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Hoje, como eu queria que a fome tivesse abandonado todas as bocas que nos olham à distância, aflitas e moribundas, mas às quais, nós que somos o verdadeiro abismo, não devolvemos o olhar.
Hoje, como eu gostava de ter visto terminar todos as guerras, massacres e perseguições que assolam o planeta, as quais vamos lamentando à distância confortável de um ecrã de televisão. Que todo o ódio fosse definitivamente incinerado pelas mesmas chaminés onde se continuam a lançar, geração após geração, as cinzas dos repetidos genocídios em que se entretém a Humanidade.
Hoje como eu sonhava que todas as doenças, mesmo as menos lucrativas para a investigação farmacêutica, conhecessem uma vacina, um comprimido, um paliativo, ou uma cura que devolvesse o direito a uma vida em que, como se lê na velha definição, a todos fosse proporcionado «o estado físico e mental em que é possível alcançar todas as metas vitais».
Enfim, hoje, como eu ansiava por um mundo liberto e refeito de todas as mortes sem sentido, sejam elas fruto da fome, da guerra, da doença, da morte, ou de um qualquer outro cavaleiro (mais ou menos) tecnológico do Apocalipse e que o Homem, na sua ânsia de saber mais, de fazer mais, ou de negligenciar ainda mais, possa ter acrescentado a essa galeria de horrores que nos atemorizam.
Mas, infelizmente, hoje é um dia exactamente igual aos outros. Um dia, em que se respira, come, fala, viaja, sofre, goza, nasce ou morre, tal como em todos os outros dias. Um dia em que se come um pouco melhor nalgumas casas, onde se sorri, com um bocadinho mais de sinceridade (ou de cinismo), enquanto se desejam as boas festas, um dia onde parece que os luzeiros acesos pela quadra e os embrulhos de presente já desfeitos, quase têm um efeito hipnótico de nos tapar a cabeça sobre desgraça alheia, enquanto se destapam - ainda mais - esses pés descalços que clamam por nós ao virar de (quase) todas as esquinas.
Assim, hoje que o velhinho de barbas brancas regressou à Lapónia, numa gélida e apropriada metáfora daquilo que verdadeiramente se transformou (o Inverno permanente de um sentimento que tem um prazo de validade), em que o consumismo já congemina, saudoso, outros mitos desfeitos e que permitam escoar o resto incómodo dos excedentes que ficaram em armazém, hoje, onde - realmente - todas as pessoas receberam um novo presente, seja ele embrulhado em papel de celofane, seja ele repleto das chagas de uma nova fome, de uma nova prostituição forçada, de um novo espancamento ou de uma nova morte libertadora de tanto sofrimento, hoje fiquei - literalmente - apenas com um menino nos braços, de pele escura, paupérrimo, cheio de palhas, perseguido pelos soldados do rei e nascido num abrigo para animais.
Um menino que tremia de frio, coitadinho, porque não queria ir passar o resto do ano na Lapónia. Que faço eu com esta criança? No meio da sua miséria, enquanto penso onde é a instituição para os pobrezinhos mais próxima, enquanto procuro uma desculpa apropriada para me pôr a mexer rapidamente em direcção ao meu tão desejado bacalhau com natas, enquanto questiono o destino (porque o Stephen Hawkings me tinha acabado de asseverar que os deuses não existem) porque motivo me fez quase tropeçar neste ser tão inesperado e incómodo, é neste momento que sou interrompido por uma mãozinha que toca na minha, um gesto de suavidade e de leveza e que irradia Eternidade.
Por breves instantes relembro-me de todos os sonhos de infância, visito novamente todas as almas que deixaram um rasto no meu coração e deixo-me absorver por um absoluto sossego. Esqueço-me da conta bancária, do risco na traseira do carro, da camisola de marca que namorava na montra, da reclamação do imposto, do tapete roído pelo cão, do emprego instável, das contas por pagar, das mentiras do costume, do cheiro a álcool, das férias estragadas, da mancha no reposteiro, da máquina de café avariada, do novo telemóvel de marca, da viagem a terras exóticas, do preço dos funerais, enfim, esqueço-me dos 364 dias do ano que faltavam até ao regresso do velhinho da Lapónia.
Olho novamente para esse menino e recordo-me - finalmente - de onde o conhecia. Era o menino de que as minhas avós me falavam, enquanto me ensinavam a rezar ou me embalavam no berço inquieto das minhas insónias infantis. Assim, era eu próprio que renascia naquele menino, mas também no coração de toda a nova criança, como fruto do matrimónio entre a Esperança e o Amor.
Afinal, como todos os homens, eu não quero apenas viver, mas prometer a vida. E o que esse menino me trouxe foi a certeza de que é possível sonhar com um Natal que dure todos os dias do ano.
PS: Como sempre, o autor mantém a grafia anterior ao (des)acordo ortográfico.
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