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Venho do velório do Xerife – nunca o conheci Carlos Jorge – e agora não há como não dizer duas ou três palavras sobre ele. Um pouco mais velho do que eu, não éramos, nunca fomos, muito chegados. Nos anos da adolescência (ia a dizer conturbados, mas para quê?), os nossos caminhos pouco se cruzaram. Ele era um jovem com a irreverência fácil e espontânea de quem não hesitava em ser livre e parecia a todo o momento ter lançado às urtigas as conveniências, os preconceitos e, precisamente, a reverência. A milhas de distância da maioria dos jovens do seu tempo.
Fez a sua época. Excessivo, precoce em tudo, excelente guarda-redes de andebol (era de borracha, dizia-se), bem-sucedido junto das miúdas mais giras, pioneiro no cabelo muito comprido, ousado a vestir, o Xerife tinha aquela avidez de viver que não se compagina com o gesto calculado nem com o esperar pela sua vez. Improvável mesmo foi que tenha ingressado na carreira militar, e consta que foi consensual entre os camaradas.
Claro que o tempo passa e o “forever young” é uma promessa traída, mais tarde ou mais cedo. Já adultos, fomo-nos encontrando quando calhava e sempre achei invulgar a sua genuína simpatia, a sua atenção aos outros, sem fazer vista grossa a quem quer que fosse. Por certo que não, mas o seu exterior parecia sempre coincidir exatamente com o seu interior. Soube que o filho do primeiro casamento falecera ainda criança, após um longo e penoso período de doença, e faço ideia. Mas, mais tarde, via-o feliz a fazer a Zezinha feliz e percebia-se bem – percebia-se logo – que aquela dedicação à companheira doente era uma causa superior, que aliás se estendia à filha e às netas, que só não eram de sangue, mas isso que importa? De modo que fui tendo uma crescente consideração por ele. Dizer que o Xerife foi surpreendendo toda a gente é pouco. Talvez não se esperasse – eu não esperaria – do Xerife, que eu conheci mal e à distância em jovem, tanta humanidade sem cobrança nenhuma à vida nem a ninguém, estão a ver? E isso é extraordinário.
No velório, juntou-se muita gente, sobretudo muita gente que foi jovem no Entroncamento nos anos 70 e 80 do século já muito passado. Houve os habituais reencontros dos velórios, faziam-se contas aos que “já cá não moram”, algumas circunstâncias da vida de cada um foram atualizadas, e todos ali eram iguais, sem sofismas nem reservas, por causa do Xerife que morreu. Mas sobretudo sentia-se – eu senti – perpassar ali um lastro de comoção que tinha também algo daquela alegria que ele partilhava connosco sem regateio.
Este outono vai difícil de tão quente, mas a noite estava amena, com o céu muito estrelado e a lua bem cheia por cima de nós.
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