Em fevereiro passado, no Auditório Paulo Quintela, em Bragança, assisti à Conferência do Movimento pelo Interior. Os oradores prometiam: professores universitários, ex-deputados, presidentes de câmaras, isto é, políticos. Antes dos discursos, sentia-se salutar euforia e as expectativas eram altas. Coisas próprias destes acontecimentos.
 
Mas, após a intervenção dos primeiros oradores, tudo se desvaneceu. É sempre a mesma coisa! Textos muito bem elaborados e melhor lidos para que a assistência bata palmam. Textos escritos nos cómodos gabinetes, onde facilmente se perde o contacto com os problemas reais das populações. Textos formais bem imaginados, mas de eficiência e eficácia “zero”.
 
Os problemas da interioridade requerem outra abordagem e medidas muito concretas. Porém, antes de se avançar para o tipo de medidas adequadas, é fundamental que se perceba o paradigma mental que se construiu ao longo dos tempos. Na base de tudo está sempre o ser humano. Há verdades intocáveis e que se impõem por si mesmas. Esta é uma delas. Os homens e as mulheres são seres vivos, que têm uma atividade imanente que lhe determina o ser. Agem por iniciativa própria e desenvolvem funções vitais das mais simples às mais complexas, num constante aperfeiçoamento. Cada um de nós vai construindo o seu próprio existir, adquirindo características que nos definem. À medida que vamos evoluindo, a vida torna-se mais complexa e procura estímulos cada vez mais exigentes. Se estes estímulos não existem no interior do País, é lógico que as pessoas fujam das aldeias para as cidades e das cidades do interior para o litoral, Lisboa, Porto e Coimbra, sem excluir a busca de melhores soluções de vida no estrangeiro.
 
É certo que a resolução dos problemas da interioridade não se consegue por dá cá aquela palha. Diga-se de passagem que se houvesse uma fórmula que fosse possível aplicar como uma espécie de varinha mágica, que transformasse os desejas em realidade, então seria uma grande desmotivação, porque é na dificuldade e a imprevisibilidade que reside o sucesso das pessoas e das organizações. É nesta busca do sucesso pessoal e das organizações que se torna a azáfama entusiasmante.
 
Os oradores da “Conferência pelo Interior” deveriam partir deste patamar de raciocínio. Deveriam ter presente que os conhecimentos, habilidades e atitudes das gentes do interior são recursos que deveriam ser atendidos a acariciados, tendo em vista objectivos que interessem a todos. Para tal é que são escolhidos pelo povo. Deixem-se de administrar os municípios como quem gere condomínios fechados. Elaborem e cumpram as políticas públicas, partindo do que preciso e é necessário fazer para que aqueles que residem no interior se sintam “pessoas” e não tenham a necessidade/obrigatoriedade de sair das suas terras.
 
O bom gestor é aquele que sabe descobrir e desenvolver os talentos ocultos de cada pessoa. Há gente talentosa nas famílias, nos restaurantes, nas organizações por maiores que sejam.
 
Há dias, almocei no restaurante “Ponto de Encontro”, em Bragança. Aconselho os oradores de referida conferência a fazerem o mesmo. Poderão ver o Sr. Armindo a servir ao balcão de luvas, rápido e eficaz no servir das bebidas, atento aos que entram e saem. A Dona Marlene que escuta a velhinha que ocupa o lugar à mesa, ao mesmo tempo que coordena a atividade das restantes funcionárias, devidamente vestidas e com um sorriso bem ostensivo. Claro, não pode passar despercebido o Sr. Tony que com o seu ar experiente distribui a clientela pelos lugares mais estratégicos do restaurante. E quando os clientes não se conhecem, lá aparece o Sr. Tony a dizer: “ São da terra, são meus amigos”. Duvido! Mas lá que tem a sua graça, isso tem. Em tudo isto é notória coordenação amistosa, eficiência e eficácia. Os políticos deveriam aprender com gente desta categoria.