Hoje, as minhas palavras não me pertencem. São inteiramente de outra pessoa a quem delas faço uma formal entrega. Uma pessoa que é um Pai e que eu não conheço. Um homem que criou uma filha para este planeta e a viu partir muito antes do seu tempo.
 
Há quem acredite que não pertencemos a este mundo. Que somos algo de emprestado, com devolução garantida e com rumo à eternidade. Efectivamente, não sei o que somos e porque temos estes prazos tão variáveis de entrega a esse lugar misterioso e desconhecido. A única coisa de que tenho a certeza é desta insondável natureza que é a do Amor incondicional. O Amor que nos faz transcender de nós próprios e entregarmos todo o nosso ser, todo o nosso enlevo, a um outro ser, a quem ajudámos a dar uma Vida. Um ser a quem ouvimos o primeiro choro, a quem olhámos com um primeiro e indescritível carinho, a quem ajudamos, atrapalhadamente, a mudar as primeiras fraldas. Alguém, enfim, que fomos acompanhando até se tornar aquela jovem mulher, promissora, por vezes teimosa, por vezes insegura, por vezes encantadora, mas sempre, mesmo sempre, a nossa muito querida filha.
 
É isto o que um Pai pensa de uma filha. Uma Mãe, também. Mas, peço desculpa, como homem e como Pai, só devo falar daquilo que sinto e que sei. Pelas Mães deste mundo falarão elas mesmas pois, dos seus ventres carregados de Esperança e de Alegria sai um sentimento imenso e muito próprio, que ao homem está vedado de conhecer na sua plenitude.
 
Oiço agora aquela frase, mil vezes repetida "se for possível, Pai, afasta de mim este cálice". Um cálice horrível, tremendo, cheio de desgosto inconsolável. Deixa-me este tesouro, com todas as suas virtudes e defeitos, e deixa-me assistir a todos os passos do seu futuro promissor, enquanto eu próprio caminho para a minha velhice. Por favor, leva-me a mim, primeiro, mas não me leves uma filha tão à pressa, tão repleta de momentos ainda por viver.
 
Quando o destino bate à porta, com estrondo, com frieza e alarido, para destruir algo tão especial, somos levados a pensar se ele vai ser mais forte do que nós. A resposta é, não pode, nem deve. O Amor não tem tempo de duração e a Vida deixa um rasto perfumado de bons e inesquecíveis momentos, ciosamente conservados até ao nosso último suspiro. O Destino cruel tem de ser espezinhado, destruído, e trocado pela luz de todos os sorrisos, de todos os carinhos, de todos os bocadinhos bons que a Inês deixou ficar.
 
Um dia, alguém afirmou a um célebre matemático que a ciência era uma coisa maravilhosa, pois tudo conhecia e tudo explicava. Este matemático, ateu convicto e notável professor, parou uns instantes, olhou para essa pessoa e pediu-lhe, nestes termos suficientemente aproximados:
 
"Se acha que a ciência explica tudo, faça favor de me indicar qual é a equação que descreve o Amor que temos pelos nossos filhos."
 
Não teve, não tem, nem nunca terá resposta. O Amor de Pai não se deixa apanhar pela crueza dos números, nem resolver pela frieza de um algoritmo. É um todo que consome o Universo, sem deixar rasto ou instrumento de medida.
 
Dizem que existe um lugar onde todos os sonhos são possíveis. Um lugar em que todos os Amores se encontram. O local solene que todo o ser humano deseja, mas de onde, por vezes ,também foge, pois aí todas as intenções são puras e o sentimento dita a sua própria Lei.
 
Este é o local onde a Inês poderá, para todo o sempre, ser descoberta e reencontrada. É para aí que vão estas minhas palavras e onde desejo que fiquem com toda a minha Amizade.
 
Esse local é o Coração do seu Pai, pessoa que não conheço, mas que é um abrigo sólido e seguro do Amor Perpétuo pela Inês.