Em 2002 durante as escavações arqueológicas na antiga necrópole de Constância (1), dos 151 esqueletos recuperados, há um especial. (foto) Trata-se de um esqueleto feminino de meia idade que, segundo uma prestigiada recensão académica (2), representa o primeiro caso de carcinoma maligno registado arqueologicamente em Portugal. Na publicação citada abaixo pode confirmar-se-se que «o padrão e a distribuição pelo esqueleto das lesões ósseas são consistentes com o diagnóstico de carcinoma metastático».
Segundo os autores do trabalho de investigação «considerando o baixo número de casos semelhantes na Península Ibérica este caso também é extremamente valioso para a compreensão da incidência da doença entre as antigas populações ibéricas».
No texto publicado pode ler-se que o esqueleto em causa foi encontrado enterrado numa cova de areia sem evidência de inumação de caixão. O corpo foi exumado de acordo com a cabeça para o oeste, conforme a crença cristã na ressurreição do alma – assim concluem os autores.
A importância do estudo dos esqueletos das populações para a evolução das ciências médicas foi uma das razões que levou à denúncia da descoberta destes esqueletos em 2002, mormente, por parte do autor deste escrito junto dos institutos competentes e da comunicação social (Correio da Manhã (3) No mesmo sentido e como não poderia deixar de ser estes esqueletos, concluem os investigadores: «(…)podem desbloquear uma importante fonte de conhecimento sobre a presença de tumores em populações antigas Epidemiologicamente, contribui com observações valiosas para as ciências médicas que são de grande ajuda na difícil tarefa de compreensão da origem e a evolução destas doenças».
Acima dos pés do esqueleto e de acordo com a recensão que vimos seguindo de perto, foi detectado um pequeno ossuário «provavelmente resultante de uma anterior inumação na mesma área. Finalmente, uma moeda de cobre foi recuperada sobre os ossos da mão direita. Esta ocorrência pode ser relacionados com a tradição romana do óbolo de Caronte».
De acordo com a Organização Mundial da saúde (2006), 7,6 milhões de pessoas morreram de cancro em 2005 e 84 milhões morrerão na próxima década, se não forem tomadas medidas.
O levantamento antropológico e arqueológico dos enterramentos em redor e no interior da antiga igreja de São Julião só ocorreu porque houve denúncias. A Câmara Municipal de Constância, à data, avançou com as obras de requalificação da praça Alexandre Herculano (onde se situava a antiga paroquial) e também do adro da actual igreja paroquial, sem o devido acompanhamento de arqueólogos. As obras podem esperar. As ciências médicas não. Nem os doentes oncológicos. É uma questão de … VISÃO.
José Luz (Constância)
(1) Por determinação régia em 1822 foi transferida a paroquial da Igreja de São Julião (onde se enterravam os mortos) para a Igreja da Confraria de Nossa Senhora dos Mártires, em virtude da ruína em que se encontrava a velhinha paroquiam na sequência das destruições das invasões francesas. O local da antiga paroquial corresponde à zona da actual praça Alexandre Herculano.
(2) Carcinoma metastático, séculos XIV-XIX, esqueleto de Constância, Sandra Assis e S. Codinha, Centro de Investigacão em Antropologia e Saúde, Departamento de Antropologia, Universidade de Coimbra, Coimbra, 3000-056 Coimbra, Portugal, Jornal internacional de osteoarqueologia, publicação online da editora internacional John Wiley & Sons, com sede nos EUA (editora que publica os trabalhos dos laureados do prémio nobel)
(3) Edição do Correio da Manhã, de 04/09/2002. Existe uma deliberação da Alta Autoridade Para a Comunicação Social relativa a esta peça jornalística, suscitada pelo autor deste artigo e relacionada com o direito de resposta. O jornal acabou por ignorar a minha audição pessoal. Apesar dos contactos que efectuei com a redacção, creio que de Leiria.