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A sociedade portuguesa teve esta semana conhecimento da proposta da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) para que os restos mortais de José Afonso fossem trasladados proximamente para o Panteão Nacional, num gesto que, já devidamente distanciado da morte de quem se tornou uma lenda, procura enfatizar o que José Afonso, a sua música e o testemunho de honra e integridade que deu continuam a ser para o país.
Depois de conhecida a proposta, Zélia Afonso, a viúva do intérprete de tantas canções de tanto simbolismo para o país, como Grândola, Vila Morena ou Os Vampiros, veio dizer publicamente estar determinada a opor-se a essa proposta da SPA. E também Pedro Afonso, um dos quatro filhos do cantautor que sempre mostrou sentir-se melhor entre os humildes e deserdados que nos pedestais do poder e das mordomias feudais ou republicanas, referiu numa nota pública que a vontade do pai deve sobrepor-se à dos demais. Pedro Afonso reconhece que é “meritória a intenção que inspira a proposta” da SPA, mas opõe-se sem hesitação ao seu conteúdo e ao que representa.
Numa perspetiva linear, o caso da atual proposta da SPA parece natural e líquido, devia parar e ficar por aqui. Pouco antes da sua morte, que se aproximava com a toga negra da esclerose lateral amiotrófica, José Afonso deixou claro que, quando partisse, não queria cerimónias, por cima do seu caixão que não fosse nenhum símbolo partidário ou outro, não mais que um singelo pano vermelho; e que a sua campa fosse um chão raso, sem nada que a elevasse ou destacasse das demais. Foi uma atitude de notável nobreza e dignidade, em perfeita coerência e consonância com a sua vida, que não foi a de santo, mas teve brilhos e períodos mais deprimidos, aspetos que estão longe de o diminuir. A acompanhá-lo na sua última viagem para o cemitério de Setúbal, as 30 mil pessoas que puderam estar presentes quiseram prometer-lhe que se o homem morria, haveria alguma coisa dele, a sua voz mágica e cativante, as canções inconformadas de quem não queria ser de nenhum carreiro e a sua humanidade que nunca iriam acabar.
Sempre se sentiu nessa vontade radical e admirada de José Afonso a amargura com que viu aproximar-se a sua hora. Preso, perseguido e muito censurado pelo Estado Novo; expulso do ensino público; incompreendido por alguns já depois do 25 de Abril; por fim, amargurado pela traição inexorável da esclerose, que em 1982 o atingiu, e logo na sua bela voz timbrada numa pureza de rebelde impenitente, que emocionava, era fraterna e se identificava com os mais fracos e desprotegidos, os que considerava seus e iguais.
Na década de 1960, levado pelos ventos do acaso, que habitualmente acompanham o “andarilho”, ou por alguma razão que desconheço (talvez por que tal como gostava de abraçar gente abandonada e causas perdidas, também gostasse de se perder pelos caminhos velhos…), José Afonso chegou um dia a Malpica do Tejo, uma remota aldeia beirã junto ao Tejo Internacional, torrão xistoso e ermo das minhas raízes familiares, que não é destino para ninguém a não ser aos que de lá são ou lá nasceram. Criou-se de imediato uma empatia óbvia entre os aldeãos e José Afonso, como se cada um deles fizesse parte do outro.
Da disponibilidade que homens e mulheres da aldeia mostraram, resultaram logo quatro canções singulares que lá viviam na memória coletiva e a que José Afonso, depois de as recolher e gravar, deu o seu cunho interpretativo e um élan nacional e inesquecível. Essas canções, de feição marcadamente etnográfica popular, foram Maria Faia, A Moda do Entrudo, Lá Vai Jeremias e Oh! Que Calma Vai Caindo. Também ali, em Malpica e no seio da simplicidade das sua gentes, sentia José Afonso “em cada esquina um amigo” e “em cada rosto igualdade”. Souberam também depois os malpiqueiros ser-lhe gratos e dedicados. À entrada da aldeia, na sala de visitas aberta que souberam criar, deram-lhe um busto e o nome do parque. E neste, nos últimos anos, a cada 1º de Maio, devotam-lhe, com o apoio organizativo da Associação José Afonso (AJA), o Festival José Afonso, cantigas que ele cantou, interpretadas por músicos que com ele privaram ou apenas jovens que o admiram as suas músicas e lhes dão novas versões (algumas bastante criativas). Tudo, sem cobrarem um cêntimo à organização, que também gosta que esta partilha chegue ao país, e este venha à aldeia que soube criar uma fraternidade com José Afonso e com quem queira “trazer outro amigo também”
José Afonso era um cantor livre e, por ser coerente e sempre ter resistido à tentação de seguir o carreiro, optando antes pelos seus próprios trilhos (mesmo que em sentido contrário), conferia originalidade à tradição, fosse o fado de Coimbra, as modas de Malpica ou as canções de intervenção política, coisa sensível onde era preciso misturar o “ouro e a cera”, jogar com duplos sentidos em cada verso e driblar a censura. Tornou-se, com coragem, num pioneiro, dos mais genuínos que o país conheceu.
Um dia, depois de homenageado em Coimbra, José Afonso proferiu uma frase que ajudará a definir o homem que preservava sobretudo a liberdade criativa e o espírito crítico e democrático, embora tivesse deste uma visão própria e que o levou a tomar opções que lhe valeram muitas críticas. “Não me quero converter numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem”, disse nessa vez José Afonso. Por não se querer tornar numa instituição não aceitou a Ordem da Liberdade que o Presidente António Ramalho Eanes uma vez lhe quis atribuir. Quando faleceu em fevereiro de 1987, a cantor de Os Vampiros, já pertencia ao país, era de Coimbra (onde estudou) e de Setúbal (onde viveu), de Grândola e de Malpica (onde se enfeitiçou), de Mangualde e Lagos (onde foi professor), de Belmonte, de Aveiro… Em todos os locais lhe pediam o mesmo: “Volta sempre, a casa é tua”.
É compreensível e legítima a posição da família de José Afonso e da própria AJA, liderada por Francisco Fanhais (que nasceu na Praia do Ribatejo e estudou e chegou a cantar e a ser proibido de o fazer no Entroncamento), em respeitarem a sua vontade declarada de descansar numa campa rasa no cemitério da Senhora da Piedade.
A questão é a de entender o contexto (ou contextos) em que o velho “bicho-cantor” das serenatas em Coimbra terá declarado essa vontade. José Afonso, que combatera como um soldado raso, com a sua poesia e o seu talento e uma voz que o tornaram ímpar o Estado salazarista e depois de Marcelo Caetano, estava desiludido com o que a classe política dominante trouxera para os destinos do país. Nos últimos anos, o Zeca, como os mais próximos o tratavam, vivia em rejeições, recusas e negativas, lamentando o que haviam feito da fraternidade utópica com que sonhara, era esse então o seu estado de ânimo. Não era com o povo, os muitos amigos e o país que amava na sua maneira, que José Afonso se encontrava divorciado; estava sim amargurado com o destino para o qual Portugal havia sido empurrado, e revoltado com o que esse mesmo destino lhe trazia precocemente numa doença degenerativa. A vontade de chão raso foi apenas resultante da altura, do período pessoal, em que surgiu, não mais do que isso.
Termino apenas com uma questão. É legítimo em absoluto que uma declaração que José Afonso fez uma ou mais vezes em certas circunstâncias pessoais limitativas e negativas (desilusões, desencantos e por fim, uma doença que o afetava dramaticamente) tenha um imperativo tão grande em relação ao local onde possa repousar? Ficaria José Afonso descontente ou triste em ver o seu país recordá-lo 31 anos após o seu desaparecimento físico e propor para ele o espaço dos grandes que “da lei da morte se foram libertando”?
Não tenho certezas, mas julgo que o assunto não mereceria o destino de tabu que lhe querem reservar, com base numa lógica linear e estereotipada. O país e a SPA têm a obrigação de recuperar e preservar as gravações originais, zelar pelos direitos de autor e promover a sua obra, cheia de história e fino sentido crítico, nas escolas e entre as novas gerações. Mas não terão direito a reclamar para o panteão um dos grandes vultos identitários do país, eternizando o que ficou de José Afonso? Será mesmo profanação?
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