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Provavelmente, os últimos 50 anos vão ficar registados como os mais fantásticos da minha vida. Mesmo que assim não fosse considerado, não tinha outro remédio pois foram os únicos a que tive o prazer de assistir pessoalmente até agora.
Passei por fases espantosas. Tive de aprender que certos povos eram os nossos inimigos, depois se tornavam nossos amigos e, finalmente, voltavam a ser nossos inimigos outra vez, pois tinham tendência a portar-se mal de vez em quando, como se fossem crianças irrequietas e que não se sabem respeitar a excelente ordem internacional em que vivemos.
Aquela mesma ordem internacional, por exemplo, que diz que os aviões comerciais podem voar por cima dos problemas alheios, mas não podem cair em cima destes, e muito menos serem abatidos por estes mesmos problemas. Sim, porque estava combinado que a guerra civil só chegava aos 32 000 pés; a partir desse nível de voo, já não tínhamos nada a ver com o assunto.
A dada altura cheguei a pensar que o mundo era uma espécie de condomínio gigante onde se sucedem episódios de violência doméstica. Nuns casos, chamava-se a polícia ao primeiro incidente ou ainda antes mesmo de se escutarem os primeiros gritos; noutros casos, parece que era preciso uma circunstância do género de um frigorífico sair disparado por uma janela para que se decidisse fazer alguma coisa; noutros ainda, exigia-se a presença de cadáveres, daqueles que já cheiram mal na escada, antes que alguém se incomodasse com o assunto.
Infelizmente, para complicar um bocadinho mais as coisas, parece que até mesmo o interesse pelos cadáveres não é uniforme: há cadáveres que cheiram muito mal, do género dos cadáveres europeus que juncaram os campos de cultivo de girassol de uma pequena cidade no Leste da Ucrânia, e os cadáveres que cheiram menos mal, tal como os de todas as crianças que morrem todos os dias de fome e de escravidão nas minas de produção do Coltan, aquele minério misterioso, muito caro e indispensável para o fabrico dos nossos queridos telemóveis e que tem enchido de felicidade e progresso os povos da muito democrática República do Congo.
Mesmo assim, têm sido quase cinquenta anos maravilhosos em que fui assistindo (com respeito e satisfação) ao declínio de expressões pejorativas como maricas, paneleiro ou larilas, mas em que, infeliz e simultaneamente, os gordos parece que continuam a ser chamados de gordos, mesmo que se usem eufemismos tais como forte, obeso ou com uns quilinhos a mais. É fascinante viver num mundo em que já ninguém me julga pela minha orientação sexual mas onde, simultaneamente e em torno de uma qualquer barriga, ainda se acumulam os risinhos complacentes e os estereótipos da cerveja, do pneu Michelin ou da falta de exercício.
Contudo, salvo melhor opinião, o verdadeiro triunfo da minha geração não terá sido esta sensação de euforia por sermos todos iguais e termos todos atingido a mesma dignidade (excepto os gordos e as crianças das minas de Coltan da muito democrática república do Congo, evidentemente), mas o termos vencido (quase) todas as barreiras e convenções que a comunicação nos impunha, especialmente no uso dos diversos signos linguísticos, incluindo aqueles que resistiram heroicamente ao brilhante acordo ortográfico e os que foram gerados pelo sublime léxico das novas palavras com a letra K: k não kustam kuase nada a eskrever e k kobrem kuase todo o nosso vokabulário. Koisa linda!
Quando refiro o triunfo sobre (quase) todas as barreiras e convenções à comunicação refiro-me ao fim dos preconceitos que nos impediam de utilizar certas palavras, que viviam sob o estigma de uma censura degradante, amarradas a convenções decrépitas e que timidamente surgiram, primeiro, nos western spaghetti dos anos setenta, depois ganharam terreno na Gaiola Aberta do inesquecível Vilhena e, finalmente, triunfaram na sua última barreira, representada por um determinado jet set onde tudo começou por um «Ó Tia! Isso não se diz!» até a hodierna e completa banalização deste palavreado oprimido por séculos de boas maneiras (excepto nalgumas tabernas seleccionadas e em locais picarescos como o mercado do Bolhão).
Assim, hoje assistimos orgulhosos a esta nova comunicação sem classes, onde a estultícia convive pacificamente com filho da puta, a merda anda de mãos dadas com o coliforme fecal, o marido enganado se passeia alegremente como cabrão, e a vagina fica guardada onde está, pois não quero ter de pôr uma bolinha no topo superior direito desta coluna.
Efectivamente, parece que esta mesma vagina teima em resistir aos sinais dos tempos, mantendo uma discrição que a mantem ao abrigo da globalização e dos telejornais, onde me é possível observar os últimos cadáveres expostos na faixa de Gaza, mas onde a mãe da humanidade teima em surgir semi-encoberta por esse paradoxo a que se dá o nome de fio dental.
Muito recentemente, a artista japonesa Megumi Igarashi deu com os ossos na cadeia (perdão, foi detida) porque ainda não tinha percebido que mostrar corpos humanos desmembrados em público não é considerado obsceno, mas que mostrar a sua vagina já o era. Ou seja, em termos pornofóbicos (inimigos da moral), estamos perante o facto iniludível de que podemos assistir, com toda a naturalidade, ao espectáculo dos corpos sem vida no telejornal, mas que nos é vedado o apreciar a origem comum de todos os corpos (a vagina) por ser considerada uma coisa obscena.
E, quem assiste com mal disfarçada naturalidade e entre duas garfadas de bifana a estes espectáculos de morte em directo, quem considera que os aviões comerciais devem voar alegremente sobre as guerras civis até aos 32 000 mil pés (excepto se forem abatidos), quem não faz a menor ideia do que é o Coltan, donde vem ou a que custo é extraído (até ter lido esta coluna), quem não percebe que chamar de gordo alguém pode ser mais degradante e pornofóbico do que qualquer filme de triplo X, ou quem insiste em escamotear a vagina como uma espécie de aristotélica causa eficiente de todos os problemas, nada mais faz do que perpetuar o que é verdadeiramente obsceno na espécie humana:
- Esta tendência para tapar o sol com uma peneira ou, se preferirem, o guardar pudor nas pequenas coisas (a vagina) deixando à vista o que deveria constituir uma vergonha maior para todos nós, a nudez moral em que vive meio mundo, numa autêntica e proclamada globalização da indiferença pelo seu semelhante.
PS: Como sempre, o autor mantéma grafia anterior ao (des)acordo ortográfico.
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