Hoje tive um sonho bizarro: Ontem à noite estava no Bataclan, a assistir a um concerto de rock com alguns dos meus amigos bem reais: O Afzal, um muçulmano, nascido na Índia, radicado em Portugal desde a década de oitenta, o Kadosh, um judeu, com quem partilhei muitas aventuras de infância entre uma jogatana de matraquilhos ou de bilhar, e o Paulo, um ateu, que voou comigo nos saudosos tempos da FAP e ainda hoje mantém comigo longos e acesos debates filosóficos.
 
Momentos antes, tínhamos acabado de jantar por ali mesmo, no 11.éme Arrondissement, num simpático e relativamente económico Petit Caveau, onde nos rimos muito com o Afzal pois ele fazia o seu brinde com coca-cola por não poder provar o nosso pastis Ricard, enquanto mandávamos uns comentários em jeito de brincadeira ao Kadosh que recusou delicadamente a Cassoulet típica com o seu feijão branco e carne de porco, e não deixando de lançar olhares surpreendidos para o Paulo, que pode comer de tudo e de tudo beber, mas insistia em não tocar nas Profiteroles, não por questões religiosas, mas porque, diz ele, deviam ser cobertas de chocolate branco! Eu, um cristão, fui convenientemente troçado quando lembrei a todos que também deveria ter prescindido de comer carne por ser Sexta-feira, o dia tradicionalmente reservado à prática da abstinência, mesmo fora do período Quaresmal.
 
E no meio desta galhofa que incluía comentários meio jocosos, mas sempre respeitadores pelos «estranhos» costumes de cada um, dirigimo-nos ao Bataclan, assim fazendo justiça ao mútuo gosto pela música, pela boa companhia que todos sentíamos quando estávamos juntos e, principalmente, por estarmos vivos e a divertirmo-nos numa sociedade que queríamos (e pensávamos) ecuménica, pluralista e inclusiva.
 
Meia-hora mais tarde estávamos todos mortos. Todos nós, os quatro amigos do mundo real, o cristão, o muçulmano, o judeu e o ateu. Fomos vítimas instantâneas de uma bala vietnamita, disparada por uma arma russa, empunhada por um cidadão francês, movido por ideias sem país, sem raça, sem religião, e sem humanidade.
 
Acordei em pânico e ensopado em suor. Eu, no conforto da minha vida que tinha sido poupada aos horrores deste sonho possível, só me conseguia lembrar das palavras de Torga: «O que é pena é que neste areal da vida, onde cada um segue o seu caminho, não haja nem tolerância nem humildade para respeitar o norte que o vizinho escolheu».
 
E chorei, convulsivamente.
 
PS: Como sempre, o autor mantém a grafia anterior ao (des)acordo ortográfico.