Há dias a Assembleia da República (AR) voltou a escrutinar o estado da nação no que diz respeita às touradas por proposta do partido Pessoas, Animais e Natureza (PAN), que em três singelos artigos, pretendia proibir a realização de touradas em Portugal. Prevaleceu o bom senso da maioria dos deputados que, numa invulgar coligação transversal, uniu a extrema-esquerda ao centro-direita e se opôs à investida.
Já anteriormente o partido dos 75 mil votos tomara iniciativas idênticas. O PAN tem sempre argumentos para aureolar os seus esforços de acometer contra os bárbaros resquícios medievais de alguns nativos, que encontram diversão e folia no sofrimento, na tortura e no derrame de sangue dos touros que, quero acreditar, eles pretendem defender como animais e como espécie. Assim, periodicamente, como um pêndulo que não hesita nem abranda, como a pedra do mito de Sísifo, a AR volta ao exame do caso, reprovando por larga maioria a pretensão que uma minoria urbana e aguerrida pretende impor a uma comunidade que pode não ser angélica, mas tem uma tradição, interesses constituídos e representa uma cultura que pertence a um país que preserva e respeita a diversidade cultural, devidamente defendida e honrada na sua Constituição, a sua lei fundamental.
 
É claro que a derrota do PAN, que conseguiu levar a reboque alguns militantes antitaurinos de outros partidos, não maculou o partido, que arremeteu a seguir para outros alvos. Pouco tempo depois, em Lisboa, panteão que recolhe o maior número de querubins da nação, procurou proibir a realização de touradas na Praça do Campo Pequeno de forma a “erradicar tal prática na cidade”, e por isso ser necessário “à luz dos imperativos éticos do nosso tempo”. A proibição foi de novo reprovada nos votos da assembleia lisboeta, mas isso também não é problema para o PAN. Já antes procurara defender a sua “sociedade progressista” do “espetáculo degradante” em Póvoa de Varzim, cidade em cuja praça de touros se costumava realizar anualmente, no final de julho, a Grande Corrida TV Norte, com lotação esgotada e uma respeitável audiência num canal de televisão, dando assim a cidade, o canal e a respetiva audiência preocupantes sinais de um certo medievalismo troglodita. E a solução seria original: declarar Póvoa de Varzim cidade livre de touradas, como outras são de armas nucleares. Foi agora decidido pela câmara que, a partir de janeiro de 2019, não haverá mais espetáculos desses na praça de touros na cidade, que será reconvertida numa praça multiusos. Mas o PAN acha que isso é insuficiente, quer que a “prática anacrónica” seja extensiva a todo o concelho.
 
Devo confessar que não sou adepto taurino, muito menos aficionado, as corridas de touros a que assisti na minha juventude não me galvanizavam e nunca fui de ficar preso a ver corridas de touros na televisão. O sofrimento dos touros e até dos cavalos não me dá qualquer comprazimento e acredito que é uma tradição sem piedade, até concedo que seja realmente medieva, apesar de a tourada em Portugal ser bastante mais branda que em Espanha. Mas também admito que admirei a arte na lide de Manuel dos Santos, as ousadias acrobáticas de Ricardo Chibanga e ainda vibro com a coragem genuína dos forcados, que nos fazem pensar no que será a irracionalidade, a razão e a essência do ser humano. Acredito, porém, que toda esta querela é mais folclore mediático do PAN do que preocupação autêntica. As querelas taurinas, com o respetivo enviesamento polémico da comunicação social, são o oxigénio do partido e a sua singular prova anual de sobrevivência. Ganha o PAN visibilidade e expõe os outros partidos a fratura interna, mas é mais folclore para os media. E os seus apoiantes vão espetando farpas à sua maneira e garantem que, como já li, “se tourada é cultura, canibalismo é gastronomia”. Seja como for, a Constituição garante que “o Estado não pode programar a Educação e a Cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”, e fala-se em três milhões de pessoas que participam nas atividades com touros. Serão também estes que garantem a existência da espécie, caso contrário não estou a ver como é que o touro sobrevivia.
 
Não pertenço à tribo taurina, mas estou com certeza na trincheira dos que se opõem a algumas minorias ativas e arreigadas que alinham na nova ditadura insurgente do politicamente correto e pretendem simplesmente martelar qualquer prego que fique com a cabeça de fora da superfície plana e lisa a que chamam “sociedade civilizada e progressista”. Os taurinos não são decerto nenhum coro de igreja que acompanha as missas dominicais, mas pertencem à diversidade cultural de um país também diverso e cultural que não obriga ninguém a gostar de gado selvagem, nem a ir a praças de touros ou a ver touradas na televisão. Devem ser respeitados, mesmo que nem tudo mereça a nossa concordância. E porque também queremos que as tribos a que pertencemos, minoritárias ou não, sejam respeitadas, porque, caso contrário, será muito triste e insípida a sociedade “progressista e civilizada” que vem aí. Nada mais que um mundo monolítico, infame e totalitário, onde a cada prego que se destaque dos padrões impostos pelos novos déspotas esclarecidos, só resta como destino o bater de um martelo até que tudo fique bem liso e uniforme. As touradas são apenas um dos muitos casos que já é possível entrever.