Tenho-me encontrado e conversado com alguns amigos mais atentos do Entroncamento, e cujo exercício cívico não se esgota nos intermitentes escrutínios eleitorais, que se têm questionado nos últimos anos sobre o reposicionamento cultural dos fenómenos. Qual poderá e deverá ser o papel e o impacto social que a imagem icónica dos fenómenos do Entroncamento ainda poderá ter ou conseguir na urbe?
 
O busílis da questão dos fenómenos reside na forma como podemos ser capazes de olhar para eles. Um enxovalho para a cidade, que estorva e se deve esconder no armário quando se recebem visitas em casa, ou um símbolo de identidade e de diferenciação numa cidade que para além da sua deprimida realidade ferroviária pouca identidade possui e mais nada a diferencia entre outras mil? Os fenómenos trazem em si em simultâneo o tabu que humilha e a gema mágica que, sabendo-a lapidar, pode trazer esperança, trabalho e algum otimismo ao futuro do Entroncamento.
 
Há situações homólogas, casos para estudo, sobre as quais vale a pena determo-nos um pouco para alguma meta-análise. Os fenómenos são humilhantes e quem procura recuperar a sua memória não passa de um necrófago anquilosado? Este é um preconceito com muita convicção e pouca refexão. E mora no Entroncamento.
 
No sul de Itália, sobretudo na região de Salento, a pizzica é uma música emocionante, cuja dança que a acompanha a realça com arte e sedução. Era alvo de chacota social, parecia mal e não passava incólume aos inquisidores da opinião pública. Que era rural, um vexame, a que se acrescentavam algumas censuras que mordiam ora nas sugestões eróticas, ora nas crendices de alguns mitos. Na raiz da dança estava uma tarântula, cuja mordedura levava a uma histeria da vítima, que bailava com excitação para expurgar o veneno da mordedura e algum mal de espírito. No pântano da opinião mediana e da mediocridade que tudo nivela já há muito que lhe desejavam a tumba. Mas isso não sucedeu. Há cerca de 30 anos, alguns jovens de Salento viram na pizzica uma marca cultural identitária, e ostentaram-na com brio contra o nivelamento trazido pela globalização. Rapidamente a pizzica saiu do gueto e se tornou num ícone turístico, multiplicam-se os festivais de pizzica pela região e os turistas crescem no apreço e reconhecimento que lhe dão.
 
Outra história. Há cerca de um século, no nordeste brasileiro, o cangaço trazia as populações locais no pavor dos assaltos e da violência que os bandos de cangaceiros espalhavam por onde passavam. Fugiam os criminosos para locais ermos, e no repouso precário entre dois assaltos, cantavam e dançavam o xaxado, um ritmo que naturalmente não prima por subtilezas, mas que era o seu ritmo. O xaxado é hoje apenas uma recordação desse tempo, mas apesar da sua identificação (negativa) com o cangaço, houve quem lhe encontrasse história e romantismo, e o ser testemunho de um tempo. O xaxado está reanimado e procuram reinterpretá-lo, mais ao cangaço, contextualizando-o em representações do tempo de miséria e das injustiças dos coronéis, recusando a sua condenação ou bani-lo da cultura local. Faz parte.
 
Um último exemplo, entre muitos, pode referir-se à cidade norte-americana de Roswell, no estado do Novo México, onde em julho de 1947 caiu um objeto voador que durante décadas intercalaria períodos de intensa polémica com outros com alguma letargia de opiniões. Seria uma nave espacial tripulada por alienígenas ou um simples balão de vigilância das forças armadas dos EUA que caíra incidentalmente num rancho próximo da cidade? O caso deu para muitas narrações, mas no final Roswell soube tirar delas motivo para se tornar num prestigiado centro de ufologia e atrair congressos e outras iniciativas nestas artes residentes no limbo entre a imaginação e a realidade. Isto é, à sua maneira, soube tornar-se numa cidade criativa.
 
Os fenómenos do Entroncamento têm duas características essenciais que são talvez a razão de manterem a popularidade. Têm um lado do rosto feito de naturalidade, coisas comuns e triviais que nos são familiares e moram connosco. Mas no outro lado vive a surpresa, o insólito e o inesperado, que desequilibram e lhes dão encanto e originalidade. Ora esta combinação torna-os resistentes ao tempo e irresistíveis na tentação. A verdade é que, compreendendo os tempos modernos, e indo ao encontro dos novos turistas culturais, muitas cidades procuram o que as possa distinguir e fazer disso o seu monograma. Há exemplos sem sair de Portugal: Óbidos, Idanha-a-Nova, Sines, Constância, Belmonte ou Piódão, para não alongar a lista.
 
Os turistas do século XXI procuram percursos alternativos e experiências emocionais únicas em cidades que não sejam de plástico nem de imitação. Vejo os fenómenos com um inegável potencial no que diz respeito a trazer ideias e proventos para a cidade (nunca esquecer que o espírito antecede a matéria). Os especialistas que soubermos chamar decerto poderão criar o lado mais tangível deste mundo de sonhos, e não é preciso contratar alquimistas. No Entroncamento, muitos procuram fazer o caminho inverso, apagar tudo o que possam ser sinais de diferença e identidade, hipoteticamente perder as chaves que podem abrir caminhos com futuro.
Mas de quem será o futuro?