Tal como o resto do país assisti este ano ao transformar do remanescente dos meus sonhos nacionais em contos de fadas, ou melhor, em contos dos irmãos Grimm, dado o evidente ar de pesadelo que a eles ficou associado. Foi assim possível verificar que ainda faltam vulgares compressas nos hospitais sob tutela do Estado, papel higiénico nas esquadras de polícia e material pedagógico elementar em muitas escolas do sistema público. Mas, simultaneamente, que é possível encontrar alguém que se disponha a pagar 1372,5 mil milhões de Euros pelos direitos publicitários de clubes de futebol, à tromba estendida, sem que ninguém levante sequer um Oh! de espanto perante este autêntico oxímoro nacional, num estranho campeonato de vaidades, a ver de quem fica melhor na fotografia. Tudo isto num país em que já se morre de fome, onde há trabalho escravo devidamente referenciado e comprovado e em que é mais fácil encontrar um idoso morto de solidão numa qualquer enxerga nas nossas cidades, vilas, ou aldeias, do que telemóveis topo de gama que tenham ficado por vender, nos saldos do refugo de Natal.
 
Assim, em Portugal, sinto-me atingido pelo toque perverso de um duende brincalhão, que em vez de transformar sapos em príncipes ou abóboras em coches dourados, faz precisamente o contrário e tem uma espécie de toque de Midas invertido, tornando cada resquício precioso das minhas esperanças neste país num monte de ferro-velho ou, melhor ainda, num contrato social rasgado pela falta de cumprimento de cláusulas básicas de funcionamento do mais elementar Estado de Direito Democrático. Em vez de preservar essa pedra filosofal que é a dignidade humana, este Estado de aprendizes de feiticeiro transmuta a matéria-prima de um povo digno e trabalhador em sumptuosos contratos publicitários para a tribo da bola, em gente que morre nas urgências sem assistência e em filas de espera para adquirir automóveis desportivos de topo - Ah! Não esquecer! - e em bancos falidos.
 
Assim, com a Vossa devida licença, vou entrar em toda esta alegoria mais à letra e irei passar simbolicamente o Ano Novo a (ab)obrar em torno disto tudo, convenientemente transformado na alegoria que é ter nascido abóbora, ser abóbora, e morrer abóbora, sem nunca estar preocupado com a ilusão de ter sido um coche dourado, ou de ser devorado por um qualquer lobo, perdão, banco mau.