Há uma singularidade urbana que em breve vai deixar um traço particular no Entroncamento e que aqui e ali começa já a revelar partes da sua anatomia deixando no ar uma curiosidade sobre a sua função e importância social quando ela estiver em pleno. A bem dizer, a ciclovia (na teoria) / via pedonal (na rotina que já se adivinha) é aquilo que à escala da cidade se pode considerar como um acordo de regime. Imaginada com compromissos por parte da “legislatura” de Jaime Ramos e do PSD, é extraída do sonho para a rua já no segundo mandato socialista de Jorge Faria, depois do trabalho de sapa ter decorrido nos anos anteriores. Julgo que, sem favor, é uma obra inovadora, a que as dificuldades encontradas, na sua concretização e em contornar as particularidades de direitos e posses individuais enfrentadas, só podem acrescentar mérito. Transformar e reabilitar a tosca cobertura de placas de um cimento grosseiro e rugoso sobre uma ribeira envergonhada, que mais é uma tóxica cloaca da cidade, numa passagem digna e de pedalar ou pisotear confortáveis, capaz de permitir a travessia em diagonal de quase toda a cidade é uma aposta que não só foi ousada como é indiscutivelmente inteligente. O conceito foi feliz e a estratégia justificou-se em pleno, apesar de pelo meio, como sempre acontece em obras públicas de maior envergadura, esse aspeto ter colidido com interesses privados. Alguns munícipes podem ter-se sentido por vários motivos lesados: fosse por direitos ou posses que pensavam ter e não viram reconhecidos como gostavam, seja nos receios dos efeitos que a ciclovia/via pedonal podem produzir, designadamente na drenagem da água para as garagens em caves quando as chuvas forem mais copiosas, seja até na própria privacidade que tinham em casa ou nos quintais e agora não têm ou está comprometida.
 
Seja qual for o ponto de vista, é claro que a obra é uma mais-valia para o Entroncamento, mas, deixá-la ficar pelo que se prevê, é empobrecê-la, limitá-la a um simples e trivial benefício urbano, sendo necessário algo mais para lhe dar o golpe de asa de que precisa e merece. Posso acrescentar algumas ideias, que não são muito mais do que isso, mas podem contribuir para alguma análise e sobretudo para a sua valorização. A construção da ciclovia/ pedovia resgatou e devolveu à cidade espaços centrais abandonados, decrépitos ou mesmo conspurcados por onde apenas prosperavam o lixo e as habituais ratazanas (mesmo tendo em consideração as campanhas de desratização, estes roedores eram regulares utentes da cloaca fluvial, um habitat propício, onde se refugiavam nos recantos de acesso e nutriam nos esgotos). E deixou agora destapados amplos painéis pintados de fresco ou fachadas antigas e degradadas de velhas habitações ou arrumos com empenas cegas viradas para a ciclovia. São no seu conjunto um belo pretexto para intervenções integradas no âmbito da street art, um trabalho planificado, com muralistas reconhecidos e capazes de as prestigiar. E, tendo ainda em consideração que se irá promover a circulação por estas vias, seria bem vista a possibilidade de nelas se inscrever uma arte mural alusiva ao mundo ferroviário, aos fenómenos do Entroncamento, a histórias infantis, património local desaparecido ou personagens que os costumes tornaram figuras públicas e admiradas e mais algum aspeto relativo à identidade da cidade.
 
O novo complemento integrado no Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano valorizou a urbe com algumas áreas de lazer, aprazibilidade e descanso, mas pensamos que não as suficientes para quem as utilizar, e foi voraz nalguns locais a triturar os espaços naturais ou naturalizados, com árvores (oliveiras) e plantas (por exemplo, belladonas, que perfumavam as suas imediações). As intervenções que acompanharam a cobertura da ribeira de Santa Catarina deram um pouco a ideia de radicais e intrusivas, privilegiando o cimento, as placas de cobertura, as lajes e o asfalto em prejuízo de procurarem harmonizar-se com o que aí se encontrava e pertencia, aos costumes de quem mais próximo vivia e tinha sentimentos para, por exemplo, plantas de que cuidava regularmente. Este efeito de radicalização acentuou de resto um processo já de longo curso que afeta a cidade e que, com alguma liberdade, podemos classificar como a holandização do Entroncamento. Os antigos olivais, as velhas quintas, quintais e hortas, mesmo os espaços públicos, que eram naturais e permitiam a infiltração natural da água quando chovia, deram lugar a uma placa imensa de hectares impermeáveis que, se as chuvas forem mais abundantes, não têm para onde se escapar. E como o perfil topográfico do Entroncamento é plano e a ribeira de Santa Catarina está entulhada em silvedo quando fica descoberta depois da protourbanização da Cidade Nova, já se sabe para o que estamos guardados…
 
Last, but not least, há também que ponderar a segurança para quem, de bicicleta, em skate, de patins ou em caminhadas circula nas ciclovias. E é possível antecipar pontos de grande conflitualidade entre estes passeantes e o trânsito automóvel nalgumas artérias, como por exemplo a avenida da estação. Há que garantir a segurança de todos, mudar o chip de condutor de muitos e criar uma cultura de respeito que muita gente mais apressada prima por esquecer.