Nestas linhas que hoje vos escrevo, quero reflectir acerca da nossa cidade e dos tempos que correm assim como das sementes que estamos a lançar para o futuro. Creio que num tempo de férias e descontracção poderá ser um tema que o leitor possa reflectir e de onde possam sugerir ideias.
 
Há quem diga que a maioria dos habitantes do Entroncamento não nasceu na nossa cidade ou que não possuem cá as suas raízes, porém permita-me que discorde em parte com esta afirmação esperando que no fim desta crónica possa ter esclarecido relativamente à minha discordância.
 
Hoje em dia surgem vozes a dizer que o Entroncamento já não é o que era (sendo eu uma delas, não retiro o que digo), que a nossa cidade perdeu o fôlego, que a nossa cidade está pior do que era, que a nossa cidade não atrai. Mas tudo isto carece de algo mais do que esta análise fria e pouco profunda, é necessário reflectir nas causas destes acontecimentos, na génese destes problemas e no que podemos fazer para inverter esta situação.
 
Fazendo uma leitura social, nos anos 60, 70, 80, quando as pessoas se fixavam na nossa cidade, elas faziam-no com o orgulho de vir para um lugar onde iriam ter um viver diferente do que tinham nas suas terras de origem. Tinham registado em si o orgulho de possuir uma casa com as regalias que existiam na altura, de morar numa vila/cidade que crescia, que era bem mais agitada do que as vilas e aldeias de onde eram originais. Vinham trabalhar na grande CP ou no Exército, vinham ser “alguém” comparado com as pessoas que ficavam. Era um enorme orgulho morar no Entroncamento, as pessoas acrescentavam valor a uma terra que em troca lhes dava algo mais do que o trabalho, oferecia qualidade de vida a quem vinha de fora atribuindo uma “posição superior” sobre quem ficava na terra.
 
Era este o desejo que fazia com que mais pessoas quisessem morar no Entroncamento, a cidade dos comboios, do emprego, a cidade que os levava nos carris até qualquer lugar de Portugal. Essa febre prolongou-se até aos anos 90 e inícios da década passada com o mercado imobiliário crescente, estes factores fizeram com que o Entroncamento rapidamente atingisse níveis de crescimento brutais, batendo recordes regionais e até nacionais. Com isto o crescimento da economia era também elevado, levando a nossa cidade a ter dos melhores níveis de qualidade de vida de Portugal. A nossa cidade era a cidade do comércio, as pessoas tinham orgulho em morar cá, em vir cá às compras, tempos realmente interessantes para a nossa cidade mas igualmente enganadores, pois tal como referem muitos, o sucesso pode trazer-nos uma falsa sensação de estabilidade e segurança.
 
Este era o Entroncamento, o entroncamento das linhas, o entroncamento dos desejos, o entroncamento do sucesso, da qualidade de vida, o entroncamento da habitação com a ambição.
 
O crescimento era tão grande que se cometeram os mais diversos erros, desde a época de 60 até à ultima década. Começamos nos tempos mais antigos, ao perdermos a Compal com a falta de uma visão mais alargada, fruto dos anos que corriam, perdemos uma zona industrial relevante na região, perdemos a capacidade de ser um motor dinamizador da nossa própria região. Foram anos em que a economia girava sobretudo à volta dos comboios e dos militares, passando também pelo sector imobiliário inflacionado pelo crédito fácil. Os nossos sectores de actividades eram dependentes de um grande financiador: o Estado. Com toda essa ilusão, não nos preparámos para a mudança de paradigma, que um dia estes dois grandes pilares de apoio à nossa economia poderiam fraquejar e que com isso nos poderíamos tornar numa daquelas terras de onde muitos que a fizeram e fazem, quiseram simplesmente sair.
 
Precisamos de muito mais, mais do que simplesmente dizer que o Entroncamento está a definhar.
O sector da ferrovia sofreu uma restruturação forte e possui agora outra, que parece esquecer a cidade ferroviária. A manutenção ferroviária pode e tem de ser o nosso maior forte, mas para isso temos de fazer valer a nossa voz nos lugares de decisão. Na minha opinião perdemos influência com o falhanço da privatização da EMEF,com isso temos de fazer valer a nossa história e o nosso “know-how”. O nosso “know-how” que é dos maiores em Portugal nesta área precia de ser reconhecido, certificado, daí a forte necessidade de possuirmos no Entroncamento ensino superior técnico nesta área. Algo que infelizmente também perdemos e que demora a se conseguir trazer de volta. Precisamos de atrair para a nossa Zona industrial (e para a vindoura) empresas que sejam fornecedoras deste sector, precisamos de colocar o nosso “lobbie” ferroviário a trabalhar de maneira a atrair, a criar condições.
 
Não podemos perder este comboio, temos de ser preserverantes e insistentes, temos de ser cativantes, temos de possir um plano, traçar metas definindo objectivos, ser persistentes. Assim iremos criar valor, postos de trabalho, o desejo de ficar.
 
Acredito e desejo que ainda estamos a tempo de inverter nesta área.
 
Remetendo à área da defesa, possuímos o melhor pólo de manutenção do Exercito, contudo observamos um quartel “a meio gás”. Precisamos ter, mais uma vez, junto do governo uma pressão constante para podermos ganhar ainda mais relevância, trazendo mais valências militares e com isso os respectivos efectivos. Ainda neste segmento da defesa, o Entroncamento devia de estar na primeira linha a defender para que a antiga BA3 fosse reactivada, mais do que isso, que a antiga BA3 fosse aberta também ao tráfego civil. Esta base possui uma localização geográfica que poucas outras conseguem ter, é ladeada a norte por uma auto-estrada que em pouco mais de uma hora nos leva a Lisboa, e ladeada a sul por uma linha de comboio que, com as devidas rectificações, conseguiria numa hora colocar os passageiros no centro da nossa capital. Quem ganhava com isto? A região e logo a nossa cidade. É necessário possuirmos a capacidade de antecipar as soluções para a nossa cidade na área militar e mostrar que nesta área podemos crescer e trazer ganhos para o nosso concelho.
 
Este ano também pode ser o início de uma mudança de paradigma na cultura da nossa cidade, digo pode pois ao dia de hoje desconheço o plano cultural para o Cineteatro S.João. Acredito que o equipamento bem gerido, e com um projecto cultural relevante e profissional, pode ter a capacidade de alavancar a cultura na nossa cidade e com isso promover o comércio. As agendas culturais ricas na sua essência são programadas com bastante antecedência, para que se possam escolher espectáculos relevantes. Pena que a menos de um ano ainda não se conheça o projecto cultural, a linha orientadora. A obra por si só não se torna importante, o que se fará com a ela, isso sim será relevante. Não falo com o fim de denegrir a obra, falo sim com o intuito de podermos gerar mudanças na nossa cidade.
 
Com a chegada do Cine Teatro que papel terá o Centro Cultural? O que fazer com este edifício situado bem no centro da nossa cidade? Para mim seria o lugar ideal para a juventude, um edifício que faça algo de modo a motivar os nossos jovens a ficar na nossa cidade.
 
No desporto, sempre fomos e continuamos a ser uma referência na região, havendo a necessidade de continuar a investir a fim de não perder a nossa relevância. É preciso pensar fora da caixa, não cometer erros do passado, investindo com uma visão com foco no futuro e não do presente. Porque não seguir o exemplo do que se fez na educação? Aproveitar ainda melhor os nossos espaços desportivos, mantendo-os, criando sinergias com os nossos clubes e associações.
 
As gerações mais recentes do Entroncamento, aqueles que já cá nasceram, aqueles que cá começaram a sua vida,aquelas que cá têm as suas raizes, esses não podem ter em si o mesmo sentimento que tiveram os seus país ou os seus avós, o desejo de ir procurar uma localidade que lhes ofereça melhor qualidade de vida, um emprego, um status… Do meu tempo de liceu, pouco são os que hoje ficaram nesta nossa cidade, alguns vêm cá aos fins de semana para visitar família, optando por procurar noutros lados aquilo que o Entroncamento já foi.
 
O Entroncamento tem de possuir um pensamento estratégico com a finalidade de devolver a vida à cidade.
Sendo justo alguns passos que têm sido dados, ainda assim não podemos dá-los sem possuir uma visão global, sem ter uma estratégia bem definida.
 
Muito mais temos de fazer para voltar a “entrocar” o Entroncamento.
 
Precisamos de entroncar as gentes para além das linhas do caminho de ferro, precisamos de devolver a vida à cidade, precisamos de devolver às pessoas o orgulho de viver no Entroncamento, de morar perto da capital (isto sem a confusão dos subúrbios de Lisboa) oferecendo verdadeiras condições de modo a fixarem-se no Entroncamento.
 
Vamos voltar a entroncar o Entroncamento? Vamos combater o desntroncamento da nossa cidade? Eu vou, e você?