Vidas humanas terminadas, animais queimados, casas e bens ameaçados ou ardidos, florestas dizimadas - eis a tragédia dos incêndios. O horrível espetáculo a que assistimos nestes últimos dias põe a nu a fragilidade de qualquer ser humano e a impotência dos meios e dos homens perante a força destruidora da natureza.
 
Além do desafio que a compreensão do fenómeno nos coloca, ele exige uma reflexão profunda e séria se não quisermos assistir a idênticas tragédias nos próximos tempos. Desde logo, colocar sobre a mesa a origem do problema, antes de remediar os seus efeitos. Entre as variáveis que compõem o problema, destacaria as seguintes: o egoísmo humano, que não olha a meios para atingir fins imediatos e interesseiros ( o comercio das madeiras); a pouca importância que se atribui à floresta enquanto riqueza nacional; fraca, ou mesmo inexistente, vontade política capaz de planificar, decretar e executar o que entendemos por floresta organizada e sustentável; a angustiante desertificação do mundo rural, entre outras. Os jovens fogem, mas ficam os mais idosos, que, muitas vezes, são abandonados à sua sorte. Triste sorte a de um país assim.
 
As avultadas somas gastas com os meios materiais utilizados para fazer frente aos fogos nada têm a ver com os fracos ou nulos subsídios que dão aos pequenos proprietários para limparem as suas terras. Os fogos vêm, destroem e acabam por ser extintos. Mas, se a cultura que temos de floresta continuar a ser a mesma e a desorganização se mantiver, então outros fogos virão, com maior ou menor intensidade.
 
À vontade política é necessário que se associe a vontade de todos nós. Dizem-nos que o mundo rural não é viável. Os governantes sabem disso, mas pouco ou nada fazem a não ser comparecerem em atos fúnebres ou em ocasiões provocadoras de protagonismos saloios. Com esta política, as pessoas fogem das aldeias, as casas deterioram-se e as matas crescem desordenadamente. O pequeno proprietário não tem dinheiro para limpar os terrenos. E as terras abandonadas, quem as tratará? As forças políticas têm de se entender.
 
Não pode haver ideologias, mas sim decência e racionalidade. Os investimentos não podem continuar a cair só no litoral e grandes centros. É preciso criar condições razoáveis para que as pessoas se fixem e se sintam felizes. Mas enquanto o poder político não adoptar outra cultura para o interior e as respectivas câmaras municipais funcionarem como condomínios fechados, não iremos a lado nenhum e outras tragédias virão.
 
Estamos revoltados com a perda de vidas humanas, animais e outros bens. Estamos revoltados com os incêndios que consumiram milhares de hectares da floresta portuguesa. É importante que os fogos sejam combatidos e que os meios humanos e materiais sejam suficientes para o efeito, mas é bem mais importante que os fogos sejam prevenidos e que a justiça funcione, pois, o respeito por aqueles que morreram assim o exige.