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Há tempos atrás, depois de um pequeno desentendimento sobre a aplicação da regra das prioridades nas rotundas, questão esta que tem feito correr muita tinta nas redes sociais (e ainda mais nas estufas de pintura) foi-me proposto pelo outro interveniente na altercação, de forma desabrida e pouco elegante, que fizesse utilização anti-natural de um dos meus orifícios corporais. Não transigindo e considerando que, mesmo para uma rectosigmoidoscopia, só em caso de grave perigo, achei por bem pedir explicações mais detalhadas ao autor da proposta, convidando-o a encostar em local próprio e seguro para os restantes utentes da via. Aí me propunha, pelas regras do marquês de Queensberry, tentar redefinir um ou outro aspecto fisionómico da personagem, de forma inteiramente gratuita e sem recursos desnecessários a Botox ou anestesias. Infelizmente, certamente embrenhado em compromissos de agenda inadiáveis, o outro condutor acelerou e desapareceu, quando eu já fazia o pisca para me dirigir ao primeiro ringue improvisado que me surgira no percurso. Até hoje, desconheço se o indivíduo seria - afinal - algum profissional de saúde, que numa rara demonstração de extraordinárias capacidades de prognóstico à distância detectou a necessidade de eu proceder ao famigerado exame intrusivo ou, hipótese que também não é de excluir, se era pura e simplesmente parvo. Acho que irei morrer na ignorância.
Entretanto, vem tudo isto a propósito da simpática proposta do Sr. Ministro da Cultura que, no intervalo das suas hercúleas e perfeitamente reconhecidas tentativas para retirar este sector do estado moribundo em que se encontra, invadiu, penso eu que de forma justificável e bem intencionada, o território do seu colega da área da saúde, ao oferecer cuidados paliativos administrados por si a dois jornalistas da nossa praça. Bem-Haja, Sr. Ministro! Numa era em que se desejam, por tudo e por nada, rectosgmoidoscopias ao próximo ou se assistem a episódios de violência perfeitamente gratuita, vulgo porrada, a sua ideia genial vem dar um contributo à ciência, indicando uma nova forma de utilizar correctamente o tabefe na gestão de conflitos. O bofetão inconsequente, a estalada mesquinha, a galheta assente no rosto do adversário, todas elas são substituídas pela salutar bofetada, expressão derradeira de que, até o mais pequeno gesto agressivo de outrora, depois de passar pelo crivo da pasta da Cultura, surge rejuvenescido e inspirador. Bata-se, mas com sentido de promover a melhoria da qualidade de vida do agredido. Distribua-se o tabefe, mas com intenção curativa. Que os cinco dedos marcados na cara do outro não sejam mais uma agressão, mas um percursor do bemestar do atingido, que assim deixa de ser objecto de ofensas corporais, mas antes se demonstra como um reabilitador acto médico sem taxa moderadora.
Ó Sr. Ministro! O Senhor não é somente a desejada salvação da cultura portuguesa mas uma verdadeira luminária inspiradora do progresso nas relações humanas! Já imagino o cenário: «Ministro da Cultura entrega um par de salutares bofetadas ao Presidente Putin, o qual, assim recuperado dos seus padecimentos presentes e futuros, promete uma paz duradoura na Ucrânia.» Ou «O Médio Oriente encontra - finalmente - a desejada tranquilidade depois da última visita do Ministro da Cultura lusitano e que fez bom uso das salutares bofetadas junto dos líderes da região» ou ainda «O Estado do Texas concede moratória na execução da pena de morte após receber explicações do Ministro da Cultura Português sobre a utilização da salutar bofetada». Enfim. Um mundo de oportunidades!
Prezado Senhor Ministro, resta-me agradecer humildemente o brilhantismo da sua ideia. Um tributo ao engenho português e que, estou certo, muito há-de contribuir para resolver - também - os múltiplos problemas com que se debate o seu ministério. Já antevejo os próximos despachos de demissão que proferirá acompanhados pela gentil oferta da salutar bofetada, ou uma fila de artista indigentes, dos muitos que já existem em Portugal, alinhados à porta do ministério para recolher esta nova modalidade de subsídio que lhes permitirá - por fim - resolver as graves dificuldades com que se defrontam. Por último, como seria natural, aguardo em jubilosa esperança pelo dia em que me deixe prestar-lhe a merecida homenagem pessoal por tão prodigiosa ideia, distribuindo-lhe uns bons pares de salutares bofetadas de agradecimento, em nome de um povo profundamente reconhecido.
PS: Como sempre, o autor mantém a grafia anterior ao (des)acordo ortográfico. |
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