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No seio da vastíssima flora alimentar do continente americano, difundida pelos portugueses no chamado «Velho «Mundo», há um historial de muitas plantas de importância crucial na economia e na subsistência dessas populações e das que se lhes seguiram. Exemplo disso será o da batata doce. Os portugueses fizeram chegar a batata doce à grande comunidade chinesa através do norte da Índia. Sem o que, segundo diversos autores o Grande Império do Meio não conseguiria suportar a enorme massa da sua população.

O trabalho, paciente, primorosamente organizado, dos portugueses «transformou de tal maneira a produção agrícola e os hábitos alimentares de algumas regiões fora da América que hoje seria quase impossível compreender os seus esquemas agrícolas sem elas». Estas e outras informações constam de um estudo muito interessante intitulado «Plantas tropicais de que ‘Os Lusíadas’ não falam». Longe de criticar Camões, o autor do estudo, conferencista do VI Fórum Camoniano de Constância (1998), professor catedrático Mendes Ferrão, justifica Camões e aproveita para elogiar os feitos dos Descobrimentos e a sua importância quanto à globalização que se seguiu.

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À nossa vocação universalista, de intento estratégico, podemos sempre aditivar o compromisso científico, do conhecimento. Sim! Fomos originais e surpreendemos. Quer no improviso organizacional quer nos domínios da dita informação assimétrica e no incrementalismo, no fundo «o peito ilustre lusitano» de que nos fala o grande Camões.

Numa vila ribatejana, guardiã de memórias únicas do nosso maior Poeta, acontecia em 1998, o VI Fórum Camoniano, iniciativa que coincidiu com a Exposição Mundial da Expo’98. Uma oportunidade rara de recentramento da história, do nosso legado universal. O nosso contributo para a globalização que lançamos há cerca de 600 anos a partir de Ceuta…

Sob o tema «Os mares de Camões» acontecia em Constância, em 1998, o VI Fórum Camoniano em que um dos oradores, o professor catedrático Mendes Ferrão abordava uma temática pouco comum (?), com o sentido último de enaltecer os feitos dos Descobrimentos e a obra de Camões: «Plantas tropicais de que «Os Lusíadas» não falam».

No início dos Descobrimentos a alimentação dos portugueses incidia sobre os produtos que estes então conheciam, diferentes dos actuais. As práticas agrícolas, da antiga tradição árabe, ainda não tinham saído do «horto». A sacha haveria de conquistar mais tarde o seu lugar na grande cultura, pois eram escassas as culturas agrícolas estivais.

Todas as modificações que hoje sentimos e que se estenderam a numerosos lugares da Terra-Mãe, terão resultado segundo o professor, dos Descobrimentos em que andámos empenhados e das plantas que trocámos. A conclusão consta dessa notável recensão sobre plantas tropicais não citadas por Camões, estudo fascinante – como fascinante é tudo o que encerra o mundo camoniano. Toda a presente crónica procura sintetizar o núcleo de ideias-chave e a informação ali contida naquela lição de Mendes Ferrão, intento sempre difícil de se conseguir dado o imenso manancial informativo e a arte de bem contar do autor, que se inveja.

Vivemos nos fins do século XV e princípios do século XVI o período considerado mais glorioso da história de Portugal. A voz unânime dos patriotas ecoa nas palavras sublimes do nosso orador. Tivemos um Poeta que cantou e enalteceu esse período, assim prestando um serviço ímpar em favor da humanidade: Camões!

Mercê do nosso espírito universalista, aspiração nunca apagada a realizações colectivas, fomos motor inequívoco de uma globalização que, diz-se, deu início à Era Moderna, a partir da expansão em Marrocos. Os historiadores dividem-se, mas o processo do expansionismo terá sido marcado pela conquista de Ceuta em 1415. A aventura marroquina acabou por direccionar os portugueses para um império marítimo global, superando o móbil inicial e dando aso a novas empresas e uma política mais complexa do que se possa julgar à partida.

Neste ano de 2024, que é – ou deveria ser – de comemoração dos alegados 500 anos de Camões, recordemos aqui uma nota sempre actual da escritora Manuela de Azevedo, fundadora da Casa-Memória de Camões em Constância, proferida no evento do já citado VI Fórum camoniano de boa memória: «O Culto de Camões é uma constante da cultura universal. A quinhentos anos da sua obra esse culto permanece entre os homens. O facto de ser de algum modo alvo de sucessivas traduções, quer de «Os Lusíadas», quer da Lírica, documenta essa espécie de nostalgia que anima os leitores mais cultos e reflexivos».

O tema dos «Mares de Camões» do VI Fórum Camoniano em Constância surgia assim com os actos evocativos desse evento que foram as comemorações dos Descobrimentos em 1998 e constituiu no dizer da minha saudosa amiga, o acento tónico mais significativo e fascinante desse encontro à beira-rios.

O testemunho que representam os cadernos de cada Fórum Camoniano promovido pelo Centro Internacional de Estudos Camonianos foi , sem dúvida, um esforço e uma devoção de cada um dos seus participantes.

Camões é, nas palavras de Mendes Ferrão, passo a citar «o Poeta que enaltece «o peito ilustre lusitano», a coragem dos seus guerreiros, a perícia dos seus navegadores, o espírito pioneiro dos seus colonizadores, a doação dos seus missionários, a competência das suas estruturas de rectaguarda dos Descobrimentos que, por nosso intermédio, deram a conhecer «novos mundos ao mundo». Acertada súmula, difícil de superar.

Enquanto decorria na Vila de Constância a VI Fórum Camoniano, «lá em baixo, nas margens do mesmo rio bem a montante do Velho do Restelo e do seu simbolismo cauteloso e conservador, o mundo assistia e participava numa das últimas grandes Exposições Universais deste século, evento grandioso, digno de um grande país, orgulho de todos nós, homenagem à capacidade dos portugueses que nela mais uma vez se prova e comprova».

Porém, segundo o nosso interlocutor, «neste evento grandioso exaltava-se muito pouco a contribuição que os portugueses deram ao longo dos tempos para o conhecimento dos mares, através dos quais fizemos circular riquezas, nos consumiu muitas vidas e haveres, bem salpicado das alegorias lágrimas de sal de Pessoa vertidas pelos que partiram e também por aqueles que, ficando em terra, aguardavam um regresso que nem sempre se concretizou».

O académico aludia a esse ano da efeméride de meio milénio da chegada de Vasco da Gama às costas do Indostão, «sem dúvidas um dos marcos mais salientes da história universal e cuja importância ninguém legitimamente esconde», para logo lamentar «que a Expo’98 não tenha dedicado uma referência mais alargada, parecendo, a quem olha do exterior, que a chegada à

Índia é episódio para abafar, como planta que nasceu entre espinhos ou que os portugueses, talvez pressionados por forças internas ou externas, vencidos talvez sem combater, meteram a viola no saco como mau e envergonhado cantador».

Quanto à sua evocação de Vasco da Gama no Jardim-Horto em Constância Mendes Ferrão justificava-a deste modo: «pelo relevo que Camões deu à sua viagem a terras de Calecute e como ela serviu dos suporte ou de sustentáculo ao desfraldar dos quadros da história portuguesa desde a fundação da nacionalidade».

As plantas que Camões não referiu em «Os Lusíadas» segundo Mendes Ferrão

O pedido feito então ao convidado pelo Centro Internacional de Estudos Camonianos orientava-se para que, dentro da sua especialidade de professor de agronomia tropical e tendo em conta o ambiente camoniano, trouxesse alguma contribuição naquele Fórum sobre plantas de grande interesse que Camões não referiu n’«Os Lusíadas», algumas das quais nesse tempo já tinham enorme importância em muitas das regiões por onde o poeta peregrinou. Assim o resume no seu estudo.

Na sua intervenção Mendes Ferrão chamava a atenção para alguns aspectos relacionados com as mudanças que se verificaram no mundo no último meio milénio em termos de agricultura e de difusão e utilização de novas plantas em consequência do que identifica como «a interpenetração dos conhecimentos que os descobrimentos provocaram».

Na sua análise salientava «algumas plantas de grande interesse económico que já existiram no Oriente quando Camões por ali passou e a que «Os Lusíadas» são omissos e algumas outras de origem americana, que, levadas pelos espanhóis e portugueses nos séculos XVI e seguintes a todos os cantos do mundo, e por isso também ao Oriente, modificaram a composição florística, a botânica utilitária, os sistemas agrícolas e nutricionais e permitiram que certos grupos populacionais pudessem sobreviver até hoje, enquanto lhes fizemos chegar plantas alimentares sem as quais dificilmente se entenderá como poderiam ter continuado a existir».

Para o professor, Camões não era nem um botânico nem um agricultor e, em «Os Lusíadas» o poeta, explica-nos, «serve-se da flora europeia, da da Ilha dos amores e da flora tropical não como o fim último do seu discurso mas como sustentáculo dos seus conceitos e desenvolvimento do seu programa». Dito isto, reconhece-lhe «o mérito de saber das plantas o suficiente para nunca exprimir conceitos errados».

As plantas em Camões «são um dos bordões do seu lirismo». Lugar para citações do «vetusto carvalho, o oloroso loureiro, as humildes ervas dos nossos campos, profusamente referidas».

A partir destes bordões, e continuando a seguir de perto o interessante estudo dado revelado no dito Fórum, Camões, depois, «alarga-se, com alguma volúpia, mas sempre como enquadramento de um cenário edílico, na flora da Ilha dos Amores, menos pela utilidade de cada uma das espécies mas incluindo-as frequentemente num comum arvoredo em que o conjunto se sobrepõe ao específico, o efeito global ao interesse relativo». Questões da estética

que podem complementar os comentários da elegia «Vergel de amor» de Manuel de Faria e Sousa.

Recorda o professor que Camões cita 24 espécies na Ilha dos amores, explicando que todas elas já são familiares nesse tempo na Europa e apenas 3 a laranjeira, cidreira e limoeiro, são originárias do sueste asiático, se bem que já conhecidas na Europa desse muito antes de Portugal existir como nação.

Quando Camões entra na flora tropical não lhe passam em vão «os rudes paus tostados» com que os cafres selvagens faziam guerra. Nota ainda para as folhas de palma com que os orientais confeccionavam as velas das suas embarcações, para as madeiras com que as construíram, as fibras com que confeccionavam as vestimentas que usavam, os venenos com que embebiam as setas usadas na caça ou nas artes da guerra. Ricos apontamentos estes, de Mendes Ferrão.

Indaga-se o professor sobre as personalidades que Camões terá conhecido no Oriente e que o devem ter influenciado? Garcia da Orta e, talvez, João de Barros, Tomé Pires, Gaspar Correia.

E, assim, por via, de um conhecimento progressivo, Camões, «canta mais alto as especiarias do Oriente, em parte, a grande razão da viagem de Vasco da Gama», o que o orador assume como uma consequência natural dessas relações sociais.

No que se refere às especiarias, ao comedimento das citações do épico avulta o rigor extraordinário quanto à sua origem, acrescentando Camões o «quantum satis» da sua importância económica, fornecendo-nos desse modo a informação suficiente em cada caso.

Diz Mendes Ferrão que o poeta trata com cuidado quanto à motivação económica, o betel tão usado pelos povos orientais, as madeiras olorosas como o sândalo, o lacrimejante incenso, as drogas e plantas medicinais como o aloés.

Como consequência dos Descobrimentos (que o poeta cantou), Portugueses e Espanhóis atingiram o continente americano nos finais do século XV: «Era um continente novo, um mundo deslumbrante que desfilou perante os olhares atónitos de Fernandez de Oviedo e de Pêro Vaz de Caminha (…) plantas novas, ricas, produtoras de alimento abundante, fáceis de cultivar, algumas delas semeadas «nunca mais se desinçam», como dizia o cronista, com sabores novos».

Os povos da península viram então nas plantas, algumas delas descritas com grande pormenor e precisão, cita-se, «um manancial de potencialidades que quiseram levar de presente a novas terras que conheciam e que estavam menos bem dotados de recursos que sustentassem uma população em que as crises alimentares era já sentidas».

Um trabalho, paciente e primorosamente organizado que, segundo Mendes Ferrão, «transformou de tal maneira a produção agrícola e os hábitos alimentares de algumas regiões fora da América que hoje seria quase impossível compreender os seus esquemas agrícolas sem elas».

Continua o orador: «Com as ligações muito frequentes entre o Brasil e a Índia, que quase sempre ficavam situados em pontos da mesma viagem do Reino para a Índia ou vice-versa, fizeram-se chegar muito rapidamente às terras indostânicas as plantas americanas de ecologia tropical que os portugueses haviam eleito no Brasil como as prioritárias».

Este movimento de troca de plantas, de acordo com o nosso interlocutor, «fez chegar à Índia numerosas plantas durante a segunda metade do século XVI». Mas Camões não terá tido tempo para as conhecer e avaliar. «Que partido delas poderia tirar do seu poema», interroga-se.

Nota para o ananás perfumado, coroado como um rei, no conjunto das iguarias da llha dos Amores.

A difusão das plantas americanas tem ligadas histórias curiosas, afirma-nos: «Muito embora a maior parte dos estrangeiros chame a si a prioridade na difusão de muitas delas, há documentos bem seguros – mas que a maior parte deles parece desconhecer, talvez por não dominarem a língua de Camões, que dão a prioridade indiscutível aos portugueses e aos espanhóis, a não menosprezar».

Refere-se o professor, brevemente, a algumas, seleccionando certas delas que se adaptaram na Europa.

No texto que se segue e poupando os leitores a sucessivas citações, optou o autor da presente crónica por resumir a informação do estudo de Mendes Ferrão, ainda que socorrendo-se da sua prosa sobre a qual, recai todo o mérito, cuja leitura integral se aconselha.

Algumas plantas americanas trazidas pelos Descobrimentos

O ananaseiro («Ananas comosus»)

A cultura existia nos Açores em 1864 em estufa e servia para o abastecimento dos mercados europeus em frutos frescos. Desde os tempos dos Descobrimentos, os portugueses haviam reconhecido que o fruto se deteriora rapidamente e, por isso, seria incapaz de suportar os longos períodos das viagens praticadas nesses tempos. Mas, apreciando-o e enaltecendo-o, com ele faziam «conserva durável» que abastecia os barcos e chegava aos mercados da Europa. Afinal, apesar da celeridade dos transportes e do avanço da técnica, este é ainda hoje o destino de cerca de 60% da produção mundial.

Pio Correia vai mesmo ao ponto de afirmar que a sua difusão pela Europa, África e Ásia se fez tão rapidamente «como não há exemplo na história de qualquer outra planta frutífera».

Já em 1505 a planta teria chegado à ilha de Santa Helena levada pelos portugueses do Brasil. Em 1549 é referenciada em Madagáscar. Terá chegado à Índia em 1550.

Alguns historiadores defendem a presença do ananás na Índia em tempos mais antigos, alega Mendes Ferrão, evocando aqueles uma designação em sânscrito. Teria sido, provavelmente, um ananás bravo e de outra planta (de acordo com o estudo de Cristóvao da Costa), conclui o nosso professor.

Mas há outras questões complexas: «a melancia brava em terras americanas, de origem africana, quando aí chegaram os europeus; a pacoba ou pacobeira (identificada como bananeira ou bananeira-pão que alguns consideram de introdução pré-colombiana). Situações por esclarecer, ressalva.

Batata-doce («Ipomoea batatas»)

Reproduzindo: «De origem americana. Os portugueses conheceram-na no Brasil e rapidamente a introduziram nalgumas ilhas dos Açores onde a sua cultura ainda persiste. Levaram-na para a África e para o Oriente através do Atlântico. A dispersão da cultura criou diversos ecótipos e ainda hoje em certas regiões do Oriente se torna possível distinguir as cultivares que seguiram o percurso português e aquelas que seguiram o percurso espanhol (percurso com navegações através do Pacífico entre Acapulco e Manila).

Os portugueses fizeram-na chegar à grande comunidade chinesa através do norte da Índia. Porque se aperceberam muito rapidamente do interesse desta como alimento complementar dos cereais e dos grãos secos, de cujas raízes também se podia fazer pão. Diversos autores são de opinião de que sem este alimento básico que os portugueses lhes proporcionaram, o Grande Império do Meio não conseguiria suportar a enorme massa da sua população».

Em Portugal a cultura já estaria muito divulgada na segunda metade do século XVI: «A batateira comum, introduzida mais tarde, foi substituindo a batata-doce nas regiões mais frescas. Ficaram alguns santuários no centro e sul do país, acantonados em hortas de batata-doce para doçaria. Em São Tomé a batata-doce era em 1552 o principal sustento dos negros, de acordo com o Piloto de Vila do Conde».

Batata comum (Solanum tuburosum L.)

De acordo com o estudo que vimos seguindo, existem milhares de variedades da batata comum na Colômbia. Esta, desceu dos Andes, dos contrafortes dos climas frescos para ali. Sendo de origem americana, pouco conhecida no Velho mundo do tempo de Camões. Anchietta, salienta o nosso orador, refere-se à batateira em meados do século XVI ao dizer sobre a batata-doce que «outras raízes parecem-se com batatas».

As primeiras referências em Portugal conhecidas são as de Vandelli, «um dos naturalistas vindos de Itália aquando da reforma pombalina», explica ainda.

Em 1789 segundo este autor citado, ainda era «pouco usada». Leite de Vasconcelos deu nota de que «davam-na aos porcos». Havia uma superstição transmontana referida por Mendes Ferrão de que o seu consumo levava ao aparecimento da doença de Hansen, essa crença da lepra outrora existente além-Pirinéus.

O tomateiro (Lycopersion esculentum Mill.)

Atenta a informação disponibilizada no estudo deste VI Fórum , a primeira referência conhecida em Portugal a o tomateiro deve-se ao autor das «Saudades da Terra», Gaspar Frutuoso, para quem «o tomate é ao mesmo tempo fruto, hortaliça e tempero».

Parece que o tomateiro terá sido seleccionado e melhorado na Europa a partir de plantas de proveniência americana e de depois reintroduzido no Brasil. É que 1730 Sebastião da Rocha e Pita na sua História da América inclui o tomateiro na lista de hortaliças introduzidas a partir do Reino. Diz Mendes Ferrão que os espanhóis trouxeram a planta para a Europa em 1523 após a conquista do México, «talvez como ornamental», aduz. Atribui-se aos espanhóis a introdução da planta no Oriente através de Acapulco e Manila e, aos portugueses, em data ainda não determinada, no continente africano.

Os pimenteiros (Capsicum)

Um produto/fruto indispensável na dieta dos índios com um efeito idêntico ao do sal na cozinha europeia, parafraseando Mendes Ferrão. A sua utilização remontará há mais de 7 mil anos: «Conforme as características, eram consumidos como hortaliça (crus, cozidos, assados, grelhados, refogados, fritos), outras vezes como especiaria ou condimento tirando partido do seu sabor mais ou menos picante e da coloração avermelhada que se desejava juntar aos alimentos que acompanhavam». Um dado curioso, revelado pelo nosso orador, o de que os povos do México e da América Central chamavam chilli a este frutos, designação que, assevera o professor, «hoje está reservada apenas aos pimentos picantes». Os espanhóis gostaram dos frutos e chamaram-lhes pimentos, talvez porque, deduz Mendes Ferrão «as primeiras formas que conheceram fossem picantes e desempenhassem efeito idêntico ao da pimenta indiana procurada pelo Colombo na sua viagem para Ocidente». Mas os pimentos já haviam chegado ao Brasil em tempos muito antigos e os portugueses foram encontra-los designados por guija ou guiya na língua local.

Oiçamos: «Tanto os portugueses como os espanhóis trouxeram os pimentos para a Europa e introduziram-nos nas terras da sua influência na grande zona tropical. No Oriente, o gindungo ou piri-piri (pertencente ao grupo dos pimentos) é a «pimenta dos pobres» que substitui a pimenta oriental».

O milho americano (Zea mays L.)

O vocáculo «milho» possivelmente derivado do latim «melica» (infere o nosso professor), já existia na Europa em 1228 e aparece em documentos portugueses do século XIII. Pode ler-se a este propósito no estudo do VI Fórum: «Os cronistas dos Descobrimentos fazem várias referências à existência de milhos, como principal sustento das populações de várias regiões africanas tanto na costa oriental como na ocidental, antes da chegada dos europeus ao Novo Mundo».

Designações como milho alvo, milho miúdo, milhinho, milho painço, milho das vassouras eram dadas a plantas já cultivadas na Europa e aqui chegadas da África ou da Ásia por influência das Cruzadas. Da mesma forma que se conhecia o milho zaburro, nas sua formas de grãos avermelhados e cor de pérola.

Os portugueses trouxeram o milho americano do Brasil para Cabo Verde e costa ocidental africana nos princípios do século XVI. Diz-nos Mendes Ferrão que há a informação do Piloto de Vila do Conde que, por volta de 1545, refere que em Cabo Verde «se dá muito milho branco e grado de maçaroca e tanto que carregam dele navios para muitas partes» e que na Ilha de Santiago «quando chega o mês de Agosto começa-se a semear o grão que chamam milho zaburro: nas Índias Ocidentais chama-se mays»».

À data da lição de Mendes Ferrão sabia-se que havia historiadores a consultar documentação do Paço Episcopal do Porto e de que «já teriam encontrado referências anteriores sobre a cultura do milho em Portugal».

O milho, sintetizando, foi introduzido pelos portugueses na África onde veio a ocupar um lugar de extraordinária importância na vida dos seus povos situados em regiões de média altitude onde as culturas alimentares americanas, também introduzidas neste continente, tiveram mais dificuldades em se desenvolver.

Mendes Ferrão cita-nos ainda outras plantas alimentares, casos da mandioca, do amendoim, do cacau, das anonas, da papaia, do maracujá, da goiaba e da baunilha, ressalvando, «se bem que existam ainda muitas com histórias mais ou menos curiosas ligadas à sua difusão», ressalva.

Tabaco (Nicotiana tabacum)

O controverso tabaco.

Passando a resumir : É uma planta de origem americana. Os nativos tinham o hábito de aspirar o fumo de um conjunto de folhas de uma dada planta, enroladas e acesas numa das extremidades. Chegou à Europa como planta medicinal. As primeiras sementes, vindas do Brasil, foram semeadas no Real Jardim Botânico em 1558. As folhas foram trazidas para a Espanha como um dos mais eficientes remédios conhecidos, capaz de curar quase todas as doenças. Uma ideia que Mendes Ferrão diz, «também vingou em Portugal quando o jesuíta Luís de Goes trouxe do Brasil folhas e sementes de tabaco». Até ao final do século passado a designação de «erva santa» era vulgaríssima na terminologia portuguesa, aduz-nos.

Os portugueses introduziram o tabaco em África, onde as populações o receberam e utilizaram. Igual situação quando do Brasil chegou à Índia. Porém aqui, explica Mendes Ferrão, «a cultura não prosperou muito porquanto, numa política concentrada, reservou-se ao Ocidente a grande responsabilidade da produção das especiarias e concentrou-se a produção do tabaco no Brasil, que depois entrava no consumo do Oriente através da Alfândega de Goa».

Fez-se tabaco no Douro a partir de 1884 nos terrenos «onde a vinha foi afectada pela filoxera e oídio». Abandonou-se quando a enxertia em videira americana e o uso de enxofre controlaram aqueles agentes. Proibiu-se em 1927 para mais fácil domínio fiscal através de alfândegas e autorizou-se de novo em 1975, quando o pretexto antes disso tão invocado era de que se reservava a Angola e Moçambique o exclusivo do abastecimento do mercado metropolitano. Desapareceu por efeito do abandono dos territórios ultramarinos portugueses.

José Luz

(ex-presidente do Conselho Fiscal e ex-associado da Casa-Memória de Camões em Constância)

PS – Não uso o dito AOLP. Entendo que a difusão através da imprensa dos estudos sobre Camões e do seu tempo permitem uma maior divulgação destes trabalhos académicos e, por via disso, presta-se um serviço de interesse público nestes 500 anos de Camões.

Referência bibliográfica principal desta crónica:

-«Plantas tropicais de que ‘Os Lusíadas’ não falam» por J. E. Mendes Ferrão, Professor Catedrático do Instituto Superior de Agronomia e Director do Departamento de Ciências Agrárias de BCT Tropical em «Os Mares de Camões». VI Forum Camoniano. Coordenação de Manuela de Azevedo. Edições Colibri. 2000. Centro Internacional de Estudos Camonianos da ACMCC.

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