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A Propaganda não é uma criação do século XX, mas foi nele que se tornou uma quase ciência. Foi fruto dela a «santificação» ou «diabolização» de certos personagens, com o intuito de produzir uma reacção clara e objectiva das massas (a chamada ortopraxia, a que alude Jacques Ellul, no seu clássico "Propagandas - Uma abordagem Estrutural"). Efectivamente, não é possível obter uma resposta política, praticar uma guerra, ou condenar publicamente alguém, etc., se essa pessoa não for - toda ela - envolvida no espectro de criatura de fábula, do tipo Bruxa Má, ou Bela Adormecida. Não pode subsistir a ideia de pessoa má, com aspectos bons, ou pessoa boa, com aspectos maus: é o tudo, ou nada.
Escreve Vladimir Volkoff, na sua "Pequena História da Desinformação" (p. 135): «O Maniqueísmo (...) a desinformação visa quase sempre a criação de dois campos, os bons e os maus». Caso assim não fosse entendido, isso geraria hesitações intoleráveis no eleitor, no soldado, ou em qualquer elemento das massas que seja levado a agir num determinado cenário (um eleitor tem de colocar uma cruz em certo local, um
soldado tem de ir para guerra e matar, se necessário for; tudo isto são acções concretas, absolutas, e que não podem ser exigidas a uma pessoa em estado de hesitação).
Lê-se em Anne Morelli, no seu clássico "Princípios Elementares de Propaganda de Guerra" (p. 32): «Não se pode odiar um grupo humano no seu conjunto, mesmo apresentado como inimigo. Por conseguinte, é mais eficaz concentrar este ódio ao inimigo no líder adversário. O inimigo terá assim um rosto, e esse rosto será
evidentemente odioso (...) Mas, em toda a medida do possível, é necessário diabolizar este rosto inimigo, apresentá-lo como o imundo a esmagar, o último dos dinossauros, um louco, um bárbaro, um criminoso infernal, um carniceiro, um perturbador da paz, um inimigo da humanidade, um monstro... Seria deste monstro que viria todo o mal. O objectivo da guerra seria portanto capturá-lo e o seu derrubamento significaria o regresso imediato à moral e à civilização».
Não se pretende aqui «branquear» a figura de ninguém, em especial, nem desterrar essa pessoa para os confins do Inferno; pretende-se dizer que qualquer estadista mais conhecido tem bons e maus momentos, sendo a propaganda encarregue de o «diabolizar», por razões políticas (cuja bondade ou maldade ínsitas não pertence aqui avaliar).
Contudo, diz-nos a realidade, não é politicamente correcto realçar aspectos positivos de uma determinada personagem, sem correr o risco - imediato - de ser «crucificado» em praça pública. Assim, como pode ficar muito bem, em dado momento, tecer largos encómios a uma outra qualquer.
Tudo isto parece obedecer à lógica de um fenómeno que a socióloga norte-americana Elisabeth Noell-Neumann estudou activamente e baptizou de «Espiral do Silêncio». Dou o exemplo de Salazar, que foi alvo (postumamente) do galardão de «maior português de sempre», em 2007, e destarte o que Vox Populi diz dele, a mais das vezes. Esta situação só é possível, como ensina aquela experiente e conhecida
socióloga, porque as pessoas são capazes de dizer uma coisa em público (para não gerar antagonismos face à voz corrente) mas, simultaneamente, podem pensar outra coisa diferente e que só expressam no segredo dos plebiscitos, onde não são exposta ao comentário de quem as ouve.
Assim, retomando Anne Morelli e para concluir: «Em certos casos este retrato do nosso inimigo parece-nos justificado, mas é necessário não perder de vista que na maior parte das vezes este monstro é muito apresentável antes do conflito e mesmo, em certos casos, após a vitória ou a derrota» (op. cit.; p. 32-33).
PS: Como sempre, o autor mantém a grafia anterior ao (des)acordo ortográfico. |
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