O património ferroviário que assume um aspeto fundamental na âmbito da memória histórica de Portugal, continua a não merecer as necessárias atenções e precauções, seja por parte da operadora nacional CP, Comboios de Portugal, sua proprietária, seja por parte do Museu Nacional, instituição que vive acantonada e circunscrita ao Entroncamento, esquecendo a mesma fundação que tutela o museu, a sua dimensão nacional a qual deveria assumir um papel fundamental na preservação a acautelamento do património ferroviário.
 
Os atentados não param de nos surpreender um pouco por todo o país, assistindo a uma enorme indiferença, por parte dessas instituições, a pontos de surgirem casos tão insólitos, dignos de menção, como o que adiante se refere.
 
Em 2007, um grupo de aficionados do caminho de ferro adquiriu um vagão J de mercadorias, peça única, construído na Bélgica em 1885 pelas Usines de Morlanwelz (mais tarde Societé de Baume et Marpent), veio para Portugal prestar serviço na Companhia dos Caminhos de Ferro do Minho e Douro, passando a integrar a frota da CP a partir de 1947, com o intuito de o oferecer ao Museu Nacional de modo a integrar a sua coleção. O vagão que estava estacionado em Contumil, necessitava de ser recuperado pelo que os seus proprietários solicitaram à EMEF, Empresa de Manutenção de Equipamentos Ferroviários, um orçamento nesse sentido. Que nunca chegou a ser recebido pelos titulares do veículo.
 
O tempo foi decorrendo e, em fevereiro de 2018, os respetivos proprietários são confrontados com um ofício da CP, em jeito de ultimato, exigindo-lhes um pagamento de 1000 € mensais pelo seu parqueamento, imposição essa, que a não ser cumprida, tinha como consequência o regresso do veículo à tutela da CP, e consequentemente ser considerado, como sucata. Uma peça única! Pasme-se.
 
Em face do contexto, com a conivência da Fundação Museu Nacional Ferroviário, FNMF, e sem a necessária resposta por parte da EMEF, os proprietários viram-se na contingência de recorrer a apoios externos, nomeadamente no estrangeiro para salvar o veículo em questão.
 
O Centro de Estudios Históricos del Ferrocarrial Español, com sede am Martorell, prontificou-se a recolher o vagão que o transportou para o seu parque oficinal, na Catalunha, onde vai proceder à sua recuperação a custos zero, passando o seu futuro a constituir uma incógnita no que se refere à sua permanência no espólio nacional.
 
 
Consta que o conselho de administração da CP, alertado que foi para esta questão, ter-se-á sentido deveras incomodado com o sucedido, acabando por não tomar qualquer iniciativa no sentido de inverter esta situação, permitindo o desenrolar deste folhetim, denotando indiferença perante as questões da preservação patrimonial. Convém recordar que muito do espólio museológico ferroviário, não obstante estar sob a alçada do MNF / FMNF, na sua maioria é propriedade da CP, Comboios de Portugal. Esta empresa que deveria ter tido uma palavra a dizer perante tão insólita situação, remeteu-se ao silêncio, acabando por ser conivente com o sucedido. Da mesma forma, o museu nacional, nem sequer se pronunciou perante o mesmo assunto.
 
Francisco Lameiras
Alto da Lousa
Castelo Branco