O projeto BARK – Biopark Barquinha, um dos maiores bioparques da Europa pensado como centro de conservação de espécies em vias de extinção, foi apresentado na sexta-feira, dia 15 de fevereiro, na Assembleia Municipal de Vila Nova da Barquinha. Pensado também como centro de conhecimento, junta a investigação científica com o desenvolvimento de programas ambientais e será o primeiro no país, segundo na Europa e quinto no mundo aberto à noite.

A localização estratégica de Vila Nova da Barquinha para a implantação do BARK, numa área de 43 hectares, na fronteira Norte com o concelho de Tomar, “deve-se à posição privilegiada desta região no coração do território português, numa zona de baixa densidade urbana, abundante em recursos naturais, servida por uma importante rede viária e ferroviária e no centro da estrela patrimonial que integra o Castelo de Almourol, o Convento de Cristo, os Mosteiros de Batalha e Alcobaça. É um dos mais interessantes destinos turísticos do país, do qual fazem ainda parte Lisboa, Coimbra e Fátima”, referiu João Paulo Rodrigues, promotor do projeto, na apresentação de ontem.

Com abertura prevista em 2021, criando 150 postos de trabalho diretos, o projeto tem um investimento global de 70 milhões de milhões de euros e vai acolher, numa primeira fase, 260 espécies animais. Provenientes de centros de reprodução e parques semelhantes, metade estão ameaçadas de extinção. O arranque do BARK aposta em quatro habitats: Arquipélago Indonésio, Pantanal, Peneda-Gerês e Savana Africana. O Biopark Barquinha terá ainda vários equipamentos de apoio ao visitante como um hotel de quatro estrelas com 130 quartos, um restaurante com 300 lugares sentados, um centro pedagógico e 397 lugares de estacionamento. A clínica veterinária do BARK estará também preparada para receber alunos das várias universidades, com as quais se prevê o estabelecimento de protocolos de cooperação.

Assente nos pilares da Conservação, Educação e Investigação é construído segundo o conceito de zoo immersion, respeitando os princípios da Arquitetura Ecológica e os recursos naturais do local de implantação. “Animais e visitantes partilham a mesma área, onde paisagens naturais são recriadas, o mais próximo possível do habitat original de cada uma das espécies. O objetivo é melhorar a saúde e bem-estar animal, mas também ampliar a experiência de quem visita o BARK, sensibilizando e alertando para a crescente extinção de espécies”, explicou João Paulo Rodrigues.

Este “refúgio natural, que pretende ser uma porta e um estímulo constante, para se aprofundar conhecimento e desenvolver respeito pela biodiversidade, de forma consistente, pelos animais que integram o sistema terrestre do qual fazemos parte”, é uma visão com um longo historial que não se pode dissociar da história do seu promotor.

João Paulo Rodrigues

Nascido em Lisboa, João Paulo Rodrigues divide a vida entre a capital portuguesa e a Quinta dos Plátanos, no Pego, concelho de Abrantes. Adquirida pelo seu pai com uma perspetiva inicial de investimento, depressa será vista como um lugar central na vida de João Paulo Rodrigues. É na Quinta dos Plátanos que o promotor do BARK desenvolve a imensa paixão pelos animais, que lhe marcam o percurso académico, licenciando-se em Biologia em Londres. Desse momento até ao projeto apresentado ontem em Vila Nova da Barquinha fez um caminho natural e inevitável. “O BARK é muito mais que um projeto empresarial, é um sonho meu. Um importante contributo para que os visitantes encarem e vivam com a Natureza numa simbiose que esperamos perfeita”, afirmou João Paulo Rodrigues.

Uma viagem no BARK

À saída da A23, na direção de Tomar, começa a perceber-se uma enorme diversidade natural inesperada no centro do território português. O Bark | Biopark Barquinha surge na sua direita estendendo-se numa longa frente marcada por paisagens diversas de continentes distantes. Ocasionalmente, por entre as árvores, espreita um elefante ou uma girafa. É o momento para que o visitante se prepare para uma expedição, uma experiência e várias lições e alertas sobre o mundo onde habitamos.

entrada é uma imersão num jardim suspenso que abre para uma praça onde encontra a bilheteira, as lojas e diversas outras estruturas de apoio ao visitante. Várias opções se abrem como ponto de partida para esta viagem de descoberta a quatro habitats/regiões mundiais, onde muitos animais estão criticamente ameaçados.

Sugerimos que comece pela Floresta Tropical ou Estufa Indonésia. Este habitat tem 1350 metros quadrados, distribuídos por dois andares. É o símbolo do arquipélago indonésio, que começa na Malásia e vai até à Papua Nova Guiné. 90 espécies de animais, sendo o mais pequeno o Grilo Asiático e o maior o Tapir Malaio, povoam este enorme Jardim Botânico de um verde intenso que invade os olhos, de uma humidade densa que invade o corpo e do chilrear de centenas de pássaros que inebria a audição do visitante.

Por entre os verdes pontuam amiúde os vermelhos e os laranjas, os frutos das figueiras e espreitam-nos os Dragões de Komodo ou a Piton Boelen, ou o Gato Enferrujado, ou tantos outros animais que a lei natural da sobrevivência moldou com perfeição durante milhões de anos. Apetece ficar aqui, quem sabe para uma sesta debaixo de uma das figueiras, digerindo a extraordinária biodiversidade aqui representada, mas prossigamos até ao Brasil, concretamente até ao Pantanal. São 6280 metros quadrados. Uma ponte suspensa estende-se sobre a água habitada por nenúfares e árvores aquáticas. Bancos de areia desenham-se na margem, onde se avistam capivaras, o maior roedor do mundo, que pode chegar a pesar 66 quilos. Veja se avista os Jaguares, que muitas vezes se dissimulam por entre as árvores. Aliás, mantenha o olhar atento, porque este Pantanal é habitado por duas dezenas de espécies que se misturam na vasta vegetação. As cascatas ou cachoeiras precipitam-se sobre obstáculos rochosos. O deslumbre é inevitável. O Pantanal é uma das regiões do mundo mais ameaçadas pela exploração de gado, neste caso, maior responsável pela destruição de habitat e por isso empurrando para a extinção os animais que dele fazem parte.

Paragem seguinte: Peneda-Gerês. O promotor do Bark fez questão de incluir o Parque Nacional comouma chamada de atenção para as ameaças de extinção de animais originários do território português. Também dar a conhecer uma das zonas de mais rica biodiversidade do mundo, considerada pela UNESCO Reserva Nacional da Biosfera. Por entre pinheiros, castanheiros e carvalhos, e centenas de outras plantas, algumas com valor medicinal, espreitam o Lobo Ibérico, aves de rapina, Cabras Pirenáicas e o Lince Ibérico. Numa área de 14.212 metros quadrados. Estes animais, bem como todos os outros, chegam aqui vindos de centros de reprodução, não podendo ser reintroduzidos no que seria o seu habitat natural. Possivelmente já é hora de almoço. Há ainda muito para ver mas é o momento de repor energias.

O Restaurante tem 300 lugares sentados e uma vista privilegiada sobre a Savana Africana, que pode visitar a seguir. A diversidade de menus corresponde à diversidade de habitats que encontra neste bioparque. Reforçam a viagem. É mais uma experiência de conhecer as várias regiões do mundo aqui representadas. O almoço decorre num lugar calmo e tranquilo, enquanto observa o movimento lento das girafas. A preocupação ambiental é uma questão de cultura neste parque e é transversal a toda a intervenção construtiva e paisagística. Também aqui essa opção é clara nos mais pequenos detalhes. Ponto de honra para João Rodrigues, por exemplo, é proibido o uso de óleo de palma dentro do BIOPARK Barquinha. Seguimos com a expedição.

Savana Africana é o habitat com maior área. Tem 96595 metros quadrados. A razão principal deve-se aos grandes animais e à sua necessidade de grandes áreas. Há um cheiro a palha seca que marca este habitat. Clarões inesperados com uma vista que se prolonga para o horizonte, surgem por entre florestas densas. Encontra-se aqui o animal mais exigente do parque: o Elefante Africano. Mas igualmente, a Girafa Reticulada, o Leão, o Texugo do Mel, as Zebras da Montanha de Hartmann e as Suricatas.

Deixamos aqui uma amostra das mais de duas dezenas de espécies que encontra nesta Savana. Esta visita demorará o dia inteiro, podendo prolongar-se para a noite: o Bark será o único bioparque português em que poderá observar a vida dos animais noturnos, no período de Verão. Na realidade, é possível que não consiga ver todos os animais num único dia, e isso deve-se às dimensões dos habitats aqui recriados, ao número de espécies, e ao facto de se lhes proporcionar a maior liberdade possível. Terá de regressar noutro dia, noutra estação do ano, à noite. O Bark não é estático, como também não o é a Vida.