a totalidade do seu tratamento efectivo; a construção de muitas dezenas de fogos habitacionais; a construção da escola Luís Camões e a consequente criação do ensino de 2º, 3º ciclo e secundário; o ordenamento das margens dos rios Tejo e Zêzere; a construção da extensão de saúde de Santa Margarida e do Centro de Saúde de Constância; o actual edifício dos Paços do Concelho; a zona industrial de Montalvo; o Centro de Ciência Viva – Parque de Astronomia; o Parque Ambiental de Santa Margarida; a Biblioteca Municipal; o arquivo municipal; as piscinas municipais e o pavilhão desportivo municipal; e o posto da GNR”.

A CDU, de quem o autarca há muito se tinha divorciado ao ter rasgado o cartão de militante – conquanto convivessem na mesma casa política e em regime de separação – enaltecia ainda a gestão de António Mendes “de grande rigor financeiro» bem como «a sua especial capacidade de atrair financiamentos para o concelho”. Pode concluir-.se que queriam realçar a sustentabilidade financeira da gestão e assim

justificar investimentos em betão para gerações mas que «legitimamente» comprometeram futuros executivos na opinião também «legitima» de terceiros.

Na dita moção de 2015 os vogais municipais – que se tratam entre pares por «deputados municipais» apontavam desde logo a forma de materialização da homenagem ou reconhecimento ao edil, recomendando à senhora câmara que se erguesse um monumento a António Mendes. A ser colocado num dos equipamentos emblemáticos existentes no concelho, leia-se, como «reconhecimento e forma de perpetuar uma pessoa que em mais de 30 anos como autarca de muito mérito, mudou a face do concelho de Constância, deu-lhe visibilidade nacional e revolucionou a qualidade de vida de toda a comunidade”. Pela informação que retenho essa homenagem deveria ocorrer no espaço de um ano ou seja, em 2016.

É verdade que existe um certo consenso, a uma certa distância temporal, sobre a figura do autarca António Mendes em ordem a uma gratidão da sociedade dada a sua abnegação em favor da colectividade. Aí também me meto, mas com um pezinho de fora.

Poderíamos aditar aos argumentos atrás, outros. O seu contributo para a fundação então da Associação de Municípios, da TAGUS – Associação de Desenvolvimento e da Resitejo.

Ainda perdura na nossa memória a luta que encabeçou na defesa de uma lei de finanças locais que corrigisse assimetrias, não penalizadora por isso, dos pequenos municípios.

O autor da presente crónica entrevistou o autarca António Mendes durante muitos anos, talvez mais de uma década e, por via de outras funções associativas e não só , pôde conhecer bem o seu trabalho para poder formar uma opinião acerca da justeza de uma homenagem, divergências à parte que as houve.

Não é essa porém a intenção da presente crónica. Não vamos aqui reflectir agora sobre a inexistência na sede do Concelho de uma ETAR – Estação de tratamento de águas residuais, própria, que não dependa da poluidora CAIMA; ou mesmo do formato algo ideológico das medidas – ou da falta de algumas delas – no âmbito cultural.

Apenas uma nota, seja-me permitida antes de passar a uma breve análise dos motivos que levaram as maiorias socialistas a adiar sine die a homenagem ao antigo autarca comunista.

Em 3 de Outubro de 1991, por ofício, por conseguinte, há 33 anos, o Presidente da Câmara Municipal de Constância, António Mendes, respondia assim ao Presidente da Associação Rádio Jornal de Constância, entidade fundadora e editora do Jornal Abarca: «Sobre a eventual constituição de uma comissão de honra para homenagear o Poeta constanciense através de uma referência toponímica, sugiro a V. Exa a marcação de uma reunião com a Câmara Municipal a fim do assunto ser melhor analisado». A homenagem ao Poeta da lusofonia, Tomaz Vieira da Cruz, proposta ao município pela direcção da referida associação, a que o autor da presente crónica à data presidia… nunca veio a acontecer. Criaram mais tarde uma comissão toponímica e alegaram verbalmente que não havia ruas na vila para uma tal homenagem. Sendo certo que ainda hoje a rua/travessa onde o poeta nasceu, ainda não tem nome ao que julgo saber pois é paralela à Rua dos Ferreiros a cujo nome a associam (?). Certo,

certo, é existirem urbanizações construídas pelos executivos de António Mendes, na sequência da destruição do Pinhal d’El rei e no Chão da Feira, com muitas artérias para as quais inventaram os nomes, fazendo tábua rásua da proposta de 1991, proposta que entretanto foi legitimada por parte da população num abaixo assinado que promovi mais o antigo Director do Diário «Macau Hoje», Meira Burguete. A esse abaixo-assinado a comissão toponímica não respondeu. Como não responderam a outros, cabalmente. A democracia tem destas coisas.

A fita do tempo e as peripécias do autarca socialista

Em 26 de Janeiro de 2018, questionado pela CDU em plena assembleia municipal o presidente da câmara, Sérgio Oliveira (PS), garantia que iriam fazer a homenagem a António Mendes, considerando-a justa. Alegou que iria fazer contactos e que se pretendia uma homenagem muito abrangente, para lá do espectro político.

Em Setembro de 2020 a Assembleia Municipal aprovava nova recomendação da CDU, ao executivo de Sérgio 0liveira (PS) para a construção do monumento de homenagem a António Mendes, deixando críticas pelo meio. Certa, certa, foi a posterior colocação de um monumento ao Combatentes na Vila e de outras esculturas na vila e na aldeia de Montalvo. Mas quanto ao Comendador… nada.

Em Fevereiro de 2021, o presidente da câmara, Sérgio Oliveira (PS), declarava à imprensa que a situação não estava esquecida mas dada a proximidade das eleições autárquicas e a Pandemia, seria difícil executar essa homenagem.

Em 19 de Julho de 2023 a Câmara socialista anunciava finalmente a grande homenagem ao autarca António Mendes: uma simples travessa no Casal da igreja, na aldeia de Santa Margarida da Coutada. Coisa tão pouca para tão grande currículo, logo mereceu a crítica férrea dos eleitos da CDU. Mas a câmara, com argumentos de peso logo se defendeu: «o comendador aceitou». Andou aqui mão da diplomacia do presidente da assembleia municipal que também presidia à comissão toponímica? A autarquia entende que esta homenagem assinala a ligação do comendador a um conjunto de loteamento de habitacional do concelho, cuja conclusão das obras de urbanização é recente. E alega ainda que no seio da comissão toponímica não houve divergência .

No próximo dia 1 de Abril, data que coincide com o feriado municipal e com a Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem será finalmente prestada nos paços do concelho a famigerada homenagem. António Manuel dos Santos Mendes, é, porventura a voz mais crítica da actual maioria socialista, como é público e notório pelas intervenções de que vamos sabendo pela comunicação social. No convite, assinado por Sérgio 0liveira, presidente da Câmara (PS) , pode ler-se, por exemplo que a data (não deixa de ser o dia das mentiras no veredicto popular…) emblemática, «será acrescida de mais simbolismo», com a homenagem ao comendador. Fala-se ali em «justa e merecida homenagem». É difícil não sentir o carácter forçado do convite municipal. Porque tenta justificar a necessidade da homenagem dever/poder abranger toda uma gama de agentes a mobilizar para a fotografia: «Que neste convite se sintam incluídos todos os funcionários do município, no activo e já aposentados, bem como quem com outro título de vínculo colaborou com a autarquia nos mandatos do ex-presidente António Mendes».

Com Maquiavel diríamos que «o vulgo sempre se deixa levar pelas aparências e pelos resultados».

Dizem os cientistas da política no que à natureza deste poder concerne que os indivíduos aprendem facilmente a dissimular, dizendo aos outros o que eles querem ouvir. O que se tem por natural, sendo inútil discutir ideias e valores que já estão aceites pela sociedade…

Acreditamos no que queremos acreditar mas, «externamente usamos uma máscara». Greene, pois.

José Luz (Constância).

PS – Não uso o dito AOLP. «(…)As intenções conscientes e as versões dos acontecimentos afirmadas explicitamente pelo agente são produto de um permanente trabalho de racionalização, através do qual ele busca tornar aceitável para si e para os demais actos que são considerados inaceitáveis de acordo com os valores morais que ele mesmo afirma publicamente». – In citação de Flávio Silveira, da Universidade Pontifícia do Rio Grande do Sul.

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